Volto a escrever sobre um tema que me é muito querido e pessoal — a imigração, o acolhimento e o sentido de pertença. Não o faço como observador distante, mas como alguém que viveu essa jornada por dentro.

Cheguei a Portugal em 1998, vindo dos Estados Unidos, depois de meses de espera por um visto de investigação. Era um jovem cientista de Goa, uma terra onde o mar da Índia ainda guarda palavras portuguesas e ecos de uma história comum — complexa, mas próxima. Vinha com uma bolsa de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e a convicção de que a ciência e a curiosidade não conhecem fronteiras.

O que encontrei superou qualquer expectativa. Colegas, amigos e famílias abriram-me as portas com generosidade e ajudaram-me a construir uma vida em torno de pequenos gestos de partilha e confiança. Com o tempo, Portugal deixou de ser um destino profissional e tornou-se um lar. Aprendi a língua, o silêncio e o humor — ainda em aperfeiçoamento. E, em 2010, tornei-me cidadão português: não apenas por documento, mas por escolha e gratidão.

Duas décadas depois, o país que me acolheu está novamente a refletir sobre o modo como recebe os outros. A nova Lei dos Estrangeiros, recentemente promulgada, é um sinal dessa mudança: Portugal não fecha a porta, mas estreita o corredor. As regras tornam-se mais exigentes e seletivas, procurando equilíbrio e previsibilidade. Acaba a “manifestação de interesse”, restringe-se o visto de procura de trabalho a perfis qualificados e apertam-se as condições para a reunificação familiar e o regime da CPLP.

O objetivo é claro — ordem e credibilidade — mas também simbólico: afirmar que a imigração deve ser planeada, não improvisada. Mesmo assim, Portugal não se fechou; apenas procura ajustar o seu acolhimento às exigências da realidade, de forma mais consciente das suas responsabilidades e limitações.

O contexto explica parte desta viragem. Portugal envelhece rapidamente, tem uma das taxas de natalidade mais baixas da Europa e depende fortemente de mão-de-obra estrangeira. Mas o aumento recente da imigração coincidiu com problemas internos que já existiam — habitação escassa, desigualdade territorial, serviços públicos sobrecarregados e uma administração lenta.

É importante reconhecer que há hoje uma tendência para culpar a imigração e os imigrantes por disfunções que o país já sentia antes da sua chegada.  A imigração expôs essas fragilidades — não as criou.

A nova lei surge, portanto, como tentativa de responder a uma ansiedade coletiva: organizar o que parece desordenado, sem romper com a tradição de abertura. Não é uma mudança ideológica, mas um esforço de adaptação a uma realidade que se transformou.

A imigração é um tema inevitavelmente emotivo, porque toca na identidade e no sentimento de pertença. E há múltiplas verdades que coexistem.

Há a verdade do cidadão português que sente que o país mudou depressa demais e teme perder referências.

Há a verdade do imigrante que trabalha, paga impostos e ainda assim vive na incerteza de um sistema lento.

Há a verdade do Estado, que precisa de garantir segurança, transparência e capacidade de resposta.

E há, sobretudo, a verdade humana — a de pessoas que tentam viver com dignidade e esperança, vindas de origens diferentes, mas movidas pelo mesmo desejo de estabilidade.

As minhas opiniões não são moldadas por ideologia política. Acredito que uma boa política de imigração e integração não pode ser refém de partidos nem de slogans, mas deve servir o país a longo prazo. Para ter sucesso, precisa de amplo consenso social e de princípios firmes de humanidade, responsabilidade e visão. O desafio não é ideológico: é humano. O sucesso de uma política migratória depende da capacidade de reunir, não de dividir.

Vindo de Goa, percebo o peso simbólico deste debate. Portugal foi, durante séculos, um país de encontros — por vezes difíceis, outras fecundos — movido pela curiosidade e pela vontade de ligação. Essa história criou uma língua falada em quatro continentes e uma cultura capaz de acolher sem anular o outro.

A imigração contemporânea é a continuação desse diálogo, agora em sentido inverso. Hoje são os outros que vêm a Portugal, trazendo consigo novos modos de ser e de sonhar. Fechar demasiado essa troca seria negar uma parte essencial da identidade portuguesa.

O verdadeiro desafio não está em quem entra, mas em como permanece. A integração é um pacto de pertença que exige esforço mútuo. O imigrante deve aprender, respeitar e contribuir; o país deve oferecer oportunidades, combater o preconceito e valorizar o contributo de quem chega. Integração não é assimilação — é convivência. É o encontro entre a curiosidade de quem chega e a generosidade de quem acolhe.

Família, colegas e amigos foram o meu primeiro exemplo desse pacto silencioso. Foram eles que transformaram o quotidiano — um jantar, uma conversa, um gesto simples — em pertença. É nesse equilíbrio, entre o que se traz e o que se descobre, que se constrói o verdadeiro futuro português.

O futuro de Portugal — económico, social e moral — dependerá de como gerir esse equilíbrio. Demasiada abertura cria desordem; demasiado controlo gera isolamento. O segredo está na “inteligência emocional” das políticas públicas: rigor sem frieza, empatia sem ingenuidade.

Portugal precisa de imigrantes, mas também de coesão social. E, acima de tudo, precisa de preservar a confiança que sempre o distinguiu. O acolhimento não é fraqueza; é uma escolha consciente.

Sobre o autor:

Rahool S Pai Panandiker é cidadão português naturalizado. Viveu em Portugal entre 1998 e 2012 e atualmente reside e trabalha na Índia. Doutorado em Engenharia Química e Refinamento de Petróleo pelo Colorado School of Mines, pós-doutorado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e MBA pela Universidade Católica Portuguesa. Membro do Conselho da Diáspora Portuguesa.