Ao longo destes 50 anos da nossa ainda jovem democracia, com as suas atuais dores de crescimento, verificamos que a centralização do poder na metrópole e no litoral português, contribuiu para o esvaziamento e, muitas vezes, esquecimento do Interior do País.

De facto, nem a grande quantidade de políticos influentes e com cargos de relevo na governação, vindos do Interior do País, fez com que as regiões do Interior obtivessem quer a relevância, quer os padrões de desenvolvimento que impedissem a perda populacional atual.

E se existem razões que justificam tal acontecimento, desde o abandono da agricultura, passando pela falta de investimento em redes viárias e de transportes públicos, ou a centralização de serviços públicos numa regionalização que nunca se pacificou na sua construção política, já a falta de recursos e o desinvestimento é por si só uma causa deveras importante.

As múltiplas mudanças dos governos, quer à esquerda, quer à direita também não foram capazes de materializar a nossa localização estratégica face a Espanha e à Europa.

Olhemos para a rede ferroviária para perceber que se investiram milhões na sua reestruturação, mas, quer seja por falta de planeamento com Espanha, quer pela reduzida taxa de utilização, modernizou-se pouco e sem a correção necessária que permita ativar uma maior mobilidade, veja-se o tempo de viagem que pouco mudou entra Lisboa e a Guarda por exemplo.

Ao nível dos transportes públicos, o fim dos apoios à manutenção das linhas interurbanas, contribuiu ainda mais para o fosso populacional que hoje carateriza o interior do país.

Ao nível dos serviços, a centralização de fecho de serviços públicos essenciais como tribunais e outros, fez com que quem vive no Interior tenha que se deslocar para longe da sua área de residência para poder tratar de assuntos simples e que em nada promovem a coesão territorial.

Hoje, acordou-se já tarde para uma problemática dependente das relações com Espanha é baseada na elevada perda populacional. Não fossem as empresas tecnológicas ou oriundas de nichos de mercado que não valorizavam a qualidade do produto e o cenário seria ainda mais catastrófico.

Veja-se o exemplo da ferrovia e da recente decisão do Governo Espanhol na linha de Alta Velocidade, que deixa por terra as ambições da população do interior do centro do país cada vez mais envelhecida e pobre.

Ainda que a oportunidade pudesse trazer à luz a eventual criação do segundo aeroporto em Beja, minimizando custos e permitindo o alargamento das áreas populacionais nesta linha, a atual aprovação do OE para 2026 dita exatamente mais do mesmo para o desenvolvimento do interior do país, motivada por interesses privados e pela falta de uma visão agregadora e defensora das várias regiões, que continuam a perder oportunidades pela sua incapacidade de entendimento e operância.

O futuro tecnológico e liberto de um espaço físico centralizado, não parece funcionar no Interior de Portugal, pois a perda populacional criou um fosso demasiado elevado para a sua regeneração.

O Turismo tem sido o motor económico do país. Talvez o mal menor para que danos maiores não tenham acontecido. No entanto, todos sabemos que os fluxos turísticos não são eternos e que os conflitos globais ou grandes crises podem criar dificuldades irreparáveis neste âmbito.

No meio desta teia tecida com um fio muito frágil, baseado em oportunidades de negócio que, ou destroem o território e trazem perigos para a saúde das suas populações, ou que são reféns da sua pouca competitividade no mercado internacional, que destino terá o Interior português a médio e longo prazo?