Portugal não se pode atrasar mais. O país precisa de reformas sérias, responsáveis e estruturadas, mas sem cair na tentação da austeridade que tanto penaliza quem, com esforço, sempre cumpriu. É tempo de reconhecer que há uma geração a sustentar Portugal silenciosamente, e que está à beira da exaustão.

Refiro-me à geração nascida nos anos 80, hoje entre os 35 e os 45 anos. São homens e mulheres que constituíram família, compraram casa — muitas vezes à custa de décadas de crédito — e que integram o segmento da classe média. Aquela que não pede isenções, que não vive de subsídios, que não aparece nas estatísticas da pobreza, mas que, na prática, carrega o fardo das contribuições, das taxas e da ausência de apoios.

São milhares os que optaram pelo ensino privado, não por ostentação, mas porque o Estado não oferece alternativa de qualidade e segurança para os filhos. São também os que subscrevem seguros de saúde — alguns por privilégio laboral, outros porque não podem esperar eternamente por uma consulta no SNS. Paga  IUC, pagam portagens, pagam estacionamento todos os dias em Lisboa. Não têm apoios especiais, nem regimes bonificados. O que recebem em troca são greves recorrentes na CP e na IP, comboios suburbanos sobrelotados e horários limitados, especialmente na Área Metropolitana de Lisboa, onde reside grande parte desta geração.

Esta mesma geração vive refém do mercado da habitação. Os preços dispararam e a resposta do Estado é insuficiente, quando não inexistente. Muitos casais adiam ter filhos, ou optam por não ter mais, porque falta flexibilidade no trabalho, estabilidade nos vínculos e apoios efetivos ao longo da vida das crianças. Quando decidem avançar, enfrentam urgências de obstetrícia encerradas, pediatrias com limitações e a ausência de médico de família.

Tudo isto agravado por anos difíceis com crises, emergências e muitos problemas e só nos últimos anos: pandemia, aumento do custo de vida,  da habitação. Cada uma destas crises já seria difícil de enfrentar por si só. Juntas, tornaram-se uma tempestade perfeita para quem tenta apenas viver com dignidade.

O que esta geração pede é simples, mas exige coragem política. Quer um Estado que funcione. Um país que invista, de forma séria e estrutural, na mobilidade pública, na saúde acessível, na habitação, na educação com justiça. Um país que não penalize quem trabalha, contribui e cumpre. Que valorize a família e preserve a identidade nacional. Que respeite quem chega, mas, acima de tudo, respeite quem cá está e tenha carregado o país às costas. Um país que deixe de gastar e despejar dinheiro público, dinheiro de todos nós ao rio, sem causa nem consequência.

Não é pedir muito. É pedir o essencial. Um país simples, justo e com rumo. Um país onde se possa viver com dignidade, educar os filhos com os valores em que acreditamos e onde Portugal não desapareça a cada geração.

Não é um discurso de ressentimento. É um apelo ao bom senso. O tempo das promessas já passou. Agora, é tempo de agir.

Porque não há verdadeira reforma sem justiça. E não há justiça possível se continuarmos a esquecer quem mantém Portugal de pé.