É intrinsecamente português – ou talvez seja apenas humano – acharmos que a relva do vizinho é sempre melhor do que a nossa. Portanto, a ideia de férias no estrangeiro talvez seja mais apelativa para muitas pessoas. A realidade é que, infelizmente, é uma opção cada vez mais económica face a algumas das nossas regiões, como o sotavento algarvio.

Por outro lado, isso não parece ser um problema para personalidades estrangeiras bem conhecidas do grande público, como Jamie Dornan (Mr. Grey no filme As 50 Sombras de Grey) ou o príncipe Harry, que alegadamente adquiriram casa no Meco e na zona de Melides/Comporta, respetivamente.

A verdade é que o nosso país está na moda como paraíso turístico à beira-mar plantado. É seguramente por este motivo – e por tantos outros – que grande parte do nosso PIB está ancorado ao setor turístico…

Já tive oportunidade de descrever, neste mesmo jornal, como me apaixonei por Cacela Velha e pelo ritual pitoresco de verão, no qual chapéus de sol e outras parafernálias de verão atravessam alegremente, com as suas cores vivas, a Ria Formosa rumo ao areal da praia.

Este ano, a paixão foi – e é – outra: Sesimbra. A sua Praia da Califórnia, a sua Lagoa de Albufeira, as praias selvagens – outrora quase secretas – da serra da Arrábida, o peixe, as lulas e os chocos na brasa…

Os locais afirmam que um artigo da National Geographic, há uns anos, contribuiu para a procura intensa dos dias de hoje às praias da Arrábida, sobretudo à Praia da Ribeira do Cavalo.

É possível encontrar mil e uma atividades, mais ou menos radicais, para fazer por estas paragens. Foi numa destas atividades – talvez uma das menos radicais – a Clear Boat Experience, uma espécie de snorkeling a seco num barco 100% transparente da empresa Seatru, que fiquei a saber, através do barqueiro/guia, que existe um cidadão português e um cidadão holandês que vivem há anos nas grutas da Arrábida.

Vislumbrei, por aquelas paragens, uma casa na Praia da Cova da Mijona que tem sido habitada geração após geração. Imaginem habitar uma casa aterrada num areal completamente isolado de tudo – ainda que apenas no verão?

Aprende-se sempre imenso com estas pessoas que dão voz aos rochedos e às suas terras de geração em geração. São a enciclopédia viva das histórias das suas gentes.

A Arrábida, em dias quentes de verão, é hoje uma autêntica autoestrada de embarcações: táxis-barco para as praias, barcos de passeio, veleiros, lanchas e iates que contrastam com as toalhas e os muitos chapéus de sol que se acumulam no seu areal banhado com águas transparentes. Acredito que a proximidade à cidade de Lisboa justifique as enchentes nos dias mais quentes de verão.

Sesimbra é um poema à beira-mar plantado, com águas transparentes dignas de competir com os destinos mais paradisíacos do globo. Talvez a água seja mais fresca, mas as gentes e as ruas tatuadas com calçada portuguesa são nossas.

É lamentável que existam praias em Portugal (Comporta) com acesso exclusivo apenas para alguns. O sol, quando nasce, nasce igual para todos… Se deixarmos este princípio cair por terra, provavelmente já deixámos cair todos os outros.

P.S. Dizem que ir a Sesimbra sem ir à Casa Isaías é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa…