Chamaram-lhe isolamento, cordão sanitário e dever democrático. Mas, no fim da noite  eleitoral, André Ventura tinha consigo cerca de um terço dos votos, apesar da união de todos contra si… Há derrotas que dizem mais sobre quem perde do que sobre quem vence.

Houve algo de profundamente revelador no rescaldo da segunda volta das eleições  presidenciais. Não tanto no vencedor — que a História tratará de enquadrar — mas no método  que foi necessário para tentar travar o vencido. Pela primeira vez desde o 25 de Abril,  assistimos a uma convergência, quase total, do sistema partidário em torno de um único  objectivo: travar André Ventura.

Da esquerda à direita, dos partidos do ‘arco da governação’ aos seus satélites morais, todos se  uniram num coro disciplinado apresentado como virtude democrática. Não foi apenas uma  união táctica; foi um cordão sanitário elevado à categoria de imperativo cívico. O discurso foi  claro: mais importante do que discutir ideias, programas ou diagnósticos para o País, era serrar  fileiras contra um homem. Contra um projecto político. Contra uma ameaça definida mais por  rótulos do que por argumentos.

E, no entanto, apesar dessa frente ampla — inédita na sua abrangência e intensidade — Ventura  conseguiu, sozinho, cerca de um terço dos votos. Sozinho, entenda-se: sem alianças, sem a  máquina do Estado, sem o conforto das estruturas instaladas, sem o beneplácito dos  comentadores residentes. Um terço dos eleitores portugueses decidiu votar num candidato  contra quem todos os outros partidos se mobilizaram activamente.

Chamar a isto uma derrota é, no mínimo, intelectualmente desonesto e ignorar,  deliberadamente, a realidade.

Há derrotas que diminuem, e há derrotas que expõem. Esta expôs o sistema. Expôs a fragilidade  de uma democracia que, perante o desconforto, prefere o bloqueio ao debate. Expôs uma elite  política que, em vez de perguntar por que razão tantos portugueses se sentem representados  por um discurso disruptivo, escolhe desqualificar os eleitores e moralizar o voto.

Mais inquietante ainda é a normalização da ideia de que a união dos “bons” contra o “mau” é  um substituto aceitável para a política. Quando todos os partidos se unem contra alguém, não  estão apenas a combater esse alguém; estão, consciente ou inconscientemente, a dizer a uma  parte significativa do eleitorado que a sua escolha é ilegítima. Que o seu voto é um erro a  corrigir, não uma mensagem a compreender.

Ventura não venceu as eleições. Mas venceu outra coisa: a prova de resistência. Provou que há  um País real que não se revê no consenso confortável, nem se deixa intimidar por campanhas  de demonização. Provou que um terço dos portugueses não desaparece porque os partidos  decidiram ignorá-lo.

A união de todos os partidos contra André Ventura não foi apenas uma jogada eleitoral; foi  uma mensagem clara para os seus eleitores. Disse-lhes que o seu voto é inconveniente, que as  suas preocupações são incómodas, que a sua escolha deve ser isolada e corrigida. Ainda assim,  esse eleitorado não recuou. Pelo contrário: resistiu.

Este resultado deveria obrigar a uma reflexão séria. Não sobre Ventura — que saiu  politicamente reforçado — mas sobre um regime que continua a confundir unanimismo com  democracia. Um regime que insiste em tratar um terço do eleitorado como um acidente de  percurso, em vez de o reconhecer como parte legítima da vontade popular.

O sistema celebrou a vitória, mas fê-lo com um nervosismo difícil de disfarçar. Porque sabe  que foi preciso unir tudo e todos para travar um homem — e mesmo assim falhou em convencer  um terço do eleitorado. André Ventura perdeu esta eleição, é certo, mas venceu o regime. O  regime, esse, mostrou que já não sabe ganhar sem medo.