Nos últimos dias, a velha desconfiança contra o protestantismo português (e em Portugal) voltou a ganhar voz, reacendida pela notícia de que a Hillsong Portugal recebeu apoio financeiro da Câmara Municipal de Loures. A manchete e o discurso público e politizado que se seguiu repetiram o mesmo guião gasto, a insinuação de que igrejas evangélicas vivem de manipular fiéis para enriquecimento próprio.

A acusação é sempre mais sedutora do que a verificação dos factos, e a narrativa mediática sabe que o protestante é um alvo fácil, por ser minoria, pouco compreendido e historicamente carregado de preconceito. O que muitos ignoraram, ou preferiram omitir, foi a explicação oficial dada pela própria Hillsong e confirmada pela Aliança Evangélica Portuguesa: o apoio não foi um subsídio para culto ou luxo pastoral, mas uma verba fundamentada pelo trabalho social da igreja na comunidade.

A mesma notícia mencionava um apoio muito superior dado a outro templo, mas curiosamente nem a esquerda radical nem a direita radical se indignaram. Quando o visado é um evangélico, a suspeita não precisa de provas. Para os cristãos conscientes, este episódio é mais um lembrete de que nenhum partido, por mais conservador que se apresente, substitui a Igreja de Deus nos valores bíblicos. O caso é a meu ver especialmente revelador, já que muitos dos ataques vieram de militantes e dirigentes do Chega, um partido que se proclama defensor da tradição cristã, mas que não hesita em atacar outros cristãos quando estes não se alinham com a sua narrativa cultural. A Igreja de Cristo não é nem será uma extensão de qualquer programa político, seja ele de direita ou de esquerda, e não se curva diante de bandeira alguma que não seja a da cruz.

A questão do dízimo e das ofertas, usada como arma de ataque, expõe o desconhecimento de muitos. Dentro do protestantismo, a visão sobre este assunto não é uniforme. Eu, por exemplo, não sou dos que veem o dízimo como um mandamento vinculativo para a Igreja no Novo Testamento, mas como um princípio de generosidade proporcional, onde cada crente contribui para a sua comunidade eclesiástica local segundo o que Deus lhe concedeu. Outros segmentos entendem que o dízimo continua a ser normativo. E a ironia é que na Cristandade, tanto a Igreja Católica como a Igreja Ortodoxa também têm mandatos claros de contribuição financeira dos fiéis, o Catecismo da Igreja Católica no número 2043 fala da obrigação de satisfazer as necessidades materiais da Igreja, e várias orientações ortodoxas prescrevem a entrega dos primeiros frutos da renda, muitas vezes com percentagens sugeridas. No entanto, estas práticas raramente são alvo de campanhas de difamação.

O preconceito contra os evangélicos não é só religioso, é também cultural. O imaginário popular pinta-os como “ovelhinhas toscas” manipuladas por pastores ambiciosos, ignorando que as igrejas evangélicas portuguesas (ou em Portugal) também reúnem professores, médicos, engenheiros, empresários, artistas e académicos.

Esta caricatura, além de falsa, esconde um dado histórico que incomoda muita gente: o protestantismo foi um dos motores mais poderosos do desenvolvimento social e económico do mundo moderno. Países moldados pela Reforma Protestante, como a Suíça, a Holanda, o Reino Unido, a Alemanha, os países nórdicos, os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, estão entre as nações com maiores índices de liberdade civil, escolaridade, democracia estável e desenvolvimento económico. Max Weber, na sua famosa análise sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo, observou que a mentalidade reformada, com a valorização do trabalho, da poupança, da honestidade e da responsabilidade pessoal, criou uma base cultural para prosperidade e instituições sólidas.

Essa herança foi transmitida por comunidades que viam a administração responsável dos recursos como um dever diante de Deus, e não apenas como uma estratégia económica.

O paradoxo é que, em Portugal, esse mesmo movimento que historicamente defendeu a liberdade de consciência e contribuiu para avanços sociais globais, continua a ser tratado como um corpo estranho. Desde Martinho Lutero, que questionou a fusão do poder político com o poder eclesiástico, até aos batistas e puritanos, que foram pioneiros na defesa da separação entre Igreja e Estado, a tradição protestante tem insistido que a fé não pode ser imposta nem controlada pelo Estado. Essa visão influenciou constituições e inspirou movimentos democráticos em todo o mundo.

E no que toca à nossa língua, há um facto que deveria encher de orgulho qualquer português: a primeira tradução integral da Bíblia para o português foi feita no século XVII por João Ferreira de Almeida, um pastor português calvinista. Este homem dedicou décadas à tradução das Escrituras, enfrentando doenças, perseguições e enormes dificuldades logísticas, tudo para que o povo pudesse ler a Palavra de Deus diretamente. Foi obra de fé e de coragem, não de interesses comerciais.

A realidade é clara: o protestantismo em Portugal é alvo de suspeita não por aquilo que faz de errado, mas porque ousa viver a fé de forma distinta da maioria cultural. E por isso, enquanto muitos preferirem a caricatura à realidade, nós os cristãos teremos de continuar a afirmar que a Igreja de Cristo não pertence ao Estado, não se vende a partidos e não troca a verdade bíblica por popularidade. César terá sempre o que é de César, mas o que é de Deus nunca será entregue a César.