Constata-se que há cerca de dois anos que não havia tão poucos desempregados em Portugal.

Ora esta constatação corresponderá à realidade acerca do número efetivo de desempregados? A resposta é óbvia. Para o cálculo destes números são utilizados os dados do IEFP, ou seja, o número de desempregados inscritos nos centros de emprego.

O valor de facto recuou 3,8% em junho, em termos homólogos, e 2,5% face a maio, o valor mais baixo desde julho de 2023, segundo dados do IEFP.

Mas isto não significa que não haja mais, ou menos desempregados em Portugal. Significa apenas que existem menos pessoas inscritas o que pode levar a falsas interpretações.

Por exemplo, o facto de um cidadão não se encontrar inscrito no centro de emprego pode significar várias coisas; a primeira que não aufere de subsídio de desemprego e como tal deixa de estar inscrito para trabalho no IEFP, a outra, que se encontra ocupado em programas de estágio, ocupação ou formação, o que o retira automaticamente da listagem de inscritos disponíveis para emprego.

Se estas duas realidades já per si condicionam o número real válido para a estatística, poderá ainda existir uma outra variante também válida para a redução do número de desempregados em Portugal: o cidadão não auferir de qualquer subsídio que o obrigue a estar inscrito e numa perspetiva de falta de confiança na obtenção de um emprego através do IEFP, optar pela não inscrição, libertando-o de eventuais obrigações e deveres na procura ativa de emprego.

A economia paralela e o trabalho temporário ou sazonal, podem contribuir para estes números, dando uma falsa perspetiva da realidade Nacional. E aqui poderiam entrar outros números, como a taxa de sucesso de empregabilidade que o IEFP tem e a possível baixa taxa de sucesso na colocação de um potencial trabalhador.

A multiplicação do elevado número de empresas de trabalho temporário em Portugal, pode ser indicador de sucesso ou insucesso das políticas estatais. Assiste-se há muito tempo a uma espécie de clima de concorrência entre o IEFP e as empresas privadas em Portugal, que nada contribui para a confiança das empresas e de quem necessita de contratar.

Aliás, nos fóruns de discussão e debate, frequentemente assistimos a empresários que apontam a dificuldade em recrutar trabalhadores através dos serviços estatais, tendo que recorrer às empresas de trabalho temporário, que vêm assim as suas expetativas facilitadas face às necessidades sazonais e prementes dos empresários.

O mundo do trabalho tem mudado imenso e as necessidades nem sempre vão de encontro à máquina demasiado burocrática e demasiado estilizada do Estado.

Estes fatores colocam-nos com sérios níveis de stress social e de desempenho do próprio IEFP que continuamente opta pela limpeza automática, por períodos de 90 dias, de inscritos em face da não reposta atempada de uma simples convocatória postal, já de si pouco fiável, por parte do potencial trabalhador.

Como resolver esta questão tão importante para economia nacional e para as políticas nacionais e internacionais no sentido de atenuar as clivagens sociais e os problemas da falta de trabalho ou da dificuldade em obtê-lo facilmente?

Em primeiro lugar as autoridades deveriam preocupar-se em estabelecer parcerias e programas que permitam um acompanhamento devido de personalizado a cada cidadão e realidade, colaborando, por exemplo, como acontece em alguns países europeus, na sua procura ativa de emprego, mesmo depois do términus de subsídios, ou da sua falta de condições para a atribuição dos mesmos. Estamos a falar de um universo bastante vasto e que poderia resultado bastante significativo na regulação do número de migrantes que ocupam determinadas funções que geralmente não têm procura pelos portugueses, muitas vezes, por falta de informação ou de habilitações e condições para o fazer.

Existem certamente outras narrativas e outros indicadores por detrás desta problemática. Terá o Estado alguma vez capacidade de contrariar a realidade, ou vivemos num país onde todos somos considerados números e vivemos para os números?