A greve geral convocada para 11 de dezembro pela CGTP surge como mais um episódio previsível, e até cansativo, da vida política portuguesa. Curiosamente, estas mobilizações de “paralisação total” ocorrem quase sempre, ou pelo menos com muito mais intensidade, sob governos do centro direita. Com executivos PSD ou PSD e CDS, a CGTP tem um histórico de greves gerais sucessivas, enquanto com governos PS a mesma central sindical se transforma numa entidade dócil que raramente convoca grandes protestos, mesmo quando os problemas estruturais do país se agravam. Este padrão revela um dado essencial, a extrema esquerda sindical não reage à realidade, reage ao governo. Tudo o que importa é o combate político, não o bem estar real dos trabalhadores. E é neste contexto que surge a contestação ao novo pacote laboral. Uma contestação alimentada por mitos que precisam de ser desmontados um a um.

Um dos mitos mais repetidos afirma que “esta reforma retira direitos”. Não é verdade. O que retira direitos é a estagnação económica, a fuga de jovens qualificados e a incapacidade de criar emprego estável e produtivo. O país que não cresce não consegue proteger ninguém. Portugal perdeu centenas de milhares de jovens para países mais livres, mais prósperos e mais flexíveis. E porquê? Porque nesses países a mobilidade laboral, a evolução salarial e o incentivo ao mérito são reais. É precisamente esta dinâmica que queremos aproximar da nossa realidade.

Outro mito afirma que “mais flexibilidade significa mais exploração”. É uma caricatura. A verdadeira exploração é condenar uma geração a salários de entrada que não evoluem durante anos, é empurrar trabalhadores para a emigração como única forma de progressão, e é manter o país preso a um mercado laboral rígido que bloqueia a criação de emprego. Flexibilidade responsável, acompanhada de garantias sociais, não diminui dignidade, aumenta oportunidades.

E aqui está o ponto central, esta reforma é positiva exatamente porque é social. Não existe programa social mais transformador do que o emprego. O subsídio pode aliviar; o emprego dignifica, projeta e liberta. Portugal precisa de um mercado de trabalho que gere oportunidades para todos, que premeie quem trabalha, e que não trate as empresas como inimigos, mas como parceiros sociais indispensáveis ao desenvolvimento humano. Há uma razão pela qual os nossos jovens prosperam na Holanda, na Alemanha, na Suíça ou no Reino Unido: porque nesses países entendem esta relação com clareza. A prosperidade nasce da liberdade económica acompanhada por responsabilidade social, não nasce da rigidez nem do medo da mudança.

Infelizmente, as centrais sindicais dominadas pela extrema esquerda continuam presas a uma lógica de confronto permanente e a uma narrativa antiquada que repete que “o patrão é o opressor”. Mas onde estavam estas mesmas estruturas quando sucessivos governos PS congelaram carreiras, acumularam défices ou adiaram reformas essenciais? Estavam silenciosas. Não é defesa dos trabalhadores, é partidarização sindical.

Portugal não pode continuar neste ciclo. Precisamos de reformas que tragam o país para o século XXI, que aproximem o nosso mercado laboral dos modelos que funcionam, e que voltem a dar esperança a quem trabalha. A liberdade, a mobilidade e a produtividade são a base de qualquer sociedade próspera. E nenhuma greve marcada por razões ideológicas mudará este facto essencial. Se queremos proteger os trabalhadores, precisamos de lhes dar o que mais valorizam, oportunidades reais, crescimento económico, possibilidade de subir na vida e um país onde valha a pena ficar. Este pacote laboral aponta nessa direção, e é por isso que merece ser defendido. Porque defender a liberdade e a dignidade de quem trabalha é mais urgente do que satisfazer quem vive apenas da política da contestação.

A reforma laboral apresentada não é perfeita, nenhuma o é, mas aponta para o único caminho possível se quisermos aproximar-nos dos países onde os nossos jovens prosperam. Queremos ser como a Irlanda em salários, mas como a Grécia antiga em rigidez. Queremos viver como no Norte da Europa, mas legislar como em 1974. Queremos competitividade, mas sem permitir às empresas o mínimo de flexibilidade. Isso não existe em nenhum país desenvolvido. Não existe prosperidade sem liberdade económica, não existe dignidade sem emprego, não existe política social robusta se o Estado não tiver empresas fortes que sustentem essa mesma política social.

O medo que vemos hoje não é medo de perder direitos. É medo de perder controlo. O sindicalismo radical teme que um país com mais e melhor emprego seja um país que já não precisa de greves como arma política. E talvez seja mesmo isso que Portugal precisa, menos paralisação, mais futuro, menos ideologia, mais crescimento. Se queremos ser um país onde os jovens escolhem ficar, não podemos continuar a repetir as mesmas greves pela mesma razão de sempre. O país que pára não avança. E Portugal, mais do que nunca, precisa de avançar.