Fernando Pessoa (1888-1935) deixou para o nome de Álvaro de Campos alguns dos seus poemas mais estridentes (“Ode Triunfal”), mais auto-indulgentes (“Aniversário”) e mais compridos (“Tabacaria”).  São também os poemas que o tornaram mais famoso, e que deram a Campos a reputação de ser o acesso mais fácil ao “universo pessoano.”  Os admiradores de Pessoa começam sempre a escrever como Campos, pelo menos enquanto imaginam que qualquer criança de cinco anos consegue desenhar como Picasso; mas na realidade estão só a escrever sobre si próprios.

Campos não é apenas uma causa frequente de erros alheios.   É também o autor nominal de muitos poemas difíceis de Fernando Pessoa; e de alguns dos melhores. Vários foram publicados em vida (o grande “Soneto Já Antigo”, talvez de 1913, publicado em 1922), mas nem todos; e certos são divertimentos ou brincadeiras (“V. Ex. ª está proibida de: (1) pesar menos gramas”).  Entre estes conta-se um poema de 1927, “Comunicado pelo Engenheiro Naval / Sr. Álvaro de Campos em estado / de inconsciência / alcoólica.”

Embora o seu título não o augure (“Ai, Margarida!”), esse poema é a arte poética mais erudita de Fernando Pessoa.  O título é o nome português da heroína do Fausto de Goethe, que o tinha absorvido em dezenas de poemas.   Como para Fausto, a poesia foi sempre para Pessoa um negócio com o futuro, e o talento tinha de ser muitas vezes sacrificado à fama.    A Margarida de Pessoa, ao contrário da de Goethe, não é contudo salva, condenada, ou fica maluca.   Dialoga com o poeta, que insistentemente lhe oferece “a minha vida,” e lhe pergunta o que faria com ela.

Teme-se a aflição de quem recebe de presente um perú vivo.  Margarida é porém uma investidora sensata (“Tirava os brincos do prego, / Casava c’um homem cego / E ia morar para a Estrela.”) e propõe-se arrumar as nossas ideias sobre poesia.   É da opinião de que os poetas não têm de morrer de amor (“— Eu iria ao teu enterro, / Mas achava que era um erro / Querer amar sem viver”), e sabe que “há muito parvo no mundo”, decerto o jovem Fausto.  Sobretudo percebe logo que a pergunta implícita em “Se eu te desse a minha vida,” vinda de um poeta, não é uma proposição séria.

As quatro sextilhas do poema parecem um dueto de opereta; mas são realmente uma elaborada disputa neo-medieval sobre o amor e a arte.  A apoteose ocorre na última estrofe: “Mas, Margarida, / Se este dar-te a minha vida / Não fosse senão poesia?”   Margarida, insensível aos mercados de futuros, não hesita: “— Então, filho, nada feito. / Fica tudo sem efeito. / Nesta casa não se fia.”   A tese principal da arte poética de Álvaro de Campos é a de que nenhuma pessoa sensata deve considerar investir em acções ou obrigações poéticas.