Não podemos refletir nesta questão sem antes aflorar o que a história nos dá conta sobre o que foi ser criança outrora, porque seguramente foi diferente do que significa e do que representa contemporaneamente. Sabemos que viveu tempos de indiferença, confundindo-se com os adultos nos seus trabalhos e divertimentos, com a infância apenas reduzida ao período de maior fragilidade. A doença representava, frequentemente, a sua morte, trazendo esta tristeza e desolação, mas que rapidamente se desvanecia, já que outra criança em breve a viria substituir.

Mas porque o Mundo mudou, a história da criança altera-se, e os dias que vivemos, mostram a infância como uma fase de desenvolvimento única, com atenção às suas necessidades específicas de afeto, de proteção e de educação, com direitos garantidos e que as sociedades visam promover e valorizar. Contudo, ser criança hoje, não representa esta realidade em todo o planeta, já que conhecemos as profundas desigualdades e as assimetrias no que são os seus direitos e as suas oportunidades.

Ser criança hoje pode representar, para muitas, viver numa sociedade com inúmeras oportunidades, com acesso garantido à educação, aos cuidados de saúde, às novas e avançadas tecnologias, bem como crescer numa família que a ama e protege.

Para outras, não significa nada disso, mas sim viver em pobreza, sem acesso à educação e à saúde, privadas de e até sob o flagelo da guerra e dos conflitos que teimam em fazer delas as principais vítimas. Sobre estas, vergo-me na incapacidade em apontar quais os seus desafios que vão para além da sobrevivência… Mas sobre as que pertencem ao mundo mais privilegiado, ouso apontar aqueles que podem ser alguns dos desafios que hoje enfrentam.

Os nossos dias desafiam as crianças a viverem em mudança, exigindo-lhes resiliência e adaptação. As diferentes formações familiares, a instabilidade de alguns empregos e a emigração arrastam consigo a necessidade de as crianças viverem alternadamente em diferentes casas, em diferentes cidades e até em diferentes países. O ritmo que lhes é imposto viverem é apressado, com dias longos ocupados com a escola e múltiplas atividades que se prolongam para além desta, e noites curtas com sonos pouco reparadores, que resultam, vulgarmente, do uso inadequado de uma panóplia de dispositivos eletrónicos, aos quais, cada vez mais cedo, têm acesso. Estes, colocam-nos em ligação instantânea com o Mundo, se bem que seja um contacto virtual, diria até irreal, mas são responsáveis por significativos impactos no seu desenvolvimento físico, cognitivo e emocional.

E porque os adultos são responsáveis por tanto do que foi referido, é premente sentir o desafio de refletir sobre como podemos hoje prover do melhor interesse da criança. Para os Pais e os Educadores, importa a consciencialização do que deve (re)significar ser criança, atendendo às reais necessidades de cada uma enquanto tal. Importa que lhes seja proporcionado viver a sua infância com o tempo, o espaço e a liberdade para brincar, e que esta possa ser em interação com os outros, garantindo o uso assertivo das tecnologias e a proteção dos seus riscos. Importa garantir que estão, responsivamente, presentes no seu crescimento e no seu desenvolvimento, ajudando-as a lidar com as suas emoções, a entender o que é certo e errado, a respeitar-se a si e aos outros.

E para os enfermeiros, que ocupam um lugar de grande responsabilidade no panorama da assistência à criança e à família, importa apoiar os Pais na vivência da sua Parentalidade. Neste, que pode ser o maior desafio da vida adulta, os enfermeiros podem se assumir como significativos, conseguindo ajudar os Pais a serem o que querem, o que podem e que devem ser na vida dos filhos.