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O que é a psicanálise?

É uma prática psicoterapêutica fundada pelo médico neurologista austríaco Sigmund Freud no início do século XX. Foca-se no conhecimento e na gestão das emoções, na compreensão profunda dos problemas psicológicos (e respetivos motivos) e nos pensamentos, memórias e desejos reprimidos.

A psicanálise procura ajudar o paciente (não o julgando) a analisar seu inconsciente e os impactos que este tem no dia a dia. No fundo, ajuda as pessoas a entender porque pensam e agem de determinada forma.

“A psicanálise é um corpo de conhecimento sobre os processos mentais, um método de pesquisa e um modelo de tratamento psicoterapêutico que recorre a técnicas específicas e oferece uma compreensão profunda das emoções que estão na raiz dos problemas de saúde mental”, diz a psicóloga e psicanalista Conceição Tavares de Almeida, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).

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Porque é que o paciente fica num divã e o terapeuta está nas costas?

Numa posição reclinada e fora do campo de visão do psicanalista, há mais à vontade para falar sem constrangimentos. O uso do divã potencia os movimentos regressivos e o acesso ao inconsciente, a tudo aquilo que existe na mente, mas que está fora da consciência, isto é, motivações, desejos e angústias que mobilizam ações e pensamentos.

“Do ponto de vista do psicanalista, esta posição facilita a atenção flutuante, condição mental em que a escuta é seletiva e mais focada nos processos inconscientes”, diz Conceição Tavares de Almeida. Até porque o paciente tem mecanismos de defesa, estratégias inconscientes para ultrapassar momentos de desorganização psíquica. “Um mecanismo de defesa bem conhecido é a negação que, muitas vezes, utilizamos para suportar o primeiro embate de um diagnóstico de doença grave ou da morte repentina de alguém muito próximo e significativo.” O divã acaba assim por ajudar a descontrair e a facilitar a conversa.

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Em que situações é recomendada a psicanálise?

Sempre que haja sofrimento psicológico para a pessoa – que pode manifestar-se através de medos, ansiedades, fantasias invasivas, repetição de comportamentos destrutivos que provocam mal-estar e comprometem a vida afetiva e profissional. O desejo de autoconhecimento ou a curiosidade intelectual sobre processos inconscientes profundos, por si só, não bastam para fazer psicanálise, defendem os especialistas.

“A psicanálise não está focada na remissão do sintoma e/ou da fonte de sofrimento, mas no entendimento complexo e profundo desses aspetos”, diz a psicanalista. Ao compreender as raízes dos problemas, garante-se uma consciência mais profunda e transformações mais duradouras.

Esta prática pode ser recomendada em situações como:

  • Angústia existencial;
  • Pensamentos intrusivos;
  • Problemas de relações amorosas, familiares, profissionais;
  • Tristeza profunda;
  • Ansiedade e ataques de pânico;
  • Dificuldades no controlo do medo e da raiva;
  • Situações pós-traumáticas;
  • Luto;
  • Sensação de vazio;
  • Isolamento e solidão;
  • Bloqueios e incapacidade de progredir na vida.
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E em que casos não resulta?

A psicanálise (ou “modelo psicodinâmico”) não é recomendada para todos os pacientes. Mesmo que a pessoa tenha vontade de perceber as razões do que a preocupa ou angustia, é necessário ter algumas competências cognitivas e socioemocionais, como a atenção e a memória, e ter disponibilidade de tempo, capacidade de compromisso e financeira (o tratamento é longo). As contraindicações prendem-se sobretudo com a prevenção de danos, para que o estado do paciente não piore.

“Algumas situações, personalidades, padrões de comportamento ou circunstâncias, podem ser contraindicadas para tratamento psicanalítico, por risco de desorganização e agravamento de quadro clínico, ou por não estarem reunidos os pré-requisitos necessárias ao seu benefício”, diz Conceição Tavares de Almeida.

“Em qualquer dos casos, um psicanalista é sempre um profissional de saúde mental altamente especializado e capaz de avaliar essas mesmas (contra)indicações, tanto no início, como ao longo de um acompanhamento.”

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A psicanálise pode ser útil no tratamento de doenças mentais graves?

Como em quase tudo o que tenha ver com saúde mental, depende. Cada caso é um caso. É necessário avaliar se as condições mínimas para benefício do tratamento estão ou não comprometidas nas situações de doença mental grave, como esquizofrenia, Perturbação Bipolar, Perturbação obsessivo-compulsiva, personalidade borderline, etc. Esta análise deve ser feita por um profissional de saúde mental especializado.

No modelo clássico da psicanálise, o tratamento de pacientes com estes diagnósticos não era aconselhado. Mas com a evolução do método, pacientes outrora excluídos são agora admitidos. Ou seja, doentes em grande sofrimento mental podem beneficiar desta intervenção terapêutica particularmente sensível às questões de doença mental, desde que indicados por profissionais especializados. Conceição Tavares de Almeida adianta que, em vários casos, é possível combinar esta abordagem psicanalítica com outras terapêuticas, nomeadamente através de medicação – prescrita por um psiquiatra.

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Mas as técnicas utilizadas são diferentes?

Podem ser. A psicanálise recorre a encontros regulares, com frequência mínima de três sessões semanais com a duração de 45 minutos cada. Este é o cenário ideal. O compromisso, estável e contínuo, permite criar uma estrutura protetora e uma relação de confiança para mudanças que se pretendem profundas e autênticas.

As principais técnicas são:

  • Associação livre: o paciente fala livremente do que lhe vem à mente e o psicanalista tenta interpretar;
  • Interpretação dos sonhos: análise dos sonhos como manifestação do inconsciente;
  • Interpretação dos atos falhados: lapsos de memória, deslizes ou erros (como esquecer nomes, trocar palavras, esquecer um compromisso) são analisados como forma de comunicação do inconsciente sobre pensamentos e sentimentos reprimidos;
  • Interpretação das associações: o psicanalista procura sentido para associações espontâneas, como lembranças ou estímulos.

As sessões são habitualmente “intensas”. “Ao longo do processo é habitual o paciente confrontar-se com realidades externas e internas emocionalmente dolorosas, mas é também através desse processo, e da sua evolução, que poderá alcançar transformações psíquicas consistentes”, diz a presidente da SPP.

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Quanto tempo pode demorar um tratamento com psicanálise?

O processo é demorado. Apesar de, numa fase inicial, ser frequente sentir-se um alívio dos sintomas, não é um tratamento de soluções ou mudanças rápidas, mas sim de modificações profundas que exigem tempo e disponibilidade. Para que seja considerado eficaz, não basta mudar um pensamento, é preciso mudar a partir de dentro a forma como se olha para o que aconteceu e porque aconteceu.

Por isso é tão importante que as sessões sejam regulares. “Apesar de longo, se considerarmos os resultados mais duradouros a longo prazo, acaba por se considerar um investimento na saúde mental do próprio e na qualidade de vida dos que lhe são próximos, nomeadamente das gerações vindouras”, conclui Conceição Tavares de Almeida.