Este pode ser um dos momentos mais importantes do sistema financeiro Mundial desde o acordo de Bretton Woods em 1944. O “Liberation Day” poderá vir a ser lembrado como o dia em que o mundo percebeu que não precisa dos Estados Unidos para se manter de pé na economia global, que o dólar não é insubstituível e que se os Estados Unidos decidirem isolar-se, o mundo simplesmente seguirá em frente sem eles.
Quando um país como os Estados Unidos, que por décadas foi o centro do comércio global, começa a experimentar um declínio, como o da queda do Império Romano, quando começa a fazer um tipo de movimentos unilaterais, quando faz por parecer não ter uma estratégia, desagrada ao mundo inteiro porque é rude com todos, não apenas diplomaticamente, mas na sua forma de se dirigir aos demais, então o que acontece é que os outros começam a procurar alternativas.
Há alguns dias atrás, um diplomata dinamarquês disse: “Sejamos claros, ainda vemos os Estados Unidos como um aliado estratégico, mas não gostamos do tom com que se dirigem a nós, é um insulto”.
E é assim que o resto do mundo percebe isso. E o diplomata nem sequer estava a referir-se a Donald Trump, mas às declarações de JD Vance. O mundo percebe que o governo Trump é rude na sua falta de respeito pelo resto do mundo, é despótico, é arrogante, é presunçoso. E isso tem efeitos na diplomacia mundial que já estão a acontecer.
Veja-se, a China e a Rússia a assinarem acordos em moedas locais. O Japão, a Coreia do Sul e a China a negociarem acordos comerciais entre si e vendendo as suas reservas de títulos do tesouro Americano. O que estão a fazer é a desdolarização e isso é novo.
E se olharmos também para a Arábia Saudita, que já disse há meses que não vai precisar de dólares para vender petróleo, o que estamos a ver aqui é uma desdolarização das suas economias. Donald Trump quer forçar o mundo a usar o dólar com ameaças. Não porque o mundo queira destruir o Dólar, mas porque ninguém quer ficar preso a um país que toma as suas decisões como se estivesse a jogar sabe-se lá que jogo, porque é volátil, porque nem os próprios investidores parecem acreditar nele.
As tarifas de Trump são somente a ponta do iceberg que talvez ofusquem o verdadeiro objetivo do plano americano de redesenhar a ordem monetária e corrigir os seus desequilíbrios económicos acumulados nos últimos 80 anos.
O que se vê nas tarifas é o ímpeto nacionalista e protecionista de Trump mas há um racional bem mais profundo por detrás disto, ainda fora dos radares da media focada no “Liberation Day” de Trump.
O Secretário do Tesouro Scott Bessent foi um dos poucos que se alongou sobre este assunto quando ainda nem era apontado para o lugar numa palestra fechada na GRS Conference (1) em outubro passado sendo talvez o principal formulador de toda esta estratégia com Stephen Miran (2) um economista de carreira do mercado financeiro que teve uma breve passagem pelo departamento do Tesouro durante o primeiro mandato de Trump e que agora assume a presidência do Conselho de assessores económicos do presidente,
Miran escreveu “A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System – November 2024”, um documento de 40 páginas bem detalhado com os passos necessários para realinhar o sistema económico Global. O reset económico pretendido por Trump terá impactos no mundo inteiro, nos sistemas monetários, financeiros, no comércio, nos investimentos e por isso é necessário entender o passo a passo e as possíveis consequências ao longo do percurso.
Mas vejamos antes um pequeno enquadramento já que o último grande acordo monetário ocorreu em Breton Woods New Hampshire em 1944 mesmo no fim da segunda guerra mundial, A Segunda Guerra Mundial destruiu boa parte das nações desenvolvidas e as suas indústrias e para as reconstruir em 22 de julho de 1944 foi assinado. Nesse acordo o câmbio seria fixo e atrelado ao dólar americano que por sua vez seria lastreado em ouro. Os países destruídos pela guerra poderiam levantar barreiras protecionistas para reconstruir a sua indústria e teriam acesso ao mercado americano. O Japão não poderia reconstruir as suas forças armadas mas teria a proteção militar dos Estados Unidos e seria criada a NATO. O dólar como a moeda dominante, convertível em ouro na paridade de uma onça Troy por cada 35USD com todas as demais orbitando à sua volta, não convertíveis, e com os países subscritores constituindo reservas em dólares.
Este acordo, no entanto, tinha falhas importantes para as quais vários economistas foram alertando ao longo das décadas, como Jacques Foccard (3), assessor do presidente francês Charles de Gaulle, que levou ao resgate “à força” do ouro francês depositado nos EUA (4), ou o economista belga-americano Robert Triffin que cunhou em 1960 o famoso Dilema de Triffin (5), ou Paradoxo de Triffin, que chama a atenção para o conflito de interesses entre os objetivos internacionais e os internos para o país cuja moeda serve como reserva global, como o dólar neste caso.
Duas coisas começaram a tornar-se evidentes. Por um lado reindustrialização do resto do mundo e o câmbio fixo deu início à desindustrialização da economia americana e por outro o crescimento da economia global criava a necessidade de mais dólares com as reservas de ouro de suporte ao dólar a tornarem-se insuficientes levando ao abandono unilateral, dos Estados Unidos na presidência de Richard Nixon, do padrão ouro em 1971 com o dólar a passar a ser uma moeda fiduciária.
O fim da convertibilidade do dólar antes “adivinhado” por de Gaulle, tendo-se passado desde então para o chamado “não sistema” que deixou de estar ancorado no ouro ou prata, foi um salto no escuro com cada país a deixar “flutuar” as suas moedas face às outras num regime de taxas de câmbio variáveis. Só que, este “não sistema” também tinha fragilidades importantes induzindo na economia mundial, grandes desequilíbrios, crises inflacionistas, grandes alterações das taxas de juros até se chegar ao chamado acordo Plaza (6). O dólar estava demasiado forte e os Estados Unidos, o Reino Unidos, o Japão, a França e Alemanha reuniram para decidir corrigir a situação já que havia países a entrar em colapso financeiro.
Um país responsável por prover a moeda de reserva do planeta, ao emitir essa moeda, e à medida que economia vai crescendo, é incentivado a emitir mais moeda, endividando-se com o resto do mundo, podendo chegar a um ponto em que esse endividamento é tão elevado que pode colocar em risco a confiança nessa moeda, fazendo-a mesmo perder o estatuto de moeda de reserva.
Mas logo a seguir, em 1987 os mesmos países incluiram o Canadá e tiveram de reunir de novo para alcançar o acordo Louvre, agora com objectivos opostos aos do Plaza, ou seja, travar um queda acentuada do dólar. Este foi o último acordo monetário entre as grandes economias mundiais antes da ascensão da China como segunda potência económica do planeta.
Desde então têm-se vivido instabilidades e crises várias, a crise financeira de 2008, a covid em 2020 o surto inflacionário subsequente e agora com Trump e sua equipa de assessores a quererem “resolver” os desequilíbrios deste “não sistema” económico que mantém ainda como pilar principal o dólar como a moeda de reserva mundial.
Vejamos um dado para colocar as coisas em perspectiva: em 2001, o dólar representava cerca 73% das reservas internacionais, mas segundo o Fundo Monetário Internacional, representa agora, menos de 59%. Antes da chegada de Trump já falávamos de uma quebra de 14 pontos em pouco mais de duas décadas. Esta tendência, com as suas atitudes e decisões, vai ser acelerada por Donald Trump em poucos meses não porque o euro ou oura moeda como o iene ou o yuan tenham reforçado sa suas posições, mas porque há reservas cada vez mais diversificadas.
Se virmos, por exemplo, como as compras de ouro, de yuans e moedas regionais estão a aumentar, isso é um sinal de que a hegemonia do dólar já está em queda, que ele está enfraquecendo e não por causa de ataques externos mas por causa das ameaças de Trump que ou é despótico a abordar os outros países, ou porque ameaça conquistar ou deixar de reconhecer a existência de países como o Canadá ou a soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia ou invade o Canal do Panamá e impõe sanções ao planeta Terra.
Lembrando o historiador Paul Kennedy quando disse que uma potência que combina superioridade militar com desordem económica interna, o que está para vir não é uma libertação, não é nada mais do que um declínio, e estamos assistindo ao declínio do Império Americano como vimos nos livros de história do Império Romano. É o que está a acontecer neste momento, o governo Trump está a deixar de ser previsível, está a deixar de ser confiável, e isso em geopolítica é muito, muito grave. Por quê? Quando os seus parceiros comerciais já não o consultam, quando os seus rivais se tornam silenciosamente mais fortes, você já não lidera nada, você está sendo deixado de fora.
Mas então o que pretende Trump? Parece ter basicamente dois objetivos impossíveis de conciliar:
- reafirmar o dólar como a moeda de reserva mundial e;
- corrigir os desequilíbrios internos da economia americana grandemente causados pelo próprio estatuto do dólar como moeda de reserva.
Uma forma de reequilibrar o sistema, na sua visão, é realinhando o comércio internacional pela imposição de tarifas aduaneiras recíprocas, segundo Trump, porque é o diagnóstico que lhe fazem.
A manutenção da dolarização das economias onde os Estados Unidos têm a tarefa de prover activos de reserva, traduz-se num dólar relativamente sobrevalorizado. A economia americana representava na década de 1960 cerca de 40% do PIB mundial valendo actualmente cerca de 25%-26%. Ao mesmo tempo que vai perdendo relevância na economia mundial, a procura de moeda de reserva aumenta, o que se traduz em déficits externos persistentes e cada vez mais acentuados. Daí os déficits persistentes que em 2006 atingiram quase 6% do PIB, embora rondem os 3% em média. O dólar, como moeda de reserva mantém-se “artificialmente” sobrevalorizado como explica o Dilema de Triffin, tem um poder de compra maior, mas a economia é menos competitiva e importa mais do que exporta. É esse o racional.
Na altura do acordo Plaza no início da década de 1980 o dólar estava muito forte com grandes déficits externos. À medida que foi enfraquecendo, o que levou ao acordo Louvre em 87 os deficits já tinham revertido para superavits, mas com a ascensão e entrada da China na Organização Mundial do Comércio e a sua forte manipulação das taxas de câmbio os deficits americanos regressaram e têm-se acentuado.
Quais são as consequências dos deficits persistentes?
Uma parte delas é a perda de empregos no setor industrial, na indústria transformadora e a desindustrialização em geral, uma das principais queixas das várias administrações e também da atual. É aí que se concentram as principais preocupações de Trump não tanto as de ordem económica mas mais as da segurança nacional. Pois se os EUA importam sistematicamente mais do que exportam, nalgum momento, se a tensão geopolítica se elevar, podem encontrar-se numa situação de confronto, com a China por exemplo, sem poderem garantir a sua autosubsistência em tempo de conflito aberto.
Então esta dependência das importações e a “desactivação contínua” da base industrial das últimas décadas constituem um risco para a segurança nacional, impondo-se a necessidade de correção dos desequilíbrios económicos na sua base e o realinhamento do comércio global.
Nada é indissociável das preocupações com a segurança nacional com duas agravantes que exacerbam estes desequilíbrios:
por um lado as tarifas comerciais defensivas impostas por diversos pequenas economias mundo afora que distorcem setores e indústrias tornando-as mais competitivas do que seriam na ausência das ditas tarifas e;
por outro a política cambial da China em especial desde 1994 quando praticou grandes desvalorizações de mais de 50% levando a moeda chinesa de menos de seis para mais de 8,5 yuans por dólar, de um dia para o outro.
Isso permitiu uma forte competitividade à economia chinesa e constituiu o ímpeto inicial para provocar os grandes superavits comerciais com todo o mundo tendo por base produtos chineses muitíssimo mais baratos. E a China nesse sentido manteve sempre os câmbios controlados por mais de uma década só depois começando a permitir alguma valorização controlada.
Sem dúvida que o governo chinês manipula a taxa de câmbio da moeda, garantindo assim grandes superavits comerciais quer através das exportações competitivas quer através de importações controladas, acumulando moeda de reserva na sua economia.
É dos livros que, à medida que isto acontece, e naturalmente, a taxa de câmbio da moeda de um país tende a apreciar-se, a moeda mais forte torna o país menos competitivo. Os superavits vão ficando cada vez menores até, eventualmente, se converterem em deficits comerciais. É o que acontecia normalmente nos países que não podiam manipular a sua taxa de câmbio durante o padrão ouro com o ajustamento automático das balanças comerciais e de pagamentos. Superavits durante alguns anos logo resultariam em deficits nos anos seguintes num iô-iô constante.
O sistema de moedas fiduciárias de reserva por si só, perpetua os desequilíbrios ou impede ajustes automáticos, quando temos um país como a China que manipula desde há muito tempo a sua taxa de câmbio. Estes desequilíbrios mantidos sem nenhuma correção manifestam-se na acumulação de reservas extraordinárias. A China, tendo partido de menos de 200 milhões de dólares no ano 2000, atingiu mais de 4 triliões (4×10^18) de dólares em 2014, cerca de 42% do seu PIB de então. A rapidez e intensidade com que isto aconteceu não tem precedentes na história económica e causa grandes desequilíbrios.
Se a China não tivesse manipulado a sua taxa de câmbio e tivesse permitido uma valorização regular do yuan isso significaria, claro, um menor superavit externo, um crescimento menos acentuado da sua economia e, eventualmente nalgum momento até, deficits comerciais e uma não tão grande acumulação de reservas monetárias.
O resultado de tudo isto para os americanos é que se habituaram a consumir muito mais do que produzem enquanto o resto do mundo produz muito mais do que consome, com destaque especial para a China. Neste desenho de sistema económico desequilibrado com os americanos a não quererem abrir mão do estatuto do dólar como moeda de reserva mundial, isto é a pretenderem preservar todos os benefícios e privilégios do dólar hegemónico, do poder de endividamento e consumo sem limites e do seu uso como arma financeira e geopolítica sem precisarem de mobilizar o exército, mas, ao mesmo tempo, quererem reduzir ou eliminar as desvantagens ou custos que isso acarreta, como a desindustrialização e a consequente ameaça à segurança nacional e o fardo militar e a responsabilidade por prover a segurança dos seus aliados, algo vai correr mal.
E então qual é o remédio, qual é a prescrição de Stephen Miran e Scott Bessent os principais assessores económicos de Trump para resolver estes desequilíbrios? É um plano faseado com as tarifas alfandegárias em primeiro lugar porque podem ser impostas de forma unilateral, rápida e facilmente, mas com consequências, uma vez que lançadas sem qualquer negociação prévia numa novel atitude trumpista de “quero, posso e mando”.
Por um lado na sua visão podem reduzir os desequilíbrios, diminuir os deficits e conter a desindustrialização podendo ser usadas como uma arma de negociação para forçar os demais países a reduzirem as suas tarifas e a aumentarem os seus gastos com defesa reduzindo o fardo americano com os gastos militares. Mas haverá efeitos colaterais das tarifas, porventura subestimados, como a volatilidade dos mercados, a perda e retaliação dos aliados tradicionais agora visados, que acabam por reagir e, também de forma imprevisível, a deterioração das relações diplomáticas e isso tem sido mais que visível, e por fim as tensões geopolíticas.
Portanto é bem possível que as novas tarifas acabem por trazer as maiores economias à mesa de negociações e aí sim tentarem chegar a um novo grande acordo, um novo arranjo monetário que alguns alvitram poder vir a chamar-se de o acordo de “Mar a Lago”.
Um novo arranjo monetário multilateral requer a participação, o envolvimento e a concordância dos outros países e passaria por um enfraquecimento do dólar para tornar a economia americana mais competitiva, reverter os deficits persistentes nas suas contas externas e restaurar a sua base industrial. Esse seria o principal pilar. Mas para isso acontecer os países teriam de vender as suas reservas em dólares e fortalecer as suas moedas algo que requer a concordância de todos incluindo necessariamente os Estados Unidos que não querem abandonar o papel e as vantagens do estatuto do do dólar como reserva mundial. Esta é a ideia por trás do acordo de “Mar a Lago” mas, novamente, um acordo multilateral que requer a participação e o consenso dos demais países onde tudo está interligado.
O padrão dólar, os desequilíbrios económicos, o comércio global e a segurança nacional não se podem dissociar. Já é positivo o fato de governo americano reconhecer que há um desequilíbrio e estar disposto a enfrentar o desafio mas tenho sérias dúvidas que as decisões unilaterais em especial as tarifas alfandegárias agora impostas unilateralmente, porque com resultados imprevisíveis, gerem reações adversas e retaliações dos países, piorando as relações diplomáticas e o clima negocial.
Por isso é que um novo acordo monetário para ser duradouro requer a participação dos demais incluindo a China e a liberalização completa dos controles de capitais. Será efémero, como foram o acordo Plaza e Louvre sem o dólar abandonar o estatuto de moeda de reserva, porque reequilibrar o sistema económico de forma sustentável requer novamente a adopção de um sistema baseado num ativo sólido que não seja passivo de ninguém como o ouro, mas esse osso, o dólar hegemónico, os americanos não querem largar.
O paradoxo do acordo pretendido é a manutenção da hegemonia do dólar e o seu enfraquecimento, uma espécie da quadratura do círculo. Tenhamos presente que os EUA, pelo acordo de Bretton Woods compraram ouro a 35USD por onça troy em 1944 aos diversos países por troca por dólares de reserva e que esse ouro vale hoje cerca 85 vezes mais.
3. Jacques Foccart era um confidente e conselheiro próximo de Charles de Gaulle, tendo desempenhado um papel fundamental na política externa de Gaulle, nomeadamente na manutenção da influência francesa nas suas antigas colónias, e era conhecido por criar redes informais com líderes autoritários na África francófona.
4. Em 1960, sob a liderança de Charles de Gaulle, a França iniciou um processo de conversão de dólares americanos em ouro, visando fortalecer a sua posição económica e repatriar o ouro francês, que era, em grande parte, guardado nos EUA por força do acordo de Bretton Woods
5. O Dilema:Se o país com a moeda de reserva tenta reduzir o seu défice comercial, pode estar a retirar liquidez ao sistema global, o que pode prejudicar o comércio e a economia internacionais. Por outro lado, se o país não tenta reduzir o défice, pode estar a criar problemas de dívida interna e a comprometer a sua própria estabilidade económica.