Por um português, ex-militar e patriota
No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, momento maior de celebração da nossa identidade, a conselheira de Estado Lídia Jorge optou por um discurso marcado pela desvalorização da História de Portugal, afirmando que “somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou”. Palavras que não só empobrecem a nossa memória coletiva como são perigosamente enviesadas, revelando uma tentativa preocupante de reescrever o passado à luz de uma ideologia de culpa permanente.
Como português e como militar, não posso deixar estas palavras sem resposta. A História de Portugal não é feita de simplificações morais, nem pode ser resumida a uma narrativa de opressores e oprimidos. É uma história complexa, rica, feita de conquistas, descobertas, erros e superações. E acima de tudo, é uma história de coragem e visão, que levou um pequeno país à vanguarda do mundo durante séculos.
Portugal foi, de facto, um dos países envolvidos no tráfico de escravos, uma realidade inegável e dolorosa que deve ser estudada, compreendida e contextualizada. Mas também foi dos primeiros a legislar contra esse mesmo tráfico. A abolição da escravatura no território português ocorreu em 1761, décadas antes de muitas das grandes potências europeias. Em 1836, o Marquês de Sá da Bandeira reforça a proibição, muito antes de países como os Estados Unidos.
A frase proferida por Lídia Jorge — “descendentes do escravo e do senhor” — é uma simplificação torpe, uma caricatura moral que ignora séculos de miscigenação cultural, de alianças diplomáticas, de construção de pontes entre civilizações. Reduzir Portugal a um país de senhores e escravos é insultuoso, ignóbil e desrespeitador para com todos os que fizeram desta nação o que ela é, incluindo os que combateram e morreram por ela.
Os militares portugueses carregam nos ombros o peso de séculos de defesa do território, da soberania e dos valores que nos unem. Não lutámos para sermos envergonhados da nossa bandeira. Não resistimos ao fascismo, ao comunismo e ao terrorismo para agora sermos acusados de sermos fruto de uma história de vergonha. Estivemos e estamos em África, na Europa, no Médio Oriente e nos teatros de paz da ONU. Levámos e levamos assistência humanitária, reconstrução e solidariedade. Não somos agentes de um passado obscuro. Somos herdeiros de uma pátria que soube reinventar-se, corrigir os seus erros e projetar-se no mundo com dignidade.
É necessário dizer com clareza: este tipo de discurso: emocional, ideológico e distorcido, não é inocente. Serve um propósito político: o de desconstruir os pilares da identidade nacional e semear a vergonha onde deveria existir orgulho crítico. Claro que devemos refletir sobre o passado. Claro que o combate ao racismo é um dever de todos. Mas não à custa de esmagar a verdade histórica nem de ofender milhões de portugueses que se revêm na sua pátria com sentido de missão e pertença.
Portugal não é apenas feito de páginas negras. É feito de luz, de descobertas, de poetas, de navegadores, de soldados e de povo. É feito de luta contra a ignorância, de cultura, de fé e de trabalho. O nosso país não se reescreve para agradar às modas do presente, honra-se, estuda-se, defende-se.
Como português, recuso ajoelhar-me perante uma visão deturpada do nosso passado. Recuso sentir vergonha por uma história que, com todos os seus erros, foi sempre maior do que as suas sombras. Como português e militar, digo com firmeza: Portugal merece respeito. E esse respeito começa por não permitirmos que o palco da Pátria seja usado para a sua humilhação.