No Antigo Testamento, o capítulo 12 do Livro dos Juízes conta a história do triunfo militar do clã de Galaad sobre a tribo de Efraim. Os sobreviventes efraimitas que, em fuga, tentam cruzar o rio Jordão de regresso ao seu território natal vêem-se barrados pelos galaaditas que ocupam os vaus do rio para detê-los. Versículos 5 e 6: “Depois os homens de Galaad tomaram a Efraim os vaus do Jordão, de maneira que, quando um fugitivo de Efraim dizia: ‘Deixai-me passar’, os galaaditas perguntavam-lhe: ‘És efraimita?’ Se dizia:’Não’, respondiam-lhe: ‘Então diz: Schibboleth’. Ele dizia: ‘Sibboleth’, porque não conseguia pronunciar doutro modo. Então agarravam-no e matavam-no nos vaus do Jordão. Caíram naquele tempo quarenta e dois mil homens de Efraim.

A diferença entre o “sch” e o “s” na pronúncia de uma palavra que significa, em hebraico, “espiga de trigo”, é mais decisiva do que simplesmente uma oscilação dialectal entre xi- e si- geradora de equívocos comunicacionais (de resto, o fracasso de comunicar persegue sempre todo o acto de comunicação humana). A diferença não é, pois, meramente dialectal: é existencial: entre o “sch” e o “s” mora, enciumada e policial, uma palavra-passe que, cavando a trincheira que separa o nós e o eles, amaldiçoa ou abençoa. Enxota ou acolhe. Condena ou salva. Silencia ou dialoga.

Dos tingidos vaus do Jordão ao pouco pacífico Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial (alguns soldados americanos no Pacífico, segundo se diz, usavam a palavra lollapalooza como um código para identificar pessoas estranhas com base na premissa de que os japoneses trocam os “l” e os “r“), passando pela sangrenta Revolução Federalista no sul do Brasil no final do século XIX (os brasileiros faziam a identificação dos mercenários uruguaios ordenando aos capturados que pronunciassem a consoante “j” ou a palavra “pauzinhos“, as quais, por serem falantes de espanhol, os uruguaios capturados, denunciando-se, pronunciavam “xôta” e “paucinhos“) ou pelos recreios do antropólogo Marcel Mauss (que, segundo Lévi-Strauss, “se divertia a ler os limites da expansão celta na forma dos pães nas montras das padarias”), a “espiga de trigo” sempre cumpriu esta dupla função de segregação identitária (auto- e hétero-): nós, os bons – eles, os maus; nós, os puros – eles, os impuros; nós, os familiares – eles, os estranhos; nós, os logocratas – eles, os afásicos.

A propósito da direita nos Açores (também aqui estamos no terreno da pronúncia: o Schibboleth açoriano não é para todos os ouvidos), cujo entendimento pós-eleitoral – sempre melindroso, obviamente, na medida em que resulta de vários interesses e cálculos partidários, nem sempre convergentes –, permitiu viabilizar, pela primeira vez em duas décadas, um governo regional não-socialista, veio a público e no Público uma outra direita – assumidamente “schibboléthica” e de sentinela nos vaus açorianos – denunciar o avanço desviante de uma direita “iliberal” (a direita iliberal, por coincidência, é sempre a dos outros) e apontar o trilho de regresso à direita “liberal” (ela mesma, por coincidência, e apontando na direcção de si mesma). No vernáculo bíblico, a direita açoriana não sabe dizer “espiga de trigo”: nos Açores a direita diz “s” em vez de “sch“. Direita efraimita, devidamente detectada e barrada pela direita galaadita: ¡No pasarán!

O embaraço, no entanto, é que este Schibboleth, embora pronunciado por falantes de direita, pertence à inconfundível encíclica e ao inconfundível patois de esquerda: “deriva nacionalista, identitária, tribal”, “movimentos nacional-populistas, xenófobos e autocráticos”, “estigmatizam etnias ou credos, acicatam divisionismos, normalizam a linguagem insultuosa, agitam fantasmas históricos, degradam as instituições”, “discursos demagógicos, incendiários, revanchistas”. Duplo equívoco bidireccional, portanto: quanto ao emissor, que pronuncia o «s» de esquerda julgando estar a pronunciar o “sch” de direita, e quanto ao receptor, que é acusado de não ser realmente de direita por não saber pronunciar o “s” de esquerda.

Sem surpresa, a direita que sapou o perímetro de uma “Área VIP” da democracia, infrequentável pelos infrequentáveis e impronunciável pelos impronunciáveis, viu o seu gesto de higienização provocar mais ovações à esquerda do que à direita. Não por acaso. Tais espasmos de pureza, que encerram sempre uma fixação quase hipnótica pela divisão dos homens segundo uma mitológica composição mineral que não autoriza misturas sob pena de deterioração geral (Platão, no Livro III (414d-415d) d’A República, falando sobre o mito hesiódico dos metais, prescreve vigilância apertada sobre as crianças, “sobre a mistura que entra na composição das suas almas”), sempre foram mais característicos dos devaneios auto-ungidos dos optimismos messiânicos de esquerda, mais predispostos à recusa da inexorabilidade do impossível que não consente negociação, do que das prudências consuetudinárias dos pessimismos antropológicos de direita, mais propensos ao respeito pela irredutibilidade do possível que apela a compromissos.

Tendo caído na mais velha armadilha do esquerdismo, “doença infantil do comunismo”, esta direita tornou-se um direitismo, a doença infantil do liberalismo. Assim, aquilo que, num abaixo-assinado que inaugura uma espécie de trotskismo de direita ao qual não falta sequer o seu próprio Louçã liberal-conservador, se anunciou como a verdadeira voz da direita, não passa, afinal, de uma exibição postiça de ventriloquia: o boneco apenas mexe os lábios pintados de direita, quem realmente fala é uma boca fechada de esquerda. Basta escutar com atenção. Ora diz lá: Schibboleth.