Este artigo dirige-se às pessoas que são de direita e não têm complexos nem medo em assumi-lo. Visa explicar como é que a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente foi prejudicial para os portugueses, pois funcionou como um travão adicional às mudanças urgentes que o nosso país necessita.

Marcelo tem duas faces, ambas genuínas. De um lado está o Marcelo afável, conversador, energético, disponível, caridoso e afectuoso. Este é o Marcelo que admiramos. Estive com ele poucas vezes, mas foram suficientes para perceber que tudo isto é sincero.

Admiro-o por ser um verdadeiro e bom católico, coisa rara na classe política. Recordo-me bem da sua presença discreta na Igreja de Cascais, ao fundo, num recanto junto à pia baptismal, quando assistia à missa de Domingo.

Acima de tudo, admiro a sua entrega abnegada aos outros, de uma forma que às vezes se torna até cansativa, mas que é anterior ao mandato, como eram as visitas a doentes que fazia antes de ser Presidente.

Admiro o Marcelo Rebelo de Sousa que apoia os necessitados, que distribui afectos. Essa é a faceta genuína de Marcelo, que os portugueses devem admirar e que é um exemplo a seguir. Este é o Marcelo afastado das questões políticas e preocupado com a realidade de cada pessoa, confirmando a cada momento a sua fé e formação cristã.

Votei nele, também, por que se apresentou como um candidato único e independente, cortando as ligações partidárias quando percorreu o país sozinho, almoçando com bombeiros, confraternizando com pescadores, falando com uns e com outros, enfim, com todos.

Após a sua eleição, definiu como missão a motivação dos portugueses, a criação de um espírito que nos permitisse ultrapassar os tempos difíceis da “troika” e a humilhação da bancarrota. Para isso aproveitou tudo para enaltecer as virtudes nacionais. Esta é a face que deu um contributo positivo ao país, tentou animar as pessoas a sentirem-se bem por serem portuguesas. Tentou valorizar a alma lusitana.

Tudo isto é bom, tudo isto é admirável, mas um presidente não é só isto. O seu papel não é fazer oposição ao Governo, como alguns esperavam que fizesse, mas também não é fazer de “muleta” do Governo, como na realidade fez ao longo de todo o mandato.

A única excepção a este papel subserviente foi numa das vezes em que a incompetência governativa se tornou de tal maneira evidente que ele teve de intervir, como aconteceu nos fogos e nos 115 mortos de 2017, e no “puxão de orelhas” que deu depois ao Primeiro-Ministro. Mas foi uma excepção.

A prática constante de Marcelo-Presidente foi dizer “esfola” quando o Governo disse “mata”. Acima de tudo, Marcelo surge publicamente como um apoiante de todas as políticas do Governo, mesmo quando a incompetência foi indisfarçável ou a ilegalidade esteve presente (basta lembrar Tancos e o proposto Presidente da CGD, António Domingues).

Esta é a segunda face de Marcelo. Ele privilegia o consenso acima de tudo, na tradição socialista democrática ou social-democrata que vem do 25 de Abril, mesmo que isso represente um maior atraso no desenvolvimento e signifique a cedência a partidos e a sectores da sociedade que não se identificam com a democracia liberal.

Com Guterres, Marcelo privilegiou sempre o consenso sobre a oposição, como Rui Rio faz hoje com o seu patrocínio. Os governos de Guterres foram os que iniciaram o desequilíbrio da sociedade portuguesa e o caminho para a bancarrota de 2011. Foram governos de oportunidade perdida, em que se começou a distribuir dinheiro que não havia, beneficiando das reformas feitas pelos governos Cavaco, mas criando uma situação insustentável que Guterres abandonou, deixando os portugueses à deriva.

Marcelo colaborou com tudo isso entre 1996 e 1999, quando liderou o PSD e viabilizou três orçamentos do Governo socialista. Em nome do consenso, nunca quis cumprir o papel que lhe competia, o de líder da oposição, deixando a essência da democracia, que é a apresentação de propostas alternativas e concorrentes, para segundo plano. Como Rio faz agora.

Por isso, não é de espantar que Marcelo esteja contente com a situação do país. Estagnação é quase um sinónimo de estabilidade e a estabilidade é propícia ao consenso. Foi este consenso que se verificou no final dos anos de 1990 e foi o que se acentuou nos últimos cinco anos.

A segunda face de Marcelo também é genuína, mas está a ser muito prejudicial para os portugueses. O resultado deste “consenso” foi que, um Governo cuja única actividade foi gerir a conjuntura, um Governo que não tentou mudar nada num país que está há 20 anos estagnado, um Governo cuja preocupação com o desenvolvimento nunca passou do discurso para a realidade, foi um Governo que teve um apoio incondicional do Presidente da República.

Portugal precisa das mudanças que o Governo não fez e que o Presidente não incentivou, como lhe competiria. Pelo contrário, ao apoiar o Governo, Marcelo apenas facilitou a ausência de reformas. Deste modo, o Presidente funcionou, na prática, como um travão adicional ao desenvolvimento do país.

Mas Marcelo tem obrigação de saber que são os desígnios, e as mudanças necessárias para os alcançar, que verdadeiramente levantam o espírito de um povo. Não são os efeitos fáceis e temporários, como o futebol, que tiram uma sociedade da estagnação. Como católico, Marcelo sabe perfeitamente que não é a recompensa imediata que motiva o ser humano, porque essa esfuma-se rapidamente.

Marcelo funcionou demasiado tempo como apoiante do Governo e não são uns vetos presidenciais que vão alterar esta percepção. Não é função do Presidente fazer oposição ao governo. Mas tal como Marcelo tentou puxar pelo ânimo dos portugueses, deveria também ter tentado puxar pelas reformas do Governo. Não o fez e preferiu a gestão da conjuntura e a estagnação na estabilidade.

Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Por isso não devemos votar em Marcelo.

P.S.: Como as alternativas que se apresentam também não são convincentes no que se refere à implementação das mudanças de que Portugal necessita, não terei outra hipótese senão votar em branco.