Um teto desaba em Novi Sad. Dezasseis mortos. Estudantes pintam ministérios de vermelho e gritam ‘Pumpaj’ – mantém o coração a bombear. Em Portugal, 850.000 jovens fugiram de um país que exporta esperança. O betão já caiu. A questão é: quem fica de pé?
Às 11h52 de um dia cinzento em Novi Sad, na Sérvia, o tempo parou. Não foi uma metáfora. Foi física pura e brutal. Uma pala de betão de centenas de toneladas desprendeu-se de uma estação de comboios “renovada” e esmagou o chão. O silêncio que se seguiu foi o som de um contrato social a partir-se.
Naquele momento, enquanto a poeira assentava sobre os escombros, algo mudou na alma da Europa. Os jovens sérvios não responderam com o vandalismo do costume. Responderam com uma dignidade que nos devia fazer tremer. Primeiro, o silêncio. Milhares de estudantes a bloquear cruzamentos, parados, mudos, durante 15 minutos. Um minuto por cada vida perdida. Depois, o barulho. Quando a polícia de choque avançou, eles não recuaram. Sacaram de bombas de bicicleta e começaram a bombear o ar. O som mecânico, rítmico, espalhou-se pelas ruas. Shh-clack. Shh-clack. E um grito novo nasceu: Pumpaj! (Bombeia!). Mantenham a pressão. Façam o sangue circular. O coração da democracia parou, e nós somos o desfibrilhador.
Olho para Novi Sad e sinto um aperto no peito que viaja os 2.000 quilómetros até Lisboa. Porque a nós, jovens portugueses, ninguém nos atirou com betão para cima. A nossa tragédia é mais silenciosa. É fria. É feita de ficheiros Excel e de leis que não nos deixam respirar.
Em Portugal, o teto não cai de repente; o teto desce um milímetro por dia. Chama-se burocracia. Chama-se impostos que comem o primeiro ordenado antes de ele chegar ao bolso. Chama-se rendas que em Lisboa, numa estatística que desafia a decência, chegam a engolir 116% do salário médio. Não morremos esmagados. Morremos de espera. Dizem-nos: “Esperem. O país vai melhorar. A economia vai crescer. Tenham paciência.” Mas a paciência é um luxo que a nossa biografia não pode pagar.
A imagem que me assombra não é a do betão, é a das malas de viagem no aeroporto da Portela. Somos a geração mais qualificada da história de Portugal, e no entanto, somos o nosso maior produto de exportação. Trinta por cento de nós — um em cada três amigos teus, um em cada três primos meus — já não vive aqui. Foram embora não porque deixaram de amar Portugal, mas porque Portugal, durante tempo demais, deixou de os amar de volta. Foram para sítios onde o mérito conta mais que o apelido. Onde o esforço paga a renda.
Na Sérvia, os estudantes escreveram no “Edito de Niš” uma frase que devia estar gravada na pedra em cada universidade portuguesa: “O conhecimento deve valer mais do que a obediência.”
Durante anos, venderam-nos a ideia de que o Estado era o nosso pai e que a nossa função era obedecer e agradecer as migalhas. Chega. A JSD não existe para pedir favores. Existe para exigir liberdade.
É aqui que a nossa raiva se torna construção. Nós não queremos deitar o Governo abaixo; nós queremos que o país ande mais depressa. Nós somos o motor de arranque das reformas que adormeceram. Quando o Governo baixa o IRS Jovem, nós dizemos: “É bom, mas queremos mais liberdade.” Quando se fala em habitação, nós gritamos: “Deixem-nos construir, deixem-nos viver!”
Não estamos aqui para gerir o declínio com elegância. Estamos aqui para injetar adrenalina nas veias de uma nação envelhecida. A nossa geração recusa-se a ser a “geração à rasca” ou a “geração emigrante”. Nós somos a geração que fica. A geração que compra a briga.
O “Pumpaj” deles é contra a tirania. O nosso “Pumpaj” é contra a estagnação. É a recusa absoluta em aceitar que o nosso destino é ser pobres num país de sol. É a exigência de que o elevador social, avariado há décadas por políticas socialistas de empobrecimento, seja reparado agora.
Aos meus colegas de geração, digo: não deixem que o cinismo vos vença. A apatia é a morte. Acreditar é o ato mais radical que podem fazer hoje. Façam barulho. Exijam o impossível. Pressionem. Tal como em Novi Sad, o coração deste país precisa de bombear sangue novo. E esse sangue somos nós.
Este país não pertence a quem o herdou. Pertence a quem o quer salvar.
Quanto tempo ficámos calados em Portugal? Por quantos sonhos enterrados, quantos talentos exportados, quantas gerações sacrificadas?
Talvez seja hora de fazer o coração da democracia portuguesa bombear outra vez.
Pumpaj, Portugal.
O betão já caiu. Nós ainda estamos de pé. E não vamos sair da frente.