Gosto de escrever sobre política. Faço-o neste palco, de forma graciosa. O que escrevo são opiniões, num espaço em boa hora criado no Observador: o da opinião que só obriga aqueles que as subscrevem. Em muitos dos meus textos faço o anúncio: sou de direita, conservador e católico; não gosto de revolucionários, de reaccionários e de populistas. Estes factores, conjugados com os pré-conceitos que todos temos: família, meio social, educação, escolas frequentadas, amigos, raça, local de nascimento, etc., levam-me a ter as opiniões que tenho.

Não me considero independente. Pelo contrário, sou dependente do que acredito. Formular uma opinião não é para independentes.

Em Portugal criámos uma classe: a dos comentadores, pessoas com a capacidade de analisar as situações e peneirar a espuma dos dias. A questão reside no facto de muitos destes comentadores se anunciarem como independentes. Ora, como é óbvio, não existe tal coisa. Podem não ser filiados num partido, mas não é isso que os torna independentes.

O que são, então, os comentadores das televisões que se intitulam como independentes? Pessoas sem opinião própria? Sem convicções? Ou simplesmente navegadores de tormentas cujo único objectivo é manterem o trabalho?

No nosso país, que mantém ideias pacóvias vertidas em lei, obriga-se a que os canais de televisão, mesmo os privados, diversifiquem a opinião. O que é isso? Na minha opinião é um receio saloio da esquerda, face aos ricos. Ou seja, o medo que os ricos promovam e paguem um canal de tv, um jornal, que defenda uma qualquer ideia (que não de esquerda, é claro). É mais fácil viver à conta do Estado e querer que todos o façam.

Resultado? Temos de levar em todos os canais com a “diversidade” de opinião. De que forma? Com um constante emparelhamento de comentadores dissonantes (quanto mais distantes “melhor”) para promover a berraria, a falta de educação e a discussão sem elevação. Basta assistir à performance de Miguel Morgado sozinho ou em debate com Prata Roque (e como eu percebo o Miguel Morgado!). É do dia para a noite. Acontece que eu, como espectador, não quero estar diariamente a decidir contendas entre comentadores! Quero ouvir opiniões. Aquelas que escolho ouvir/ler.

Ora, em Portugal, com a notável excepção do Observador, que tem uma linha editorial bem definida, sou obrigado a assistir a uma profusão de comentários díspares que acabam a criar mais confusão do que a esclarecer (estou em crer que jornais e canais de televisão mais engajados fariam diminuir o consumo das redes, pois se cada um de nós tiver um jornal, um canal de tv, com o qual se identifique, mas feito por profissionais, estaremos mais resguardados das fake news).

Na televisão, deixou de existir jornalismo político (o de investigação resume-se a atender telefonemas das “fontes”) e ficámos à mercê dos comentadores. Como se quer – ou se é obrigado – a dar tempo a todos – quase sempre no mesmo espaço — o que acontece?

Todos – mesmo aqueles que aprecio – são obrigados a baixar o nível e a defender um qualquer partido, em vez de ideias (tal qual os programas abjectos sobre futebol, onde é “obrigatório” que estejam sempre representados os três grandes, imperando o insulto e o disparate).

Diversidade no comentário não é todos ao molho e fé em Deus! Se não gosto do estilo de um canal – p.ex., a CMTV – não vejo. Mas quando se trata de política não tenho opção: em todos os canais tenho de assistir à “diversidade”, ou seja, à contenda.

Vejamos: eu não quero ouvir os representantes dos partidos (mesmo do meu)! Deixo isso para as campanhas eleitorais. Quero aprender, escutando ou lendo, pessoas capazes e que sem receios e rodeios, estejam, assumidamente, de um lado da barricada, não fingindo que são independentes.

Nos EUA, p.ex., existe a categoria do pundit: alguém que, por via do seu curriculum académico/profissional, merece o estatuto e é ouvido de acordo com a sua área de expertise. Em Portugal, com as guerras em curso, existiu uma corrida aos militares na reforma. Tratou-se de um upgrade e a descoberta, para muitos, da eloquência e conhecimento geoestratégico de alguns militares, o que só abona em favor da nossa academia militar.

No entanto, no nosso país e correndo o risco de ser injusto, parece-me que muitas das escolhas para o comentário político, são consequência de caras bonitas, indicações partidárias e amizades lobistas. Note-se que não exijo que um pundit português tenha de ser idoso (Sebastião Bugalho apesar de jovem tem já muita experiência, além de uma capacidade acima da média). Aliás, muitos anos de idade podem significar apenas muitos anos de disparates, de trocas de favores.

Continuando: o que ganho eu em ouvir um(a) jovem imberbe ou um desconhecido professor? Que livros escreveram, que trabalho fizeram, a que cargos concorreram para opinar sobre tudo o que mexe? E a quantidade de politólogos que agora por aí pululam? O curso de CPRI (ciência política e relações internacionais) devia servir para formar os altos quadros da função pública, como acontece em França. Acontece que, em Portugal, serve apenas para doutoramentos de teses mais ou menos abstrusas e para engrossar o exército de comentadores.

Os meus filhos – que são bem crescidos – têm opiniões políticas fortes. No entanto, desconhecem o Eixo do Mal, o Outro Lado, o Governo Sombra, o Princípio da Incerteza e demais programas que não lhes dizem, rigorosamente, nada. Porquê? Porque o modelo está gasto, muitos comentadores estão gastos.

Por fim, falemos dos jornalistas, mais propriamente dos pivots das televisões. Lamento, mas não estou minimamente interessado na sua opinião. De todo. Podem ser pessoas interessantíssimas e de bom trato. Posso até concordar com as suas visões! Mas, quando estão na tv não têm o direito de me dar a entender o que pensam sobre que matéria for. Querem ser comentadores? Deixem de ser pivots.

Concluindo: os grupos de comunicação social, para quem se der ao trabalho de analisar as contas, não gozam de saúde financeira (para ser simpático). Como se mantêm activos? Fácil: o Estado “ajuda” (mais uma vez, parabéns ao Observador que dispensou a “ajuda”). E como fazem esses grupos de comunicação social o “pagamento” da “ajuda” estatal? Fácil: mantendo a “diversidade” na opinião e a contratação de comentadores “independentes”.

Por fim: se os canais de notícias vão para a guerra das audiências, tal qual os generalistas, então quem vai ganhar é aquele que descer mais o nível, que promover mais berraria e que menos apetência tiver pela opinião livre. Vai ganhar aquele que prestar o pior serviço à democracia.