Cerca de metade das vagas abertas pelos hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT) para a colocação de médicos recém-especialistas ficou por ocupar, o equivalente a cerca de 270 lugares, em várias especialidades, e sobretudo nos hospitais mais periféricos da região de LVT. Os sindicatos médicos alertam que a elevada proporção de vagas por preencher mostra a fraca atratividade do SNS e da carreira médica, enquanto os administradores hospitalares justificam os resultados com o elevado custo de vida na região de Lisboa, que dificulta as contratações.
Segundo os dados enviados ao Observador pelas 12 Unidades Locais de Saúde (ULS) da região de LVT, conjugados com a análise dos resultados publicados nos sites das ULS, foram preenchidas apenas 289 das 557 vagas colocadas a concurso, o que equivale a 52% do total. Dito de outra forma, praticamente metade dos lugares colocados a concurso ficaram por ocupar, isto é, 268.
Ao Observador, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) indica que, a nível nacional, “das 1552 vagas disponibilizadas, foram ocupadas 793 vagas para as especialidades da área hospitalar”.
Enquanto as ULS da cidade de Lisboa (que, tradicionalmente, pela sua localização e diferenciação conseguem ser mais atrativas) conseguiram preencher a larga maioria das vagas —mais de dois terços dos lugares que colocaram a concurso —, a percentagem de lugares ocupados diminui consideravelmente nas ULS mais periféricas como as do Oeste (com sede nas Caldas da Rainha), Estuário do Tejo (com sede em Vila Franca de Xira) ou Lezíria (com sede em Santarém).
▲ A ULS do Estuário do Tejo, que abarca o Hospital de Vila Franca de Xira, teve um dos piores resultados: só preencheu nove das 42 vagas
MÁRIO CRUZ/LUSA
Hospitais conduzem os concursos mas fraca capacidade de atrair médicos mantém-se
Desde 2024 que os concursos para a colocação de médicos recém-especialistas hospitalares — que terminam habitualmente a formação em março — está descentralizada. Isto é, são as próprias ULS a lançar os concursos, ao contrário do que acontece com a Medicina Geral e Familiar e Saúde Pública, cujas colocações estão centralizadas na Administração Central do Sistema de Saúde, um ‘braço’ do Ministério. No ano passado, o processo de colocação de médicos de família foi também descentralizado mas não correu bem (deixando os recém-especialistas meses à espera de serem contratados), o que levou a que a tutela tivesse decidido voltar a assumir o processo neste ano, fazendo um único concurso.
No caso dos hospitais, a responsabilidade ficou do lado das ULS. A 17 de abril, os gabinetes da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, publicaram o mapa de vagas para o concurso de colocação de médicos de 1.ª época de 2025, sendo que cabe depois a cada ULS abrir os concursos, um por cada especialidade, com as vagas que entenda necessárias, respeitando os limites definidos. Em 2025, os concursos começaram a ser abertos, na maior parte dos casos, no mês de maio, mas alguns só foram abertos em junho e até em julho.
Cada ULS tem de constituir um júri para cada um dos concursos, definir critérios de classificação, organizar avaliações e firmar contratos com os especialistas que venha a contratar, um processo que pode arrastar-se durante semanas.
A falta de atratividade dos hospitais da zona de Lisboa é uma realidade que se arrasta há anos, e que dificulta a renovação e o reforço dos serviços, prejudicando a resposta às populações.
Na análise aos concursos para a colocação de recém-especialistas, as ULS da Lezíria e do Oeste foram as que tiveram pior desempenho. Na Lezíria, apenas ficaram preenchidas sete das 41 vagas (17%), com especialidades nucleares, nomeadamente para o funcionamento dos serviços de urgências, como Anestesiologia e Pediatria, a ficarem desertas. Das oito vagas abertas para Medicina Interna, apenas duas foram preenchidas. Na ULS do Oeste, o cenário foi ainda pior em termos de número absoluto de médicos colocados: apenas seis para 37 vagas (16%). Aqui, nenhuma das oito vagas para Medicina Interna (a especialidade basilar das urgências) foi ocupada, sendo que também as três vagas para Ginecologia/Obstetrícia ficaram desertas.
Hospitais a norte de Lisboa apenas preencheram cerca de um quinto das vagas
Noutra ULS que tem um défice crónico de especialistas em várias áreas, e uma dificuldade evidente em atrair médicos, a do Estuário do Tejo, o cenário não foi melhor: foram ocupadas apenas 9 das 42 vagas, o equivalente a 21% do total, com a maioria das especialidades a ficarem sem colocados (nomeadamente Cardiologia, Cirurgia, Pediatria ou Ortopedia). Nesta ULS, que serve uma área com quase 300 mil habitantes, as equipas de Medicina Interna foram reforçadas apenas com dois médicos, quando tinham sido disponibilizadas cinco vagas. Das três vagas para o serviço de Oncologia, nenhuma foi ocupada.
“Estes resultados globais demonstram que a atratividade da carreira em Lisboa e Vale do Tejo é diminuta“, diz o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, Nuno Rodrigues. Já a presidente da Federação Nacional dos Médicos fala num cenário “dramático” na região de Lisboa e responsabiliza a tutela, nomeadamente pela descentralização dos concursos para as ULS e pela falta de medidas para melhorar as condições de trabalho dos médicos.
“As condições de trabalho estão degradadas, em Lisboa e Vale do Tejo os serviços estão no limite. Quanto mais desfalcados estão, mais difícil é atrair recém-especialistas. Perante o caos que está instalado, é evidente que os jovens não querem ir trabalhar para esses serviços”, diz Joana Bordalo e Sá, considerando preocupante a situação em especialidades como Obstetrícia, Medicina Interna e Anestesiologia.
Na ULS do Médio Tejo — que agrega os hospitais de Tomar, Abrantes e Torres Novas — mais de metade dos concursos terminaram sem colocados e apenas foram preenchidas nove das 24 vagas (37%), quatro das quais em Medicina Interna.
Já nas ULS da Península de Setúbal, os resultados dos concursos lançados foram melhores em relação aos hospitais a norte de Lisboa mas ainda assim, em duas das ULS desta região mais de metade das vagas ficaram por ocupar. Na ULS do Arco Ribeirinho, com sede no Barreiro, foram preenchidas 12 das 27 vagas (44%), com nove das 20 especialidades a ficarem desertas, nomeadamente Cardiologia, Ortopedia, Pneumologia ou Ginecologia/Obstetrícia (que tinha duas vagas). A incapacidade em atrair obstetras para o Hospital do Barreiro, num serviço que tem apenas sete médicos, e está muito envelhecido (uma vez que a maior parte dos especialistas tem mais de 55 anos e está dispensado de fazer urgência) pode ajudar a consolidar, na tutela, a convicção de que a melhor solução é concentrar as equipas na urgência obstétrica do Garcia de Orta.
Na ULS da Arrábida, com sede em Setúbal, foram preenchidas 15 das 35 vagas (43%), com metade dos concursos a terminarem sem nenhum colocado, nomeadamente Anestesiologia, Otorrinolaringologia ou Oncologia. Melhores foram os resultados da ULS Almada-Seixal, com 30 das 44 vagas preenchidas (68%). Ainda assim, três das quatro vagas para Pediatria e três das seis vagas para Medicina Interna ficaram por ocupar.
Na ULS Loures-Odivelas, que abarca o hospital Beatriz Ângelo, foram preenchidas 59% das vagas (23 das 39 colocadas a concurso), com os serviços de Pediatria, Medicina Interna e Ginecologia/Obstetrícia a serem reforçados com seis, cinco e três vagas, respetivamente. Na ULS Amadora-Sintra, foram ocupadas 31 das 58 vagas. Na especialidade mais ‘delicada’, Cirurgia Geral (cujo serviço chegou a estar em risco, depois da saída de 13 especialistas), a ULS abriu 15 vagas, mas apenas duas foram preenchidas.
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Gestores hospitalares culpam o elevado custo de vida em Lisboa pelos fracos resultados dos concursos
Para o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, o elevado custo de vida é parte da explicação para a falta de capacidade dos hospitais em contratar médicos. “O custo de vida em Lisboa é incomportável para um profissional de saúde. Temos camas fechadas por falta de enfermeiros. E depois a carreira médica não é competitiva, para além das dificuldades que os médicos encontram num hospital do SNS”, vinca Xavier Barreto.
“Em LVT sabemos que o custo de vida é mais elevado e o setor privado está desenvolvido”, salienta a presidente da Federação Nacional dos Médicos, que alerta que, sem valorização das carreiras e apoios, os médicos acabam por não ficar no SNS. “Os médicos acabam por sair, são aliciados pelo privado ou por oportunidades no estrangeiro. O SNS não dá condições para ficarem”, critica Joana Bordalo e Sá, pedindo medidas de valorização das carreiras.
“Em 2012, um recém-especialista ganhava 6,2 vezes o salário mínimo nacional, e agora em 2025 ganha, por falta de reposição do poder de compra, 4 vezes. Em 2027, estima-se que ganhe 3,6 vezes o salário mínimo. Isto demonstra a desvalorização crescente da profissão médica”, lamenta a dirigente sindical, criticando também a descentralização dos concursos hospitalares para as ULS, que, diz, atrasam o processo e conduzem a uma menor capacidade de fixação de médicos. “Quando os concursos estavam na ACSS, os médicos eram rapidamente colocados. Esta espera de meio ano é injustificável e cria assimetrias entre médicos de família e médicos hospitalares”, lembra, responsabilizando o primeiro-ministro e a ministra da Saúde.
Sindicatos pedem apoios, valorização das carreiras e conceito de serviços (e não vagas) carenciados
Joana Bordalo e Sá defende ainda a atribuição de um apoio à habitação para os médicos que aceitem trabalhar na zona de Lisboa e Vale do Tejo. “Devem ser considerados apoios à habitação, que é o maior problema de Lisboa”, sugere.
Para o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, uma das soluções passaria por eliminar o conceito de vagas carenciadas (que têm uma majoração salarial e outros benefícios para os médicos) e passar a aplicar esse conceito a serviços inteiros, evitando desigualdades dentro de um mesmo serviço “Temos defendido que deve haver, principalmente nas especialidades altamente carecidas e com menor taxa de retenção de especialistas, serviços carenciados em vez de vagas carenciadas. Dessa forma, evitávamos a saída dos especialistas e atraíamos”, garante.
Sem surpresa, as três ULS da cidade de Lisboa tiveram as percentagens mais altas de colocações de recém-especialistas, acima de dois terços das vagas preenchidas. A ULS de Santa Maria, que abarca também o Hospital Pulido Valente, conseguiu colocar médicos em 50 das 76 vagas (66%). No concurso de Medicina Interna, foram preenchidas sete das 12 vagas, na Ginecologia/Obstetrícia apenas uma das quatro (embora a ULS saliente que entraram mais especialistas fora do concurso) e três das cinco vagas em Ortopedia — um serviço muito carenciado, cuja falta de especialistas para preencher as escalas levou ao fecho da urgência na maior parte dos dias do mês de agosto, como noticiou o Observador.
Na ULS de Lisboa Ocidental (que agrega os hospitais São Francisco Xavier, Egas Moniz e Santa Cruz) foram ocupadas 46 das 68 vagas colocadas a concurso (67%), sendo que, por exemplo, na Ginecologia/Obstetrícia todos os cinco lugares ficaram desertos, impedindo um reforço de obstetras que seria importante num serviço com muitas carências e que recorre frequentemente a prestadores de serviço. Na Medicina Interna, apenas um terço das vagas (três em nove) foram preenchidas.
A maior ULS do país, a de São José, acabou por ser a que teve melhor desempenho em LVT, ao ter preenchido 51 das 66 vagas (77%). Foram ocupados todos os lugares colocados a concurso na especialidade de Pediatria (numa ULS que abarca o hospital Dona Estefânia, referência na área pediátrica para Lisboa e o sul do país) e também sete das 13 vagas de Medicina Interna. Apenas duas especialidades (Pneumologia e Radiologia) ficaram desertas.
▲ "Os médicos acabam por sair, são aliciados pelo privado ou por oportunidades no estrangeiro. O SNS não dá condições para ficarem", diz a presidente da FNAM, Joana Bordalo e Sá
TIAGO PETINGA/LUSA
Ginecologia/Obstetrícia só preencheu oito vagas em toda a área de Lisboa. Situação na Medicina Interna é “preocupante”
Na análise por especialidades, a Ginecologia/Obstetrícia volta a ficar muito aquém do desejado. Das 33 vagas a concurso em todas as ULS de Lisboa e Vale do Tejo, apenas oito foram preenchidas, um dado que reforça a convicção da comissão de peritos nomeada pela ministra da Saúde para as áreas obstétrica e pediátrica, que já deu conta ao governo da necessidade de serem criados incentivos às equipas obstétricas para fixar e atrair profissionais no SNS. A proposta foi feita há um ano mas a tutela ainda não concretizou a medida.
Na Medicina Interna, apenas foram ocupadas 42 das 84 vagas na região de LVT, ou seja, 50%. “A situação na Medicina Interna é preocupante. A falta de atratividade vê-se no acesso à especialidade, em que sobram vagas, e se depois não se retêm os especialistas. É duplamente preocupante, porque é a especialidade estruturante de qualquer hospital”, diz o secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos. Já o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) salienta que a dificuldade em atrair especialistas piorou desde a pandemia de Covid-19, o que, associado ao desgaste relacionado com a urgência e à mudança geracional (em que os médicos jovens preferem uma menor carga horária), faz com os serviços se ressintam.
“A Medicina Interna é a única especialidade responsável pela área da urgência, 24 sobre 24 horas. Fazemos horas incómodas. É desgastante e mal paga“, lamenta Luís Duarte Costa, defendendo que outras especialidades (como a Endocrinologia e a Pneumologia) também deveriam participar nas escalas, retirando pressão sobre a Medicina Interna. Salientando que a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, reconhece o problema, o presidente da SPMI adianta que a entidade que lidera já propôs a criação de Centros de Responsabilidade Integrada (CRI) para a Medicina Interna — semelhantes aos que existem para outras especialidades — forma a atrair médicos.
Na Anestesiologia, ficaram por preencher a maior parte das vagas. Foram ocupados apenas 18 dos 46 lugares a concurso.