Realizado anualmente na cidade de Sines, o Festival Músicas do Mundo (FMM Sines) é um dos maiores e mais emblemáticos eventos culturais do país. Conhecido pela celebração da diversidade musical global e pelo encontro entre diferentes tradições culturais, o festival tem sido, ao longo das décadas, um espaço de liberdade criativa, partilha e diálogo entre povos.

No entanto, a mais recente publicação oficial do FMM, onde se afirma que o festival está “de novo com a Palestina”, levanta sérias reservas quanto à neutralidade e à missão pública do evento. Num país democrático e plural como Portugal, é altamente questionável que uma iniciativa cultural com financiamento estatal e empresarial se associe explicitamente a um posicionamento político de natureza geopolítica, sem qualquer contextualização, equilíbrio ou respeito pela diversidade de opiniões existentes entre os cidadãos.

Importa sublinhar que não está em causa a presença de artistas palestinianos, como Bashar Murad ou os 47SOUL. A arte deve, e sempre deverá, ser um espaço de expressão livre e de encontro entre culturas. O que causa perplexidade é o modo como o festival assume uma narrativa ideológica explícita, utilizando expressões como “estamos de novo com a Palestina”, exaltando “a dor” e “a liberdade” como se o evento tivesse assumido um papel de agente político internacional.

O contraste com o massacre ocorrido em outubro de 2023, no festival Supernova, no deserto do Negev (Israel), é particularmente chocante. Mais de 360 jovens foram assassinados por terroristas do Hamas — o mesmo grupo que controla a Faixa de Gaza e que se apresenta como representante da “resistência palestiniana”. Esses jovens celebravam a música, a vida e a liberdade, tal como se propõe o FMM, e foram brutalmente massacrados. Onde está a memória para com essas vítimas? Onde está o espaço, neste festival, para recordar os reféns ainda desaparecidos ou para condenar, com clareza, o terrorismo como forma de ação política?

A omissão desses episódios e a ausência de uma perspetiva mais abrangente reforçam a perceção de parcialidade e ideologização, incompatíveis com a missão cultural e pública de um festival desta natureza.

O FMM Sines conta com o apoio de diversas entidades públicas e privadas, incluindo a Câmara Municipal de Sines, o Ministério da Cultura, a Direção-Geral das Artes, e empresas como a Galp, a Repsol ou a Start Campus. Estas parcerias são fundamentais para o sucesso logístico e financeiro do festival e, por isso mesmo, trazem consigo uma responsabilidade institucional: a de garantir que o evento é inclusivo, plural e representativo de todos os portugueses.

É legítimo questionar se este tipo de posicionamento político deve ter lugar num evento cultural financiado com dinheiros públicos. Estará esse apoio a ser instrumentalizado para fins de ativismo? Estariam os mesmos promotores disponíveis para declarar publicamente o seu apoio às vítimas israelitas, aos cristãos perseguidos no mundo árabe, ou às mulheres oprimidas no Irão? Se a resposta for não, então o princípio da imparcialidade foi claramente comprometido.

A instrumentalização política da cultura é um fenómeno preocupante, sobretudo quando ocorre em espaços que deveriam ser de união, diálogo e liberdade. O papel da arte não é servir de megafone a causas políticas específicas, mas abrir espaço para que todas as vozes sejam ouvidas. No caso do FMM Sines, é urgente reencontrar esse equilíbrio e restituir à cultura o seu lugar como ponto de encontro e não de divisão.

A arte não deve ser um braço da propaganda.