Nos últimos meses, o debate público em Portugal tornou-se mais áspero. Declarações que falam de “invasões” ou que insinuam que “a identidade nacional está ameaçada”, começaram a circular com uma facilidade preocupante — vindas não apenas das redes sociais, mas de vozes com responsabilidade pública. Nas redes sociais, multiplicam-se mensagens que associam crime, pobreza ou decadência a determinados grupos.
Como imigrante português naturalizado, casado com uma portuguesa e pai de filhos que nasceram e crescem aqui como portugueses, olho para este discurso com inquietação. O que começou como ruído de fundo tornou-se parte integrante da conversa nacional. E o que antes parecia impensável começa, pouco a pouco, a ser normalizado.
O ódio raramente surge de repente. Cresce lentamente, disfarçado de humor, de ironia, de “defesa dos valores nacionais”. Começa quando se constrói um “outro” — alguém visto como ameaça ou inconveniente, alguém que pode ser tratado com menos empatia e dignidade. É o primeiro passo para a desumanização.
A história mostra que, quando o ódio é usado como instrumento político, ele não fica no discurso. Transforma-se em práticas, em olhares, em exclusão, em violência. O que começa como uma estratégia para ganhar votos termina como uma fratura social — e o preço é sempre pago pelas gerações seguintes. Nenhuma sociedade sai ilesa de um processo prolongado de “outro-ficação”; o que parece apenas retórica hoje pode tornar-se discriminação amanhã.
É impossível ignorar o mal-estar que atravessa a sociedade portuguesa. Muitos cidadãos sentem que o Estado social se degrada: a saúde pública sobrecarregada, a escola sob pressão, a habitação inacessível, os serviços públicos mais lentos. Há uma perceção difusa de perda de qualidade de vida, e essa sensação não pode ser ignorada.
É natural que, neste contexto, surjam inquietações em torno da imigração. Quando o sistema parece não responder, as pessoas procuram explicações visíveis. E fluxos migratórios rápidos e mal geridos podem, de facto, acentuar a pressão sobre serviços públicos já fragilizados. O estudo da experiência internacional mostra que, quando a integração e o planeamento são insuficientes, os impactos sentem-se — e é legítimo e necessário debater isso com seriedade.
Mas é importante lembrar: culpar pessoas em vez de políticas não resolve nada. O problema não está em quem chega, mas em como o Estado se organiza para quem e como receber, integrar e garantir coesão. É aí que o debate precisa de ser franco — sem tabus, mas também sem transformar a frustração legítima em intolerância.
O medo é uma arma poderosa. É mais fácil mobilizar contra alguém do que unir em torno de algo. Assim nascem as narrativas de “crise”, de “invasão”, de “ameaça”. Criam-se pânicos morais — reações desproporcionadas que alimentam a sensação de que o país está em risco, mesmo quando os factos dizem o contrário.
O medo pode render votos, mas destrói confiança. Transforma vizinhos em adversários e cidadãos em suspeitos. Portugal, país de encontro e mistura, arrisca tornar-se um país de desconfiança e divisão se continuar a deixar que a política se alimente do medo. Quando o medo se torna método, a democracia deixa de ser debate e passa a ser espetáculo — e perde-se a substância moral que a sustenta.
Discutir a imigração é não só legítimo, como urgente. Portugal precisa de repensar a sua política migratória: planear melhor a integração, criar vias legais e transparentes, reforçar mecanismos de fiscalização e promover uma narrativa honesta sobre contributos e desafios. A imigração, quando bem gerida, é força económica e social; quando mal planeada, gera ansiedade.
Mas é essencial fazer essa revisão com base em factos, e não em ressentimentos. O ódio não corrige falhas estruturais — apenas mascara a ausência de soluções. O debate deve ser sério, pragmático e humano: uma política moderna, que proteja o Estado social sem sacrificar os seus valores.
Há um perigo mais subtil, mas talvez o mais grave: a indiferença. Quando insultos e ofensas deixam de chocar, a fronteira entre o aceitável e o intolerável desloca-se. É a banalização do mal — aquilo que Hannah Arendt descreveu como o momento em que a violência moral se torna rotina.
A dessensibilização é o terreno fértil onde o inumano se normaliza. E isso não é o modo português de ser. O país que se orgulha da sua hospitalidade e da sua empatia não pode aceitar que o desprezo se torne banal.
A democracia não vive apenas de liberdade de expressão — vive também de decência. É possível debater com firmeza sem ferir, discordar sem odiar. O verdadeiro patriotismo não se mede por quem excluímos, mas por como tratamos quem é diferente.
Portugal tem uma história de tolerância, de curiosidade e de abertura ao mundo. Preservar isso é um dever coletivo. O ódio pode ser contagioso — mas a dignidade também. E é precisamente por querer que os meus filhos cresçam num país onde não tenham de temer ser “outro-ficados” que escrevo estas palavras.
Rahool S Pai Panandiker é cidadão português naturalizado. Viveu em Portugal entre 1998 e 2012 e atualmente reside e trabalha na Índia. Doutorado em Engenharia Química e Refinamento de Petróleo pelo Colorado School of Mines, pós-doutorado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e MBA pela Universidade Católica Portuguesa. Membro do Conselho da Diáspora Portuguesa.