Há pouco mais de um ano escrevi aqui que a esquerda estava a perder a gramática, que lhe faltava um vocabulário para nomear o que dói e uma sintaxe para ordenar prioridades, e que o vazio deixado pelo esgotamento das causas identitárias seria ocupado por quem soubesse falar a língua das redes. À falta de melhor discurso, a esquerda tentou capturar um problema real e complexo – o da habitação –com tendas nas praças, assembleias noturnas, panos pretos nas varandas, palavras de ordem e, sobretudo, um dispositivo narrativo inteiro, com décadas de uso, desempoeirado em três semanas e posto a funcionar como se tivesse sido escrito ontem. A esquerda, incapaz de criar narrativas pensadas para os tempos de hoje, foi reciclar as velhas imagéticas do já falecido Toni Negri.

Convém dizer quem foi, porque a memória é curta e o nome já diz pouco a quase todos. Negri foi, a partir dos anos sessenta, o teórico mais influente do operaísmo italiano, a corrente que deslocou o olhar da fábrica para toda a sociedade e proclamou que o operário havia saído da linha de montagem para se tornar “operário social”. Todos são potencialmente oprimidos, no sentido marxista, toda a gente, em todo o lado, a produzir para o capital sem o saber, de modo que a luta de classes passava a poder travar-se em qualquer esquina. Foi o teórico da recusa do trabalho e da “autonomia” que nos anos setenta encheu as ruas de Bolonha e de Roma; acusado em 1979 de ser o cérebro das “Brigate Rosse” e do sequestro de Aldo Moro, absolvido dessa acusação e condenado por associação subversiva e bando armado, eleito deputado para sair da prisão e fugido para Paris quando o Parlamento lhe levantou a imunidade, regressou em 1997 para cumprir o resto da pena. Quando veio a Portugal em 2005, escrevi três textos a chamar-lhe camaleão do marxismo, porque a sua vida inteira foi a reinvenção do mesmo, com roupagem nova de cada vez que a anterior se gastava. Morreu em dezembro de 2023, com noventa anos, celebrado como filósofo por quem já não se lembrava do resto.

Em 2000, com a obra “Império”, escrita com Michael Hardt, e a sua continuação de 2004, “Multidão”. Negri veio defender que a soberania estava em transferência dos Estados-nação para uma entidade descentrada, sem rosto nem morada, o Império, forma acabada do capitalismo globalizado; ao Império deveria opor-se a multidão, feita de singularidades que sem um sentido de classe homogéneo, passaram a produzir em rede, um trabalho imaterial, numa metrópole inteira eu substituía a ideia tradicional de “fábrica”. A multidão dispensa partidos e programas, basta-lhe existir e aparecer, porque a sua potência é “constituinte”, anterior e superior a qualquer constituição escrita, e de cada vez que ocupa um espaço está a exercer uma legitimidade que o sufrágio se limita a administrar. Escrevi há vinte anos que isto era determinismo historicista com vocabulário novo. Mantenho-o, e acrescento que é, sobretudo, um manual de encenação.

Porque a imagética de Negri é o próprio método. A multidão existe quando é vista. O proletariado podia ser contado, tinha carteira sindical, chaminés, horários; a multidão é uma imagem, o plano aberto da praça cheia, o enxame, o corpo coletivo sem cabeça que as câmaras captam de cima, e a sua força mede-se pela capacidade de fazer com que essa imagem pareça incluir toda uma camada de descontentes. Daí a praça, daí a tenda, daí a assembleia popular com as mãos no ar, que são, antes de tudo, formas de aparecer. Em 2012, a propósito das acampadas de Madrid e do Occupy nova-iorquino, Negri e Hardt publicaram um pequeno livro, “Declaração”, em que descrevem o acampamento como laboratório de um poder constituinte e enumeram as figuras do homem contemporâneo que a multidão viria libertar: o endividado, o mediatizado, o securitizado, o representado. Leia-se a lista com atenção. O mediatizado é vítima dos media, e a multidão só existe através deles. O securitizado é vítima da polícia, e a multidão precisa da polícia para existir. O representado é vítima do parlamento, e a multidão exige ser ouvida por ele. O moto de toda esta dialética é a contradição, sem ela não há conflito entre opressores e oprimidos.

Uma minoria organizada, pequena, com leituras feitas e protocolos decorados, instala-se num espaço simbólico e espera. Espera que a causa real, e a habitação é uma causa real, traga gente que nunca leu Negri e que vem apenas porque não consegue pagar a renda; espera que as câmaras transformem essa gente em multidão; espera que a imagem da multidão produza a sensação de que a cidade inteira está nas tendas e de que o país está “completamente à deriva”, expressão que saiu esta semana da boca de quem ocupa o extremo oposto do espectro. A extrapolação é o gesto central: de uma centena de tendas para uma geração inteira, de uma assembleia para o povo, de um despejo para o colapso do contrato social. Ao caos basta parecer iminente, e para isso serve a adição de micro-causas, a habitação hoje, os combustíveis amanhã, os lucros da banca depois, um saco onde cabe tudo e que ninguém consegue esvaziar sem parecer indiferente a alguma coisa.

Depois, o guião precisa do bastão. Esta é a parte mais delicada, e peço que me leiam com cuidado. Houve cargas policiais em Lisboa e no Porto, houve feridos, houve uma observadora da Amnistia Internacional atingida, há um processo na IGAI e outro no Ministério Público, e nada disto deve ser desvalorizado por quem, como eu, acredita que um Estado de direito se mede pela proporcionalidade com que usa a força. Convém olhar para a sequência. O guião precisava da carga e sabia-o antes de a carga acontecer: as tendas foram montadas no Rossio depois de a polícia ter anunciado que não as permitiria durante a noite, a ocupação prolongou-se para além do limite invocado para o uso do espaço público, e o comunicado a denunciar “violência estatal” estava pronto às duas da manhã, à velocidade da luz, quiçá por estar pronto de véspera. No Império de Negri, a polícia é o único rosto visível de um poder sem rosto, e cada bastão filmado é a prova de que o Império existe e de que a multidão é a sua vítima. Daí a disputa dos números, onze feridos para a polícia, trinta e sete para a acampada, porque a contagem dos feridos é a contagem da opressão, e quanto maior a opressão, maior a multidão que ela legitima. A sensação de opressão fabrica-se com a violência extrapolada: o plano fechado do cão, a repetição em contínuo, a voz que diz que aquilo podia ter sido qualquer um de nós.

É nisto que a doutrina dos anos oitenta encontra o seu habitat perfeito na era digital, e é por isso que falo em reciclagem. Negri pensava a multidão em rede antes de existirem as redes; o que ele não previu foi a dopaminocracia, a economia da atenção em que a imagem da praça compete com a imagem do gato e em que só sobrevive o que gera reação. A acampada é uma máquina de gerar reação, e os panos pretos nas varandas são um gesto pensado para o telemóvel. A convocatória de Barcelona que acabou com vinte e três lojas destruídas e setenta e três menores detidos circulou numa rede social, sem organização conhecida, e as autoridades garantiram que nada tinha a ver com a acampada da Plaça de Catalunya, e provavelmente é verdade, e é precisamente essa a questão: a multidão não tem autor, deliberadamente, para que ninguém responda por ela. Escrevi em 2017 que a doutrina de ação herdada desta tradição consiste em criar uma sensação de caos, agregar micro-causas, alimentar a cultura mediática do medo e projetar a ideia de que um núcleo de poderosos capturou a democracia contra o povo. Faltava-lhe, em 2017, a ferramenta. Hoje tem-na no bolso.

Resta explicar por que razão a esquerda, que perdeu a gramática nas redes, a vai buscar à praça. A resposta está na matéria. A esquerda de matriz trotskista, organizada em círculos e assembleias, nunca sobreviveu bem ao ambiente líquido das redes sociais, que premeia o perfil e pune a disciplina, e durante anos assistiu, impotente, à captura do pulsar da rua pela direita populista e ao seu transporte para o TikTok. A acampada é a tentativa de recuperar corpos: corpos na praça, corpos nas tendas, corpos a dormir ao relento, a “carne da multidão” de que falava Negri, porque só os corpos produzem a imagem que as redes depois multiplicam, e porque uma assembleia com as mãos no ar é a única coisa que uma organização velha ainda sabe fazer e que ainda rende em vídeo. É uma operação de sobrevivência disfarçada de insurreição, uma ópera pífia a cantar as árias de uma geração que falhou em Atenas, em Madrid e em Caracas, para um público que não leu a crítica da estreia.

Nada disto resolve uma renda. Problemas como a habitação ou a segurança resultam de décadas de decisões sobre solos, licenciamento, fiscalidade e demografia, envolvem milhões de interesses legítimos e contraditórios, e só se resolvem no tempo lento das instituições e do compromisso que a democracia representativa existe para mediar. A barricada simplifica, reduz o mundo a dois campos, substitui o argumento pela imagem, e deixa o problema onde estava, acrescido de uma sociedade mais tribal e mais medrosa. Escrevi em 2008, a propósito de Atenas, que quando a rua substitui a democracia as populações moderadas aceitam com mais facilidade restrições às liberdades em nome da segurança. A multidão de Negri conduz sempre ao mesmo sítio, à mão forte que ela própria convocou.

Fica o outro lado, a quem não poupo. Um governo que responde a uma causa real com dez dias de silêncio e com a Unidade Especial de Polícia às duas da manhã está a fornecer ao guião exatamente a cena de que ele precisava. A resposta a uma multidão fabricada é retirar-lhe a matéria-prima: casas, licenças, edifícios públicos devolutos postos a uso, uma lei do arrendamento explicada à luz do dia. Sem isso, a imagem fica, a doutrina volta a parecer nova, e a gramática que a esquerda perdeu continua emprestada por um morto que a escreveu para um século que há muito já terminou.