Apesar de ainda faltarem alguns dias até sermos chamados às urnas, esta é a última crónica que escrevo em tempo eleitoral. Aproveito, assim, para fazer um balanço do que está verdadeiramente em causa e, no meu caso, explicar as razões que me levaram a apoiar Henrique Gouveia e Melo.
No seu discurso de abertura da campanha, mais cedo do que é habitual, Luís Montenegro apelou ao chamado “voto útil”: “não podemos brincar”, disse, para depois desenvolver a ideia de que a escolha de Marques Mendes será a que melhor serve um cenário de estabilidade governativa. Logo de seguida, devidamente amparado entre Rui Moreira e Luís Montenegro, talvez para não cair, Marques Mendes procurou sublinhar a sua “independência”, não fôssemos nós concluir que o apelo do primeiro-ministro visava colocar o candidato presidencial no bolso do chefe do Governo, em nome da estabilidade.
O que Luís Montenegro não esclareceu foi a quem, afinal, serve o voto útil. É legítimo supor que será, sobretudo, útil ao primeiro-ministro. Já quanto à maioria dos portugueses, essa utilidade está longe de ser evidente.
A Presidência da República é o único órgão de soberania que, por opção constitucional, permite que cidadãos não integrados em estruturas partidárias concorram a eleições. Ora, Portugal precisa, neste momento da sua vida democrática, de mais sociedade civil na política e de menos lógica partidária. Para termos mais Democracia, precisamos de menos Partidocracia. Portugal necessita – e a Presidência da República é o órgão de soberania constitucionalmente adequado para isso – de alguém o mais livre possível de inerências, capaz de oferecer garantias efetivas – e não meramente retóricas – de independência. Esta forma de ver as coisas não é nem populista, nem contra os partidos, é a posição realista de quem percebe que se não houver uma maior exigência cívica e uma tutela permanente dos cidadãos da atividade partidária, dentro do que a Constituição permite, se o próximo Presidente da República não tiver um património de sobriedade e seriedade o mais robusto possível, sem uma história de vida que o fragilize, a muito breve trecho serão muitos mais, a maioria, e por esgotamento, que se entregarão nas mãos das forças que exigem o fim do Regime.
Os últimos anos têm mostrado, à saciedade, que o sistema político-partidário não está saudável. Os partidos e o ambiente mediático deixaram-se contaminar pela toxicidade das redes sociais e por uma cultura política que penaliza quem dialoga e coopera. Por isso, mais do que anular a Presidência da República – transformando-a numa espécie de seguro de vida de uma única coligação partidária que governa em minoria, como parece desejar Luís Montenegro – precisamos de alguém capaz de transcender divisões partidárias e contribuir para o equilíbrio institucional num Parlamento profundamente fragmentado. Ou alguém acredita, mesmo, que Mendes ou Seguro serão capazes de assegurar equidistância na relação entre a AD, o Chega e o PS, ao contrário de Henrique Gouveia e Melo? É que, apesar das qualidades pessoais que (hipoteticamente) alguns candidatos possam ter, todos emergem de fações partidárias concretas, o que limita objetivamente a sua capacidade e equidistância.
Mas não se culpe apenas os partidos pelo estado atual da Nação. Grande parte do que estamos a viver é, sobretudo, responsabilidade nossa, enquanto eleitores, pela cedência da sociedade civil aos políticos profissionais. Não nos resignarmos perante o que classifiquei, em maio do ano passado, como o “despotismo suave dos partidos”, implica sair da zona de conforto. No meu caso, significou participar ativamente na campanha e escrever e dizer coisas que, por regra, “não é suposto dizer-se”, como me recordava por aí uma alma penada, daquelas a quem o mundo está a fugir muito rapidamente. Aturando serenamente e sem devolver insultos, o que nunca pensei que a minha paciência fosse capaz de acomodar com um sorriso.
Mas é preciso ir mais além. Nesta eleição, é importante que os portugueses valorizem o esforço de Henrique Gouveia e Melo e dos cidadãos como eu que, saindo da sua zona de conforto, decidiram assumir o espaço que os grandes partidos – PSD/CDS e PS – escolheram negligenciar, apresentando, num momento crítico para o Regime, candidatos de segunda linha e perfis politicamente frágeis. Porque se isso não acontecer, será mais difícil no futuro mobilizar pessoas fora dos partidos, por concluírem que, no final, até o rato Mickey, desde que apresente patrocínio partidário, é o escolhido do Povo.
André Ventura tem sido perigosamente competente na execução da sua estratégia de crescimento. Tal só tem sido possível porque os partidos tradicionais têm falhado sistematicamente na hora de oferecer soluções sólidas que vacinem as pessoas contra o vírus da desesperança. O verdadeiro risco desta eleição não é – mesmo – Henrique Gouveia e Melo; é termos, de um lado, um populismo eficaz e, do outro, candidaturas sem substância política, protagonizadas por pessoas com perfis frágeis, histórias de vida cheias de polémicas, e/ou sem nada de brilhante para nos inspirar.
Sem desprimor por outros candidatos (João Cotrim de Figueiredo facilmente recolheria o meu voto), acredito, ainda assim, que Henrique Gouveia e Melo é aquele que reúne as melhores condições para representar a sociedade civil na Presidência da República. A partir do centro, cobre os espaços moderados da direita e da esquerda e oferece um património de sobriedade, percurso e confiança essenciais num momento de profunda degradação institucional, como o que vivemos. Será, aliás, legítimo perguntar quem está a “brincar” com quem. Porque, não tenhamos ilusões, só mesmo no País dos Rodinhas se pode defender que é possível combater o populismo com quem, durante quarenta anos, esteve sempre na linha da frente do poder político e mediático, na sombra dos negócios trágicos do Regime, sem nunca ter criado, construído ou deixado legado ou obra tangível para o futuro.