O almirante, o ainda não candidato à presidência da república que, todavia, está-se mesmo a ver que vai ser, é só fumaça. Há dias deu à estampa, no mais conceituado semanário, um manifesto. Mas depressa veio esclarecer que não era um manifesto. Dando seguimento às tergiversações mal fingidas que enfeitam a postiça postura como candidato a candidato, o almirante reformado destapou o véu do seu “pensamento político” (as aspas não são por acaso).
Para sossego da imensa mole que gravita no albergue centrípeto da paisagem política (o “centrão”), o almirante anunciou que está entre a social-democracia do maior partido do governo e o socialismo do maior partido da oposição. Tamanha equidistância revela um desejo tão ardente de seduzir essa multidão de eleitores (à volta de dois terços dos votos em sucessivas eleições) que o almirante, se der um passo em falso, cai para dentro do seu próprio abismo, pois situar-se ao centro do centro faz com que não haja precipícios que o possam sobressaltar.
Se era para revelar esta cirúrgica precisão centrista, melhor seria que o tivesse exteriorizado antes, quando foi despontando para o mediatismo ao gerir as vacinas e ao aparecer em público como o disciplinador chefe da armada. Ademais, o almirante labora numa confusão intelectual que deixaria o seu nome na pauta dos reprovados se tivesse ido a exame de “Ideias Políticas”: a correspondência de ideologias entre os dois partidos que se situam dois milímetros à esquerda e à direita do almirante é a prova manifesta da desatualização ideológica do candidato (a candidato).
Não era o único exame que levaria o almirante a repetir uma disciplina no ano letivo seguinte. Ficaria aquém dos dez valores em “Direito Constitucional” e em “Fundamentos do Sistema Político”. O almirante forneceu umas notas hermenêuticas sobre o papel do presidente da república. Esse naco de conhecimento entra em choque frontal com as regras constitucionais e o sistema político vigente. Sem querer – ou talvez não, que no meio de tanta ambiguidade não é fácil perceber ao que vem o almirante quase candidato –, foi deixando cair umas palavras sintomáticas sobre o que deve fazer o futuro presidente da república no pressuposto que seja ele a ocupar a sinecura. Essas revelações quadram com os excessos de voluntarismo que exterioriza em público e com a propensão para se dar a conhecer como homem providencial. Que interessa que as suas pessoais interpretações constitucionais sejam má doutrina? Ainda bem que o almirante anunciou ao que vem: se vier a ser eleito, será um ator de instabilidade.
O almirante desconfia das sondagens – e tem legítimas razões para desconfiar, tantos os abalos sísmicos eleitorais que têm desconstruído sondagem atrás de sondagem, ao ponto de sossegarem os espíritos que desconfiam de oráculos proclamando “é a sondagem, estúpido”, mas em versão alternativa que elimina a vírgula e transforma o adjetivo em feminino. O almirante desconfia das sondagens que o elevam ao pedestal das preferências por larga vantagem. De outro modo, não se entende como se situou cirurgicamente ao centro do próprio centro. É que centro mais ao centro não há. O excesso de centrismo do almirante não é genuíno, pois não corresponde à linguagem que o notabilizou. Este posicionamento é uma guinada oportunista, não vão as sondagens reveladas pecar por excesso quanto ao número de cidadãos favorável a que o almirante seja o sucessor de Marcelo. Daí o amor assolapado ao centrismo radical.
As promessas de ativismo presidencial vertidas nas palavras publicadas pelo almirante confirmam-no como um inequívoco equívoco. Desconhece os fundamentos do sistema político e os sedimentos da Constituição, ou deles faz uma tresleitura – deixo ao critério do leitor concluir qual das duas hipóteses é a pior, suspeitando que as considera ambas más. Se o almirante vier a ser o próximo inquilino do Palácio de Belém, desconfio que seremos testemunhas de um mandato marcado pelo ativismo histérico que, decerto, será do agrado dos seus constituintes (e aqui incluo apenas os que contribuírem para a sua eleição).
Estamos perante um empate de desqualificações: escolher alguém que se distinguiu pelas capacidades de gestão no contexto de uma tarefa meramente burocrática (sem desvalorizar a tarefa numa época tão conturbada) para ocupar a presidência da república, coloca ao mesmo nível o almirante e quem o eleger. Um presidente da república não é gestor de nada, nem o cargo remete para o poder executivo. É o caso típico de um “erro de casting”, como agora está na moda dizer-se: eleger um candidato por atributos que não correspondem ao exercício do cargo para o qual é eleito.
Presumo que muitos eleitores têm o sonho molhado de ver o almirante a destratar políticos conceituados, como destratou em público os marinheiros que esboçaram um ato de rebeldia quando se recusaram a embarcar numa embarcação que estava sempre a avariar. Eles, os políticos conceituados, que sejam postos em sentido e para isso precisamos do espírito disciplinador do almirante. É preciso, pois então, arrumar a casa e pôr em ordem os desordeiros que desgovernarem o país. Quanto à separação de poderes, que seja mandada às malvas pela conceção original de ativismo presidencial que o almirante prometeu, e não apenas nas entrelinhas, aos seus seguidores e aos militantes e simpatizantes dos partidos que se situam entre o PSD e o PS.
Este primeiro ato do almirante como pré-candidato a candidato assemelha-se a um coito interrompido. Ou, tomando de empréstimo uma palavra inexistente no léxico, mas popularizada por uma ex-presidente da Assembleia da República, um “inconseguimento”.