Na Grécia antiga, consultava-se o oráculo de Delfos. Hoje, basta abrir um telejornal ou a página das redes sociais. As profecias já não nascem de deuses caprichosos, mas do humor de cada manhã. Se acordamos esperançosos, anuncia-se a aurora de um novo tempo; se despertamos melancólicos, proclama-se o fim dos tempos. E a própria política, que deveria ser o espaço da razão e da prudência, tornou-se refém da meteorologia emocional.
Os governantes aprenderam a arte do oportunismo com uma mestria quase sacerdotal. Não conduzem: seguem. Não orientam: adaptam-se. São veleiros que ajustam as velas ao sopro da multidão. Ontem gritavam “reforma!”, hoje sussurram “estabilidade!”, amanhã clamarão “rutura!”. O futuro não lhes pertence: pertence ao humor com que a praça desperta. E há nisso uma tragédia disfarçada de farsa. Porque o cidadão já não exige visão ou coerência: exige apenas que lhe confirmem o sentimento do momento. Quer ser consolado, não desafiado. Quer que lhe digam que tem razão, seja no entusiasmo ou no desespero. É por isso que o político moderno já não é estadista, mas terapeuta: distribui frases feitas como placebos.
Há, contudo, um preço por este jogo. Uma sociedade que vive apenas de humores torna-se ingovernável. A cada oscilação pede-se um salvador; a cada desilusão, procura-se um culpado. Vive-se em estado de permanente adolescência política: ora eufórica, ora deprimida, sempre dependente da aprovação do grupo. Dir-se-ia que já não precisamos de pensamento político, mas de previsão astrológica. A diferença é que o horóscopo, ao menos, nunca se compromete demasiado: insinua possibilidades. Já os nossos governantes e comentadores assumem certezas absolutas com a mesma ligeireza com que, no dia seguinte, as contradizem.
E, no entanto, por mais amarga que seja esta constatação, todos colaboramos. Aceitamos o teatro porque preferimos o conforto da ilusão à exigência da verdade. E assim, em vez de uma comunidade de cidadãos, somos apenas uma assembleia de espectadores que pagam bilhete para ver repetida a peça dos humores. Talvez um dia descubramos que não há profecia fora da razão, nem futuro fora da responsabilidade. Até lá, continuaremos a viver sob o império do humor público: esse oráculo moderno que, em vez de revelar o destino, apenas devolve ao povo o reflexo da sua própria inconstância.