O grande desporto nacional não é o futebol, é antecipar as desgraças. Ser pessimista em Portugal é uma exigência curricular. Do Minho ao Algarve, cada português carrega consigo um “isto vai correr mal”, que nos parece tão imprescindível quanto o número do Cartão de Cidadão. O otimismo, por cá, dá-se por suspeito, é uma espécie de carimbo de leviandade perniciosa.
Mesmo quando o país progride, e o nos últimos 50 anos progrediu muito, o pessimismo permanece no espelho deformado onde Portugal se contempla com ceticismo.
De onde virá esta mania de cultivar o derrotismo?
O fado é sempre suspeito, mas desta vez pode ser absolvido. Porque existe um padrão melancólico de baixa autoestima nacional que teima em pôr-nos entre a tragédia e o fatalismo. A literatura reforçou-o.
Da saudade Camoniana ao desencanto de Pessoa, da nostalgia de Virgílio Ferreira à ironia amarga de Almeida Garrett. Da solidão de Augustina Bessa-Luís, passando pelo enigmático Herberto Hélder, ao existencialismo de José Régio. Parte da nossa cultura ensinou-nos a fantasiar com a desgraça e a desconfiar da felicidade.
Mesmo quando avançamos, prevalece a sensação de que não somos bons o suficiente. Se o Governo anuncia que vai resolver os problemas das pessoas: pessimismo garantido. Se aparecem resolvidos, alguém decreta logo novos problemas urgentes. Se finalmente chove, começa logo a faltar sol.
Portugal gosta de se ver como vítima experiente. Quando há crise, já sabíamos. Quando corre bem, há de correr mal quando a poeira assentar. A esperança portuguesa, quando aparece, tem um curto prazo de validade.
O espaço público e publicado tornou-se um campeonato de queixume, sem análise e poucas soluções, onde se tenta criar constantemente motivos para estar de mau-humor. Não se reconhece mérito, não se celebra o progresso. Enaltece-se sistematicamente o erro e a rotatividade dos insultos.
O pessimismo constitui, afinal, o verdadeiro cimento emocional sobre o qual assentam os alicerces da nossa vida em sociedade. Não apenas como um traço de carácter coletivo, mas como doutrina invisível e omnipresente, desde as conversas de café aos discursos oficiais.
Quem ousa desafiar esta regra, e exercita algum otimismo, felicidade ou esperança, não escapa à punição social, ao vilipêndio público e ao ostracismo imediato. É olhado com a desconfiança de quem viola um pacto não escrito. O português que manifesta fé no futuro nacional é, sem apelo nem agravo, rotulado de ingénuo ou de mentiroso. Acusado de traição à lucidez. Ou, na melhor das hipóteses, culpado por alimentar falsas esperanças.
O pessimismo converteu-se na nova palavra-passe emocional da cidadania portuguesa. Só lhe acede quem carrega consigo a senha do desalento permanente.
Talvez haja conforto neste país que se prepara, há séculos, para maus resultados. A nossa elite intelectual, em vez de desafiar esse destino, especializou-se na arte da profecia sombria e previsões catastróficas, os nossos cronistas converteram-se em contabilistas das tristezas alheias.
Sonhar em português mudou de significado: sonhar é, hoje, esperar a falha.
Mas nem tudo está perdido. O verdadeiro avanço civilizacional estará no dia em que Portugal consiga surpreender-se, calar os profetas do desastre e, imagine-se, celebrar qualquer coisa sem precisar de ter medo do sucesso e da felicidade.
Até lá, viva o pessimismo, que, pelo menos, é democrático. Todos têm direito a ele e, se não tiverem, depressa alguém lhes empresta um pouco.