Deixem-me começar por uma confissão: não acredito em imigração planeada, porque não acredito em economia planeada. Por isso só posso estar céptico quando oiço prometer que, acabando com a irresponsável política de “portas abertas” dos governos socialistas, vamos controlar e “planear” a imigração. Ou mesmo que vamos passar a só ter os imigrantes “certos”, aqueles de que a economia precisa, aqueles que as empresas conseguem ir buscar para trabalhar nas estufas ou na construção civil. (Já agora: a sério que são esses os imigrantes “certos”? São eles os que nos ajudarão a aumentar a produtividade da economia, a subir salários, a criar realmente valor acrescentado? Duvido.)

E agora deixem-me acrescentar uma segunda confissão/constatação: vão continuar a chegar a Portugal muitos imigrantes, e não apenas para “contribuírem para o saldo positivo da segurança social”, a ladainha mais ignobilmente egoísta que as nossas esquerdas têm repetido. Vão continuar a chegar porque há cada vez mais sectores da economia onde os portugueses não querem trabalhar, até porque conseguem viver com alguma tranquilidade quando o fazem. Sobretudo vão continuar a chegar porque passa-se em Portugal o mesmo que se passa em toda a Europa: quando se deixa de ter filhos, deixa de haver equilíbrio demográfico; quando há cada mais pessoas mais velhas (e ainda bem), há também dava vez mais necessidade de quem cuide delas, e os netos de hoje já não são, não podem ser, como os netos de ontem.

Mas deixem dar-vos alguns números, só para terem uma ideia daquilo de que estou a falar.

No último ano, 2024, apesar da chegada de mais imigrantes (a população cresceu mais de 100 mil habitantes), o número de jovens com menos de 15 anos diminuiu e o número dos residentes com mais de 65 anos cresceu significativamente (mais 50 mil). Já temos quase dois idosos por cada jovem, quando a proporção devia ser a inversa. Pelo quarto ano consecutivo a idade média do nascimento do primeiro filho situou-se acima dos 30 anos, e dos nascimentos registados em Portugal um terço – repito: um terço – foram de filhos de mães de naturalidade estrangeira, sendo que na região da Grande Lisboa essa proporção chega quase aos 50%.

Estes números não nos devem surpreender: desde 1982, ou seja há mais de 40 anos, que em Portugal deixaram de nascer bebés suficientes para assegurar (em teoria) o equilíbrio demográfico. O número mágico é de 2,1 filhos por mulher em idade fértil e estamos nos 1,4 praticamente desde 1990, com pequenas oscilações.

Os portugueses também deixaram de se casar – o número de casamentos caiu para metade nos últimos 30 anos –, e como a taxa bruta de divórcio se mantém entre as mais elevadas da Europa Ocidental, há muitos factores a contribuírem para que existam cada vez mais pessoas a viverem sozinhas (o número de portugueses que vivem sozinhos duplicou nos últimos 20 anos, serão hoje mais de um milhão e 140 mil, o que também ajuda muito a perceber porque é que faltam tantas casas no mercado da habitação).

Esta evolução da sociedade portuguesa não é muito diferente da que aconteceu e continua a acontecer por toda a Europa – eu diria mesmo por todo o mundo desenvolvido. Todos os países da Europa têm taxas de fecundidade que não asseguram a regeneração natural da população, todos começam a ter taxas de envelhecimento assustadoras e todos – pelo menos todos na Europa Ocidental – têm visto as suas necessidades de mão de obra a funcionarem como um íman para quem migra em busca de uma vida melhor. Só para se ter uma ideia de como não estamos a ter filhos suficientes na Europa basta pensar que em 2023 nasceram nos 27 países da UE 3,7 milhões de crianças quando, 60 anos antes, nasciam 6,8 milhões – e que em França, o ano passado e só para dar um exemplo, nasceram menos crianças do que as que nascerem… em 1806, ainda era Napoleão imperador.

Continuando a pensar na Europa, aqui a pressão vem sobretudo de África, até porque vivemos num mundo globalizado e África é neste momento o único continente aonde a população continua a crescer de forma exponencial, e os números são impressionantes. Há 100 anos, em 1925, viveriam na Europa 450 a 500 milhões de habitantes, em África menos de 200 milhões, ou seja, haveria 2,5 europeus para cada africano. Hoje a população europeia subiu para os 750 milhões, mas a de África saltou para 1,5 mil milhões, o que significa que passou a haver dois africanos por cada europeu. E se na Europa a população estagnou e já tende a diminuir, em África pode continuar a crescer até aos 2,5 ou mesmo 2,7 mil milhões de habitantes.

Por mais voltas que dermos aos números, e sem vos castigar com mais dados, nomeadamente sobre o declínio populacional da China e do Japão ou o equilíbrio a que parece estar a chegar a Índia, uma evidência dura como punhos tem-se vindo a impor a todos quantos têm estudado esta evolução: onde quer que as populações alcancem maiores níveis de bem estar, onde quer que se tornem suficientemente ricas para escolherem, a escolha tem sido a individualista, a escolha de ter menos filhos, menos inquietações, mais conforto.

Só que esta escolha egoísta, que não varia de forma substancial seja para que lado do planeta olhemos, começa por criar um desequilíbrio económico – falta de mão de obra, sobretudo em sectores menos qualificados e nos sectores sociais –, o que depois leva a uma alteração da natureza dos próprios estados, que deixam de ser países de emigração – como a Europa foi até à primeira metade do século XX – para se tornarem destinos de imigração.

Há países de baixíssima natalidade onde não se deixa que isso aconteça – os exemplos mais gritantes serão a China e o Japão, onde quase não vivem estrangeiros – e há uma Europa que, até pelas suas antigas relações coloniais, se tornou um imenso polo de atracção. Desde o fim da II Guerra e do fim dos Impérios que é assim nos países mais ricos do Norte, nas últimas décadas começou a ser assim também nos países do Sul, Portugal incluído.

Esta evolução demográfica não podia deixar de causar choques sociais, culturais e políticos e creio que não encontraremos nenhum país europeu onde os radicalismos nativistas estejam a crescer que não tenha conhecido antes a experiência de uma rápida alteração dos seus equilíbrios populacionais. (E não atirem areia para os nossos olhos: quando o partido de Jörg Haider entrou no governo austríaco no ano 2000 e quando o pai Le Pen derrotou um primeiro-ministro socialista numa primeira volta de uma eleição presidencial em 2002 ainda não havia redes sociais nem se perorava sobre “desinformação”.)

Por isso, se comecei este texto afirmando que não acreditava que se conseguisse “planear a imigração”, termino constatando a quadratura do círculo em que nos encerrámos: deixámos de ter filhos, por isso precisámos e precisamos de trabalhadores migrantes, mas a sua chegada criou problemas sociais e políticos que só por cegueira se ignoram ou desvalorizam.

Quisemos e queremos ter a vida mais confortável possível, mas quando disso decorre uma alteração profunda dos equilíbrios demográficos, da própria composição das nações, quando isso mina os alicerces dos consensos culturais e sociais (e das memórias comuns) que dão corpo ao compromisso democrático, é este que pode ser rompido. Não se esqueçam disso.

PS. Para os que acham que tudo o que atrás ficou dito é o extremismo do costume, deixo apenas esta frase: “Está-se a tornar cada vez mais claro que o preço da globalização desregulamentada, da imigração em massa e da livre circulação de mão de obra é pago pelas classes mais baixas.” Pertence a Mette Frederiksen, socialista e primeira-ministra da Dinamarca.