Caros. Estapafurdiamente caros. É desta forma que muitos tutores classificam os valores associados aos serviços que resultam do exercício da profissão de medicina veterinária. Será, de facto, essa perceção a correta? Afinal de contas, estamos a falar de saúde – de animais, é certo, mas não fazem eles parte da nossa família?

Imagine, caro leitor, que o seu animal, companheiro fiel e inabalável de todas as horas, adoece subitamente e o leva ao veterinário. Recebe a fatura e com ela a surpresa de um valor para o qual não estava preparado. A sua reação imediata poderá ser, “Mas porquê este valor tão avultado?”. Será mesmo caro, ou estará apenas a ver a ínfima parte de uma equação?

A realidade é muito mais profunda do que aquilo que se pode crer. Está escondida em plena luz do dia. Desde logo, podemos descartar a ganância do Médico Veterinário em querer explorar os seus clientes sem dó nem piedade. A situação é precisamente a oposta; se há profissão com elevadíssimos níveis de compaixão e solidariedade, tanto para com os animais de que cuidam como para com os seus tutores, é precisamente esta. E quem pensa que os Veterinários recebem salários chorudos, desengane-se novamente. Os vários anos, de uma intensidade e exigência extremas, de formação, o desgaste emocional da profissão – que contribui para que seja uma das profissões com mais casos de burnout e a que apresenta a maior taxa de suicídio! – e os horários extenuantes não acompanham, de todo, a remuneração e o reconhecimento que lhe é devida.

Depois, temos outro aspeto que teima em dissolver-se: a constante e desfasada comparação com a medicina humana. Nesta última, há vários mecanismos de apoio por parte do Estado, incluindo a ausência de IVA. Ora, na medicina veterinária isto não acontece, ascendendo ao estapafúrdio número de 23 por cento sobre os seus serviços. Por outro lado, existem medicamentos receitados na saúde humana e que são igualmente utilizados na medicina veterinária, com a diferença que os primeiros são alvo de apoio estatal e os outros não. Um fosso muito largo e cuja comparação é desprovida de qualquer sentido. No entanto, é algo bastante enraizado e inculcado na mente daqueles cujo conhecimento dos verdadeiros meandros da profissão é escasso.

Se é certo que os preços aumentaram na sequência das sucessivas inflações, algo transversal a qualquer serviço, também é verdade que se têm vindo a verificar vários avanços, sobretudo tecnológicos, nesta profissão. Esta evolução implica, por exemplo, a utilização de equipamentos mais modernos, e por sua vez mais caros, que permitem uma maior eficácia e rapidez na conclusão de diagnósticos. Conseguimos, de forma mais rápida e fiável, saber o que se passa com o nosso cão ou gato e tomar decisões a favor da sua saúde. Algo que deve ser considerado como positivo, certo?

E assim devia ser encarado por todos quantos têm animais. A afinidade que temos por eles é comprovadamente maior com o passar das gerações, o seu estatuto enquanto membros da família inquestionável. E é muito fácil de perceber o porquê: na vida extremamente ocupada e stressante que a maioria tem, os animais de estimação representam um refúgio de descontração, um farol de companheirismo e lealdade, um autêntico talismã que permite manter a saúde física e mental. Se assim os vemos e reconhecemos, porque não devemos igualmente valorizar o papel (e os valores) associados a quem, mais do que ninguém, sabe realmente como cuidá-los?