Há semanas em que um país se revela por inteiro. As últimas foram dessas. Entre um Ministro da Administração Interna cercado de suspeitas e um Ministro da Educação que transformou os exames nacionais num pesadelo coletivo, Portugal mostrou, mais uma vez, aquilo que tantos de nós nos recusamos a aceitar: somos um país onde a exigência é toda para os cidadãos comuns e a complacência é toda para quem manda.
Comecemos por Luís Neves. Não é um ministro qualquer. É o antigo Diretor Nacional da Polícia Judiciária, o homem que durante anos personificou o combate ao crime económico e à corrupção em Portugal. E é precisamente por isso que o caso é tão devastador. Soubemos que o ministro contratou, a título pessoal, para remodelar a sua propriedade em Odemira, um empreiteiro cuja empresa celebrou avultados contratos com a própria Polícia Judiciária no período em que Neves a dirigia. Um empreiteiro que o ministro hoje trata publicamente por “amigo” e de quem garante que continuará a ser amigo. Soubemos que lhe entregou cinco mil euros para “pequenas despesas” e “fundo de maneio”, que faturas das obras foram registadas em nome da empresa unipessoal da sua mulher, e que a declaração de património entregue à Entidade para a Transparência omitia essa mesma empresa, uma conta bancária com mais de 133 mil euros e uma parte substancial das suas dívidas. Perante tudo isto, a resposta do ministro foi um encolher de ombros: “mero lapso”. Três declarações corrigidas em apenas cinco meses. A juntar a isto, notícias de averiguações do Fisco, a atenção da Procuradoria-Geral da República e ainda acusações de ameaças a um líder partidário, que o próprio nega mas que ensombram ainda mais o cargo.
Presumo a inocência de Luís Neves, como a lei manda e como a decência exige. Mas a pergunta impõe-se, e nenhuma das entrevistas televisivas que o ministro deu conseguiu apagá-la: como é possível que quem dirigiu a principal polícia do país, quem conhecia melhor do que ninguém as regras da transparência, das incompatibilidades e do conflito de interesses, tenha acumulado tantas “trapalhadas” em tão pouco tempo? Se não cumpre escrupulosamente a lei quem a devia encarnar, que exemplo resta para os restantes? Um Ministro da Administração Interna, tutela das polícias e da segurança interna, não pode governar debaixo de suspeita permanente. A autoridade moral não se decreta em conferência de imprensa: ou existe, ou não existe. E quando deixa de existir, a única saída digna chama-se demissão.
Passemos a Fernando Alexandre. O Ministro da Educação decidiu revolucionar a classificação dos exames nacionais com uma plataforma digital que se revelou um desastre anunciado, apesar de o projeto-piloto do ano passado já ter mostrado falhas. O resultado está à vista: plataformas em baixo, professores classificadores em desespero, prazos de divulgação das notas adiados por duas vezes, segunda fase remarcada, uma “época especial” improvisada para setembro e um debate de urgência no Parlamento em que o ministro admitiu “erros”, mas garantiu que estava tudo controlado. Não estava. Milhares de jovens do ensino básico e do ensino secundário viveram semanas de angústia num dos momentos mais decisivos das suas vidas, sem saber quando teriam notas, quando fariam a segunda fase ou se o acesso ao ensino superior decorreria com justiça. Que confiança podem ter num sistema que os tratou como cobaias de uma experiência tecnológica mal preparada, mal explicada e pessimamente executada? Há injustiças que nenhum calendário remendado repara: a nota corrigida à pressa para cumprir prazos políticos, a vaga perdida na faculdade, a ansiedade gratuita imposta a quem apenas cumpriu o seu dever de estudar. Tanto amadorismo num ministério que devia ser o mais cuidadoso de todos é, no mínimo, incompreensível.
O que une os dois casos é a mesma cultura de desresponsabilização. Ninguém se demite, ninguém assume verdadeiramente as consequências, tudo se explica com “lapsos” e “constrangimentos técnicos”. Enquanto isso, exige-se aos portugueses que paguem os impostos a tempo e horas, que declarem tudo ao cêntimo, que aceitem filas, burocracias e fiscalizações, e que, ainda por cima, confiem nas instituições que tão mal os tratam.
Confesso que escrevo estas linhas com mais tristeza do que raiva. Amo este país, a sua língua, a sua gente. Mas olho para as últimas semanas e vejo um Estado que falha aos jovens no momento dos exames e falha a todos na exemplaridade dos seus governantes. Se eu fosse mais novo, emigrava o mais brevemente possível. Não por falta de amor a Portugal, mas porque a juventude merece viver num país onde o mérito conta, onde a lei se aplica a todos por igual e onde a incompetência tem consequências. Portugal, hoje, é uma grande desilusão. E o pior de tudo é que já nem nos surpreende.