O crescimento do Chega em Portugal deixou de ser um alerta e tornou-se uma realidade. O partido de André Ventura é hoje uma das forças políticas com maior representação e visibilidade no país. O seu discurso directo, polarizante, frequentemente populista, encontrou eco num número crescente de eleitores — o que, por si só, já diz muito sobre o mal-estar que atravessa a sociedade portuguesa.

Todavia, este artigo não pretende analisar quem votou Chega, sobretudo do ponto de vista político e social. Pululam análises com estas explicações. Urge, porém, dar atenção à reacção consternada, por vezes angustiada, dos que não votaram na extrema-direita e que se confrontaram, nas últimas eleições, com a ascensão de um discurso que lhes parece hostil, regressivo e, até, perigoso. É sobre essa perplexidade silenciosa — muitas vezes não representada — que importa, também, elucidar.

Na semana que se seguiu às eleições, quase todos os pacientes trouxeram este tema para a sessão. Uma mulher de 39 anos, professora universitária, disse, com lágrimas nos olhos: “Sinto que não reconheço o meu país. Nunca imaginei que tanta gente pensasse assim.”

Um empresário de 54 anos desabafou: “Talvez tenha sido ingénuo. Mas doeu. Como se tivesse perdido algo que nem sabia que tinha … uma espécie de fé discreta na decência colectiva.”

Uma jovem universitária, nascida em Portugal de pais cabo-verdianos, disse-me, num tom, entre o medo e a lucidez: “Eu sei que não sou portuguesa para todos. Mas agora tenho medo que esse ‘não’ venha da maioria.”

Não é exagero afirmar que muitos portugueses viveram aquele resultado como um trauma simbólico: não por discordarem, politicamente, mas por sentirem que algo de fundamental se quebrou no laço com o Outro. Como se uma ideia partilhada de sociedade — inclusiva, solidária, democrática — tivesse sido posta em causa.

A psicanálise ajuda-nos a compreender essa reacção. Freud, no ensaio Luto e Melancolia, mostra que o luto não é apenas pela perda de pessoas, mas também pela perda de ideais, de imagens internalizadas, de formas de pertença. Muitos dos que reagiram com consternação ao resultado eleitoral estavam, na verdade, a viver o luto de uma imagem idealizada de Portugal.

Outro paciente, homossexual, de 22 anos, afirmou: “Sinto-me, verdadeiramente, inseguro. Como nos anos 90, quando tínhamos medo de andar de mão dada, de manifestar afecto, em público. Algo que os mais velhos me contam. Parece que voltámos para trás.” A eleição de forças que verbalizam, ou legitimam, preconceitos traz um efeito real sobre os corpos e os afectos. Mesmo que não mude, de imediato, políticas ou leis, o discurso cria clima, cria possibilidade simbólica, e isso afecta o modo como cada um ocupa o espaço público.

Uma avó, mulher doce e religiosa, expressou a sua inquietação por outra via: “Como sabe tenho um neto trans. Foi por isso que inicialmente procurei a sua ajuda. E temo pelo mundo que ele vai herdar. Já basta o que ele vive ‘dentro’, aquele turbilhão de que temos falado, aquela angústia profunda … não merece viver medo ‘por fora’, também.”

Um jovem médico, filho de pais palestinianos, português nascido e criado no Norte, disse-me, com franqueza: “Nunca me senti deslocado aqui. Mas agora, cada vez que me chamam ‘doutor’ e olham para a cor da minha pele, sinto que precisam de confirmar que eu mereço.”

Outro paciente, investigador, afirmava: “Tenho a sensação de que me andam a mentir. Acredita que não conheço um só eleitor do Chega? O que é, absolutamente, impossível! Onde é que eles andam? Já com o Trump foi a mesma coisa: quando estive nos EUA ninguém o tinha eleito…”

Não é só tristeza: há medo, ressentimento, sensação de desamparo. Um imigrante brasileiro, em consulta, partilhou: “Nunca me senti tão estrangeiro aqui como agora. Começa a fazer sentido o relato de tantos compatriotas que dizem da enorme exclusão.”

Não se trata apenas de política. Trata-se de pertença, de reconhecimento, de segurança simbólica. E, quando isso vacila, o psiquismo sofre.

Muitos que não votaram no Chega não sabem como reagir ao crescimento do partido. Ficam entre o choque e o mutismo. Evitam conversas familiares, afastam-se das redes sociais, questionam amizades. Mas esse silêncio também é um sintoma — um sintoma do que não se sabe como nomear.

Há um risco real em responder ao avanço da extrema-direita apenas com psicologização: atribuir a culpa à ignorância, à raiva ou à manipulação é ignorar que também há afecto e desejo no voto. Mas isso não significa abandonar o campo psíquico. Significa, ao contrário, reconhecê-lo em todos os lados do espectro político.

O que fazer, então, com este sentimento? A consternação dos não votantes do Chega não é sinal de fraqueza ou elitismo. É, muitas vezes, um gesto ético: a recusa de aderir ao discurso do ódio, da exclusão, da simplificação violenta do mundo. É, também, um convite: o de pensar como reconstruir o laço social, não a partir da superioridade moral, mas da escuta e da simbolização.

É imprescindível compreender o que esta por detrás desta realidade, bem como porque é que sentimos o que sentimos, face a ela. O conhecimento (o vínculo K, do psicanalista Wilfred Bion) dá-nos armas. É isso que muitas vezes fazemos em sessão, em consulta de psicanálise/psicoterapia psicanalítica. “Quem tem K, sempre escapa!”

A psicanálise não oferece soluções políticas, mas oferece lugares de palavra. Lugares onde o mal-estar pode ser nomeado, onde a dor pode ser escutada, onde a raiva, ou a tristeza, podem ser transformadas. Talvez seja isso que mais falta à nossa democracia: menos indignação performativa e mais escuta real. Menos certezas e mais simbolização.

Porque, se o crescimento da extrema-direita é um sintoma, também o é a dificuldade de muitos em encontrar palavras para nomear o que sentem, depois de a ver crescer. E é com essa dor silenciosa que, talvez, devamos começar.

Sónia Soares Coelho é psicóloga clínica e psicanalista. Tem experiência em trauma, parentalidade, psicossexualidade e neurodivergência. É fundadora da Clínica Mentanalysis e faz parte do Committee on Women and Psychoanalysis da International Psychoanalytical Association.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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