Ai se o Eça estivesse aqui! No decorrer dos eventos da semana passada, da vandalização da estátua do Padre António Vieira, tenho-me posto a pensar no prazer (ou desgosto) que daria a Eça de Queirós viver estes nossos tempos.

Nos Maias, uma das cenas mais marcantes e características da obra, representativa da crítica presente ao longo do romance, é a corrida de cavalos no hipódromo de Belém. Eça não se limita a narrar um episódio, mas aproveita-o, uma vez mais, para criticar as atitudes e os comportamentos desajustados da sociedade portuguesa de então – “Via-se a gente livre dum divertimento que não estava nos hábitos do país”. Como podemos ler nos Maias, a sociedade portuguesa tem uma longa tradição de imitar o que não é nosso, sem fundo nem substância.

Na sequência de uma onda de vandalizações no resto do mundo ocidental, Portugal achou, por bem, que não podia ficar de fora deste movimento. Também queremos o nosso Leopoldo II! Nessa vontade quase incontrolável de não ficar atrás do resto do mundo nesta luta, que em nada ponho em causa, contra o racismo, não se encontrou ninguém melhor que o Padre António Vieira? Como Ricardo Araújo Pereira disse e muito bem, em Lisboa, partindo da Praça de Espanha com destino à dita estátua, cruzamo-nos com três ou quatro figuras bastante mais perturbadoras, que mesmo tendo de ser percebido e lido com alguma contextualização, em certas passagens tinham muitíssimo boas intenções. “Em lugar de corridas, fazer uma boa tourada”, dizia Afonso da Maia.

Este imitar sem essência, provinciano e intelectualmente periférico vem, mais uma vez, mostrar de que somos feitos. Se em relação a este plágio de fraquíssima qualidade tenho as minhas dúvidas se Eça se deleitava a criticar, ou morria de desgosto face a esta, ainda, paralisia intelectual, tenho as minhas certezas que ficaria sinceramente desiludido com a poluição à memória do seu irmão de armas, ao papel, à caneta e à crítica da sociedade portuguesa do Padre António Vieira.

Os franceses, no seu programa de 12º ano de História, têm um capítulo inteiro consagrado à memória. Julgam, portanto, importante, e bem, analisar ao longo da História os processos de apropriações e esquecimentos, mais ou menos convenientes. Como antigo aluno do liceu francês, fui buscar os meus resumos para tentar perceber, genuinamente, se manter exposta a imagem de Padre António Vieira contribui de alguma maneira, mesmo sendo autor de algumas passagens algo deslocadas, para uma perpetuação do racismo na sociedade moderna. Eis aqui os processos: o esquecimento, por exemplo em relação aos crimes de guerra do Japão à China na Segunda Guerra Mundial; o reescrever da história, com aconteceu na Áustria em relação ao Anschluss; a selecção, processo encontrado no resistencialismo francês, escolhendo apenas lembrar os resistentes e não os colaboradores de 39-45; para terminar, a instrumentalização na URSS, que a determinado momento, muito ironicamente e quase comicamente, chegou a usar os grandes feitos dos czares como propaganda.

Concluo, algo desiludido, confesso, esperando uma histórica manipulação histórica (perdoem-me a repetição) de um uso perverso da memória, não tendo encontrado nenhum destes processos. Mas relembrando, mais uma vez, como no 11º ano, o homem excecionalmente à frente do seu tempo que era o Padre António Vieira. Só mesmo, porventura, como a Santo António, os peixinhos o mereciam.