As questões ligadas à educação e formação são sempre problemáticas e questionáveis. A formulação desta aceção tanto é válida quando desenvolvida em contexto considerado normal, como no tempo presente, em que estamos confrontados com uma crise pandémica.

Reinterrogar as políticas e práticas é algo inerente ao processo educativo e formativo. E os problemas com os quais as escolas, em geral, se confrontam são múltiplos, comportando uma crescente complexidade resultante da evolução económica, social, cultural, científica e tecnológica, agora agravada com as incidências resultantes da crise provocada pela Covid-19.

O quadro em que se movem as escolas, no tempo presente, induz a reinterrogações e à disrupção com as práticas do passado.

Importa que, tal como nas escolas profissionais se vem fazendo há vários anos, seja dado espaço aos alunos e aos professores para utilizarem as novas tecnologias como ferramentas essenciais ao serviço da mudança.

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Há que questionar os docentes sobre as múltiplas formas de ensinar e potenciar as aprendizagens dos alunos. Há que refletir sobre as formas de responder às necessidades do tecido económico e social e aos aceleramentos da evolução tecnológica. Há, naturalmente, que forçar os decisores a pensarem em formas mais eficazes, sem truques indutores de opções erradas, de promoção e incentivo à procura dos cursos profissionais por parte dos alunos que vão ingressar no ensino secundário.

Importa que se tenha a noção de que, ao nível do ensino secundário, a distribuição do número de alunos a frequentar cursos científico-humanísticos e cursos profissionais está ainda longe do referencial das melhores práticas da União Europeia e da OCDE. Temos, portanto, o “edifício educativo” ao contrário e é urgente reinterrogarmo-nos sobre quanto tempo, ainda, teremos de esperar para o ver alinhado com os sistemas educativos dos países económica e socialmente mais desenvolvidos.

Em Portugal, nos termos da Lei de Bases do Sistema Educativo, o ensino secundário deve preparar os jovens para o prosseguimento de estudos e para a entrada na vida ativa, mas apesar de estar a cumprir estes objetivos, está a fazê-lo sem ter em conta as reais necessidades do país. Esta constatação encontra sustento no facto de as empresas, salvo as de cariz mais tecnológico, precisarem muito mais de técnicos intermédios do que de técnicos superiores. Isto significa que deve existir um melhor alinhamento, quantitativo e qualitativo, entre as necessidades evidenciadas pelas empresas e as respostas dadas pelas escolas.

As reinterrogações sobre esse alinhamento têm que ser complementadas com outras, designadamente: onde ficam as ações de informação e orientação vocacional dos jovens e das famílias? Onde ficam as dinâmicas de entrosamento com o tecido económico e social? Onde ficam as escolas de referência, apetrechadas com as tecnologias de ponta? Onde estão as instalações, equipamentos e materiais didáticos que se exigem para uma boa formação? Como estão os recursos humanos e a necessidade de alinhamento entre os perfis de formação e os perfis dos formadores?

Sabe-se que no ensino secundário em Portugal temos cerca de 35% dos alunos, na idade própria, em percursos qualificantes, enquanto na Finlândia, Alemanha ou Suécia a percentagem se situa nos 70%. Sabe-se que em Portugal, como na Europa, as empresas preferem contratar jovens que tenham frequentado cursos profissionais em detrimento dos que tenham frequentado cursos gerais. Sabe-se também, que, à falta de jovens qualificados, as empresas são forçadas a aceitar outros sem qualquer qualificação profissional, o que significa uma desvantagem competitiva face aos parceiros da União Europeia.

Neste contexto pandémico, a discussão sobre as vantagens e os inconvenientes de se manterem as escolas abertas ou fechadas tem de ter em conta a especificidade dos cursos profissionais, não podendo ser negligenciado o facto dos alunos terem de ter acesso a equipamentos, laboratórios e oficinas, o que não se compara com as necessidades dos cursos científico-humanísticos.

As escolas profissionais deveriam, nos tempos presentes, ter mais autonomia para desenhar percursos de formação. Deveriam poder pôr em prática os planos de ação, em regime misto, com uma parte da formação em casa e outra na escola, elaborados e aprovados em setembro, numa perspetiva de agravamento da crise pandémica.

Neste contexto, as escolas têm de se reinventar para reverterem os efeitos nefastos da desestabilização do edifício escolar, refletindo sobre as formas de colmatar as lacunas de aquisição de conhecimentos/saberes daí resultantes, e de encontrar mecanismos de apoio social e de inserção no mundo do trabalho que sejam ajustados aos tempos que vivemos.

Este momento pode e deve ser, também, entendido como um ponto de viragem dos “velhos” métodos de ensino e aprendizagem para a adoção de novas práticas pedagógicas disruptivas, centradas noutras formas de fazer aprender e interagir com os alunos.

Espero que, nos meses que se seguirão e no período pós-Covid-19, não se extraia a conclusão de que este foi um tempo perdido ou um tempo para esquecer. Espero que, em termos efetivos, possamos concluir que se aproveitou a oportunidade para vencer etapas e deixarmos, definitivamente, para trás a “Escola do Século XIX” e passarmos para a “Escola do Século XXI”.

Caderno de Apontamentos é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.