As notícias de um desastre iminente chegaram nas asas das andorinhas que, negras e cortantes, arribavam das bandas de Jerusalém. O ar de verão estava pesado de presságios. As tigelas dos escribas cheiravam a morte e a sal, a enxofre e a angústia, embora a água doce dos tanques e das cisternas viesse das chuvas e das cheias da primavera e houvesse de sobra até ao outono seguinte. A agitação incessante dos Essénios levava-os do scriptorium da biblioteca até às grutas próximas, das suas habituais mesas de trabalho às colinas perfuradas, de cuja argila e lama tinham sido moldados os altos vasos onde seriam colocados os pergaminhos. Versículos de Isaías, contratos, salmos, recomendações para as festas do templo da Cidade Santa, ocasionais textos gregos sobre astronomia e medicina, e reflexões sobre a verdadeira natureza dos filhos das trevas, desciam em direção a Qumran nos seus cavalos inquietos.

Eram soldados da X Fretensis, embrutecidos, sedentos de sangue, ignorantes e exauridos ​​da paisagem árida que atravessavam. Nenhum deles era capaz de ler mais do que três ou quatro palavras; a sua verborreia dependia da zurrapa cada vez mais forte e oxidada que lhes serviam, e dos frutos de Jericó que lhes eram trazidos por crianças famintas. Tinham-lhes dito que aqueles que defenderiam a biblioteca não possuíam armas, excepto as suas facas fanáticas. Os seus cintos e peitorais de couro – gastos, puídos pela transpiração – provocavam-lhes chagas na pele. A escassa vegetação que viam provinha de nascentes tímidas e escondidas; a luz ao entardecer tinha a cor de salmão eviscerado, enquanto as noites eram de uma beleza estonteante. Cachos cachos de estrelas tornavam-se cada vez mais raros à medida que desciam em direção ao que chamavam o Mar de Sal. Na legião, falava-se pouco, apenas grunhidos, interjeições e impropérios.

Os escribas e os seus discípulos também falavam pouco, um aramaico doce que azedava facilmente quando depositavam os tesouros da biblioteca nas grutas, uma das quais estava reservada para as roupas e madeixas de cabelo dos mestres falecidos, juntamente com os seus mantos de oração. Selar as grutas não foi difícil; havia pedra com fartura, e a cor uniforme das rochas ajudava à camuflagem. Quantas palavras, quantas leis, quantas histórias de heróis e patriarcas tinham sido copiadas e discutidas com orgulho não muito tempo antes! Talvez fosse verdade que era preferível salvar um pergaminho escrito a um homem, um documento inestimável a um escriba que preparava tintas e peles. Mesmo assim, o medo ergueu a sua face verde, semelhante à de um lagarto, e depois recuou para o meio dos arbustos. Sabendo o que sabiam e pressentindo o seu fim, agiram como se só o amanhã lhes pertencesse, um amanhã longínquo em que alguém descobriria o que escondiam. Séculos de trabalho jaziam no interior das grutas, pergaminhos como fetos em úteros frios de terracota; caligrafia perfeita, letras que acompanhavam a inclinação das chuvas e os movimentos dos reflexos do sol nas águas curativas; gemas e jóias da biblioteca que se dispersava, mas que não morreria. Dividiu-se para sobreviver enquanto os seus escribas pereciam pela espada ou, pior ainda, se tornavam escravos.

Não, a biblioteca não morreria a não ser que os legionários encontrassem os vasos nas grutas e decidissem destruir os manuscritos enquanto procuravam ouro, prata ou cobre. A probabilidade de tal acontecer era pequena, pois antes de aniquilar Qumran, a X Fretensis já sabia que tinha de continuar a sua marcha em direcção à alta fortaleza guardada por homens armados. Os conquistadores eram movidos pela pressa, pela fúria e por um duplo desprezo. Eram audazes no seu passo, mas um coro de roncos desajeitados nos seus sonhos de glória romana, sonhos de matança e folia, mulheres distantes e banhos; sonhos de sal para os manter em movimento no meio de violações, ordens e esterco de cavalo. Entre todos, alguns teriam por certo visto volumes escritos em línguas que não compreendiam; muitos eram ex-camponeses ou pescadores, artesãos desempregados e ladrões. Entre todos, não chegavam a possuir um grama de piedade.

O pergaminho mais enigmático entre aqueles que encontraram refúgio nas grutas era aquele a que chamavam o Pergaminho de Cobre, que registava uma lista de sessenta e quatro esconderijos subterrâneos espalhados por toda a terra de Israel. Estes esconderijos continham instrumentos rituais de ouro, pequenas pás, estiletes para a leitura da Tora, castiçais e vasos ornamentados. As referências geográficas às suas localizações eram escassas ou obscurecidas por metáforas e epítetos. Mesmo estas seriam eventualmente encontradas. De facto, havia um rumor de que quem descobrisse um dos esconderijos o encontraria ligado a todos os outros por redes interligadas de túneis ou por uma fina e imensa teia de fogo. Era uma das muitas lendas que os filhos da luz teciam à luz das suas lâmpadas e sacos vazios. Muito antes de os invasores atravessarem o mar, ostentando as máscaras cinzentas dos filhos das trevas, e partirem à conquista do desconhecido, um dos escribas da biblioteca de Qumran dissera: “Escrevemos para que o tempo regresse e o calor do ensinamento não se apague nunca.”

E, contudo, o que julgávamos perdido regressa quando menos esperamos, como se os pergaminhos adormecidos em úteros de terracota se lembrassem, um dia, de voltar a respirar pelas fendas do tempo. Surge-nos à frente sob a forma de uma frase sublinhada a lápis, de uma citação que regressa ao ouvido, de um fragmento de memória que resistiu ao saque, e nós, habituados ao ruído da legião, quase não reconhecemos a delicadeza com que esse vestígio nos pede abrigo. Há uma ironia cruel neste retorno: passámos anos a temer a perda, a lamentar o que se desagregava em pó, e quando os vasos se abrem e o texto ressurge à luz de uma tarde qualquer, já o olhar se deixou endurecer pela pressa e pela fadiga. O milagre discreto da sobrevivência confunde-se com um acaso arqueológico, uma nota de rodapé na história da nossa própria vida, quando na verdade é uma convocação silenciosa à gratidão, à responsabilidade, ao cuidado.

Talvez seja esta a tragédia mais subtil: aquilo que o tempo protegeu nas grutas escondidas da nossa memória, aquilo que escapou aos filhos das trevas e às mãos calejadas da Fretensis, é precisamente o que por vezes deixamos ao abandono sobre a mesa, entre papéis amontoados e distrações cintilantes. O futuro longínquo por que os escribas trabalharam, esse amanhã em que alguém descobriria o que ocultavam, é agora, e somos nós esse alguém, distraído, cansado, quase analfabeto para a linguagem da promessa. O que ressuscita pede-nos menos espanto e mais fidelidade: não basta abrir o vaso, é preciso aprender a ler de novo, a ouvir o aramaico doce antes que azede, a reconhecer no frágil calor das palavras um fogo capaz de atravessar séculos. Se não o fazemos, se deixamos os pergaminhos da nossa própria história por desenrolar, então talvez o verdadeiro saque não tenha sido perpetrado pelos soldados, mas por esta indiferença polida com que deixamos morrer, à vista desarmada, aquilo que o tempo, contra toda a probabilidade, nos devolveu.