Não é fácil arrasar uma nação por completo. Não basta má gestão ocasional ou um ou outro escândalo. É necessário talento, disciplina, e um esforço continuado. A boa notícia é que não precisamos de imaginar países fantasiosos para responder a esta questão. Se quiser aprender como destruir um país, basta olhar para Portugal.

Sem mais demoras, enumeremos os passos essenciais para destruir um país.

Passo 1: Comece pela governação

Qualquer país pode sobreviver a ocasionais governos incompetentes, crises económicas e até guerras. O que não sobrevive é à incompetência institucionalizada e sistémica.

Portugal é perito em governação incompetente. Numa era de crescentes complexidades sociais, tecnológicas, geopolíticas e ambientais, nunca um governo competente foi tão necessário.

Não queremos isso. O seu foco deverá ser agradar à sua máquina partidária, interesses instalados e devolver favores requisitados. Deverá ignorar os problemas que assolam a sua população, e sacrificá-los no altar da próxima eleição. De pouco interessa se estes problemas levarão ao colapso total do sistema económico, do sistema de saúde, do sistema de educação, do sistema de pensões, e por aí fora.

Já ouviu falar de problemas estruturais? Portugal está repleto deles. É a sua maior riqueza. Há que investir nela.

Passo 2 – Promova uma economia de baixo valor

A produtividade é sobrevalorizada. Um país a sério investe no que não dá retorno. Microchips? Aeroespacial? Farmacêutica? Sai caro e demora tempo a dar fruto. Fiquemo-nos pelo turismo. É rápido e barato.

Segundo o Eurostat, Portugal está entre os países europeus onde o turismo tem o maior peso no PIB.

À primeira vista, parece ótimo. Até percebermos que: uma economia baseada em servir cocktails à beira-mar não aumenta produtividade e tem baixo retorno; paga mal e salários baixos tornam-se permanentes; a economia fica dependente do bom humor de turistas estrangeiros e do clima no Algarve.

Uma economia avançada precisa de indústria, tecnologia, inovação, mas Portugal escolheu ser o Airbnb da Europa.

Quer destruir um país rapidamente? Faça dele um parque temático, tal como Portugal.

Passo 3 – Expulse os jovens do país

Nada acelera o colapso de uma nação como uma hemorragia de cérebro jovem.

Segundo dados do Banco de Portugal e do Observatório da Emigração, Portugal continua entre os países europeus com maior percentagem de emigração jovem qualificada.

A receita para chegar a este ponto é simples: ofereça salários de 1000€ a pessoas com mestrado; casas a preços londrinos; carreiras que nunca avançam; e um Estado que trata quem trabalha como um suspeito fiscal.

E, sejamos sinceros… na verdade, para que é que precisamos de jovens? Queixam-se muito e trabalham pouco. É só café do Starbucks, pão da Gleba e teletrabalho. Ficamos melhor sem eles.

Como vemos, os resultados são maravilhosos.

Passo 4 – Ignore a habitação 

Para quê ter uma casa?

É uma questão que muitos se perguntam, e que ninguém sabe responder. Mas Portugal tem a solução. Ter casa é demasiado antiquado. É muito mais divertido ter 35 anos e viver com colegas de quarto (ou na cave da casa dos pais).

O co-living aumenta o sentido de comunidade e melhora os laços familiares. Os portugueses são peritos nisso.

Com rendas superiores ao salário médio (em Lisboa, e em breve numa aldeia perto de si), e preços de casas a subir ao ritmo mais acelerado da Europa, a maioria dos jovens portugueses nunca terá uma casa (nem mesmo se abdicar do Starbucks e da Gleba).

Se quiser destruir um país, basta ignorar a habitação. Se taparmos os ouvidos, o problema não nos pode incomodar.

Passo 5 – Crie um estado gigante (mas inútil)

Se quiser destruir um país, deverá aumentar o tamanho do estado. Quanto maior o estado, menos fica de fora do estado (e menos risco existe de nos escapar algo).

Naturalmente, qualquer país pode colapsar, independentemente do tamanho do estado. Não haverá escassez de exemplos de nações minimalistas que tropeçaram e se estilhaçaram. Mas ao tornar o estado o protagonista, basta partir-lhe as pernas para dar cabo do país. Não será preciso chegar aos figurantes.

Portugal tem uma máquina pública pesada, burocrática e lenta. Hospitais sem médicos, escolas sem professores, tribunais que levam anos para decidir um processo, e mesmo assim com uma das maiores taxas de esforço fiscal da Europa. É sem dúvida um caso de sucesso.

Deverá ainda exigir repetidamente mais orçamento para resolver todos estes problemas, especialmente direcionado para empresas públicas falidas. O objetivo é um Estado tão grande que paralise tudo, mas tão disfuncional que não resolva nada.

Quando der por si, o país nem precisará da sua ajuda para encontrar o abismo.

Passo 6 – Cultive elites medíocres

Um país avança quando as elites têm visão. Não queremos isso. Optemos pelas dez dioptrias.

Cultive uma cultura política e económica onde a mediocridade não só não é punida como é muitas vezes premiada, onde a carreira política funciona como promoção automática para quem nunca conseguiu grande coisa fora dela.

Para destruir um país, basta substituí-lo por uma oligarquia de gente experiente em trafulhices nas juventudes partidárias, vastas redes de networking sombrio, e zero talento reformista (ou talento, no geral).

Passo 7 – Incentive uma sociedade que se indigna muito, mas faz pouco

As redes sociais trouxeram-nos uma nova forma de participação cívica:

o “indignar-se profissionalmente”. Para um povo como o português, cronicamente indignado, foi como uma bomba nuclear. Agora o mundo inteiro é a nossa tasca.

Incentive uma sociedade onde não é necessário perceber para opinar (nem comentar), onde os factos são secundários à emoção, onde o desconhecimento político e económico não invalida opiniões, e onde se passa dias a atirar culpas aos que vieram antes.

Exemplo prático: este artigo de opinião.

E não se esqueça de pedir líderes fortes que “ponham isto a funcionar”. Nada funciona melhor para destruir um país que um líder forte. Basta olhar para a Alemanha Nazi, um excelente caso de estudo.

Passo 8 – Alimente o comodismo, rejeite a ambição

Por último, mas não menos importante, deverá alimentar o comodismo, e rejeitar a ambição.

Garanta que o sucesso é mal visto, e que a inveja é a lei da terra. Não pode permitir que a ambição se alastre, que os seus eleitores contemplem fantasias de grandes feitos e grandes projetos (muito menos serviços públicos funcionais).

A realidade é que tudo é possível. É possível um governo competente e sem corrupção, silencioso mas eficiente. É possível reindustrializar e construir, desde casas a hospitais a poderosas redes energéticas. É possível inovar e crescer, sem esquecer o bem-estar público e sem deixar de cuidar. É possível reformar sem destruir.

Mas, obviamente, não é esse o nosso objetivo. O nosso objetivo é Portugal.

Se não quiser destruir o país…

Exija mais. Dos políticos, e de si mesmo. Participe politicamente, manifeste-se, vote. Debater na tasca é interessante, mas tem impacto reduzido no orçamento de estado.

Não há problema que não se resolva, mas para isso é preciso agir. É preciso arriscar. O custo da inação é muito maior que o de fazer nada.

Acima de tudo, ambicione.