No dia 20 de Novembro, a Iniciativa liberal de Oeiras trocou a lona na estrutura outdoor que tinha na rotunda do Oeiras Parque, onde constava a mensagem “Nação Valente”, por uma outra, com uma mensagem local direcionada ao concelho e aos Oeirenses, onde se perguntava aos Oeirenses se confiariam as contas de sua casa ao Presidente da Câmara e onde aparecia uma imagem de Isaltino Morais. Era uma estrutura colocada em março.

Oito meses depois, só com a mudança de lona, esse cartaz foi retirado com enorme rapidez pela Câmara Municipal de Oeiras, com a desculpa… perdão, com a justificação de que “ofendia o Senhor Presidente”.  A notícia chegou aos meios de comunicação social e o país ficou a saber da história, com pessoas de um lado a defender a honra atacada de Isaltino Morais e pessoas do outro, a enaltecer a mensagem do cartaz como um ataque à corrupção.

Nenhuma destas leituras era a mensagem do cartaz em questão. Infelizmente, percebo o risco dessas conclusões, mas estas leituras dizem muito da visão condicionada como se vê e pensa política em Oeiras, um município onde a autarquia se confunde com o presidente. E a retirada abrupta do cartaz, infelizmente, só o confirma.

Mas falemos de política e do dia-a-dia de Oeiras. Esse passado de Isaltino Morais é irrelevante para esta situação. Cada um de nós terá a sua opinião sobre o que conhece dos factos que aconteceram e, no mínimo, devia fazer uso desse conhecimento nas suas tomadas de decisão. E um dos factos é que o homem, o cidadão, foi acusado, foi julgado, foi condenado e cumpriu a sua pena. Saiu em liberdade, foi a votos e foi eleito. É por isso que este seu passado é irrelevante para a equação atual e, consequentemente, ambas as partes estão focadas, no meu entender, na mensagem errada. Também é por isso que os ataques ad hominem não se fazem em Oeiras (além de que não se devem fazer em lado nenhum) e é também por isso que sacar da cartada da virgem ofendida não funciona. Dito isto, o peso da História só é efetivamente pesado para quem o carrega.

Esclarecido o enquadramento do que não é, falemos do que é. Ou seja, o que está aqui em causa não é esse passado de Isaltino, de que muitos não se conseguem desprender. A pergunta do cartaz é devida e tem como objetivo primeiro avaliar o passado de Oeiras para se poder construir o futuro de Oeiras. E poucos foram os que responderam à questão. Por exemplo, um presidente de uma Câmara que gasta milhões em ajustes diretos para ter estátuas em rotundas, é alguém a quem devemos confiar as nossas contas? Um presidente de uma Câmara, que apenas no último ano investiu em soluções num problema gravíssimo do concelho, como a recolha do lixo e a limpeza urbana, faz um vídeo a dar um “ralhete” aos mal comportados Oeirenses que não colocam o lixo no sítio devido, tirando de si toda e qualquer responsabilidade, quando, na verdade, é o único responsável pelas políticas que devia ter implementado, é alguém a quem devemos confiar as nossas contas? Um presidente, que há 30 ou 40 anos lançou as bases para transformar o concelho – e bem. Sim, há elogios no histórico– mas que nos últimos 15, não se reinventou, insiste nas mesmas políticas de betão envelhecidas que já não trazem soluções e criam problemas graves de estacionamento, trânsito e uma falta de transportes públicos, é alguém a quem devemos confiar as nossas contas? E falando em transportes públicos, alguém que investe o nosso dinheiro numa estrutura interna de transportes, chamada Combus, que muito poucos usam porque ninguém sabe a que horas passa, e serve apenas para promoção política, é alguém a quem devemos confiar as nossas contas? Esta era a pergunta do cartaz da Iniciativa Liberal. Perguntar aos Oeirenses se estão contentes com a gestão ou, neste caso, a falta dela em Oeiras, se estão contentes com a falta de transparência e se estão contentes com a falta de soluções e de rumo que o concelho leva. Em nada se quer saber do passado de Isaltino. Em tudo se quer saber das decisões e políticas atuais e do futuro de Oeiras.

Qual é o problema destas políticas e do ocorrido com a retirada deste cartaz, então? Condiciona o futuro de Oeiras, limita a liberdade de opinião e a democracia que é vital para o escrutínio e para a transparência. E fortalece a prepotência de indivíduos que se confundem com a própria Câmara Municipal, achando que tudo podem e a nenhuma prestação de contas são obrigados. Talvez seja essa a realidade na “Oeiras política” das últimas décadas, quase um Isaltinistão, onde vários partidos se submetem a um presidente, abdicando de fazer oposição. Mas esta terra chama-se Oeiras e está na altura de ser devolvida aos Oeirenses.