Esta semana vi, pela primeira vez, o filme Conspiracy (2001), uma produção da HBO que reconstrói a Conferência de Wannsee, a reunião onde altos responsáveis do regime nazi coordenaram administrativamente a chamada “Solução Final”. Apesar de já ter visto vários filmes e documentários sobre o Holocausto e sobre os totalitarismos do século XX, nunca tinha contactado com uma abordagem tão crua, tão despida de dramatização e, por isso mesmo, tão perturbadora.
Conspiracy não choca pela violência. Choca pela normalidade. Não há campos, não há gritos, não há sangue. Há uma sala confortável, café servido, linguagem técnica e homens instruídos a discutir um “problema”. Foi essa frieza — e a sua inquietante atualidade — que me levou a escrever a reflexão que se segue.
Numa sala confortável, em 1942, homens educados, juristas, diplomatas e altos funcionários do Estado alemão sentaram-se à mesa para discutir um problema. Não um crime. Um problema administrativo. O problema chamava-se “judeus”. O mais perturbador do filme não é o que é decidido, mas como é decidido. Não há gritos, nem fanatismo histérico. Há linguagem técnica, cuidado jurídico, preocupações com precedentes legais, reacções internacionais e eficiência logística. O extermínio de milhões de pessoas é tratado como uma questão de competências entre ministérios, como se fosse uma reforma fiscal ou uma reorganização administrativa.
Durante o filme, alguns participantes parecem hesitar. Questionam métodos, sugerem alternativas, pedem prudência. Ao espectador moderno, quase parecem vozes de moderação, até de humanidade. Não são. Nenhum deles discute o fim. Discutem apenas os meios. Não defendem pessoas, defendem departamentos. Não questionam o mal, apenas a forma mais ordenada de o executar. É aqui que Conspiracy desmonta uma ilusão perigosa, a ideia de que os grandes crimes da História são obra exclusiva de monstros ou de ódios descontrolados. Pelo contrário, o mal moderno apresenta-se frequentemente de fato bem passado, com boa formação académica e profundo respeito pelos procedimentos.
A Conferência de Wannsee mostra-nos algo essencial, o mal não precisa de ódio declarado, precisa de normalidade. Precisa de pessoas competentes que abdicam da consciência em nome da função. Quando a moral é tratada como um entrave à eficiência, tudo se torna possível. O momento final do filme é devastador precisamente por isso. A reunião termina cedo. Serve-se um copo. Trocam-se banalidades. E um homem fica para trás a redigir a ata. O maior crime do século XX encerra-se num documento bem escrito. Não num grito, nem num tiro, mas numa secretária.
Esta leitura torna-se inquietantemente actual à luz do ressurgimento do antissemitismo, tanto à esquerda como à direita. À esquerda, ele surge muitas vezes disfarçado de linguagem moralista e activista. Em nome de causas supostamente universais, o judeu volta a ser reduzido a símbolo, a abstração política, a culpado colectivo. Criticar Estados ou governos transforma-se, com facilidade alarmante, em demonização de um povo inteiro. À direita, o antissemitismo reaparece sob formas identitárias, conspirativas e civilizacionais. Já não se fala em raça, mas em elites, em globalismos, em inimigos ocultos da ordem natural. O judeu volta a surgir como explicação simples para problemas complexos.
O ponto comum entre estes extremos não é a ideologia, é a substituição da pessoa por uma ideia. Foi exactamente isso que aconteceu em Wannsee. Os judeus deixaram de ser homens, mulheres e crianças, passaram a ser um “problema”.
Talvez seja por isso que Conspiracy continua tão incómodo. Porque nos obriga a reconhecer que a civilização não se salva a si mesma. Leis, instituições, ciência e consenso não bastam quando perdem uma referência moral acima do poder e da utilidade. A História demonstra que o homem não cai no mal por ignorância, mas por justificação. Quando o bem deixa de ser objectivo e passa a ser definido pela eficácia, a consciência adapta-se, a linguagem purifica-se e o crime transforma-se em dever. A tradição cristã sempre insistiu nisto, não por pessimismo, mas por realismo moral, o problema último não está apenas nos sistemas que criamos, mas no coração humano que os habita.
É por isso que o mal raramente se impõe aos gritos. Normalmente senta-se à mesa, pede ordem, exige método e, no fim, pede apenas alguém competente para redigir a ata.