Se, por um lado, a humildade é uma das características que considero mais ‘sexy’ em qualquer ser humano, a tríada da solidariedade, generosidade e altruísmo desperta a minha vontade de abraçar outra pessoa, e eu até nem sou uma daquelas pessoas que se agarra aos outros com uma facilidade tremenda. O toque imediato não é algo que me traga conforto, é, portanto, uma dinâmica de conquista, regada a emoção e partilha.

Nos últimos anos tenho lido e ouvido várias reflexões sobre o natal que perguntam se ele ainda é como era quando éramos crianças ou se, hoje em dia, apenas traduz as preocupações de uma sociedade cada vez mais materialista e menos emotiva.

A grande crítica que uma maioria de pessoas faz recai no consumismo exagerado, na correria e nos atropelos em direcção às superfícies comerciais, nos dias que antecedem e incluem a véspera de natal.

O desafio da fava no bolo-rei parece ter sido substituído pelo ego de quem oferecerá o melhor e mais valioso presente.

O consumismo é criticado porque parece ter engolido as memórias de tempos antigos que nos recordam que o que importa não é a quantidade de presentes que vamos receber ou dar, nem o seu valor material, mas sim a família reunida na mesa, os primos que tantas vezes só se viam naquela noite, o cheiro da comida e dos doces que enfeitavam as paredes de um natal regado com o rosto daqueles que já partiram e que tanto amamos.

Para muitos, a recordação viva dos seus avós vive como a pintura de um quadro, associada à noite de natal.

O carinho abarrotava e o carinho é coisa que, cada vez mais, valorizamos porque o toque e as emoções parecem andar enjauladas dentro de ecrãs.

As críticas ao natal continuam porque vemos os constrangimentos e a hipocrisia dos que não se suportam o ano todo, para ,socialmente, se tentarem tolerar na noite de natal por entre os micro-enfartes da vida.

E, se hoje vemos isto, terá sido o natal que mudou ou fomos nós que, pura e simplesmente, crescemos e passamos a ver a vida tal como ela é?

Quero com tudo isto deixar um longo e apertado abraço aos que, durante estes dias, andaram numa correria, não a dos centros comerciais, mas a correria social para garantir que os órfãos que acolhem nas suas associações vão receber o brinquedo que pediram ao pai natal, tal como todas as outras crianças com que contactam na escola e nos infantários, um longo abraço aos que vão preencher os corredores dos hospitais, carregando um balão extra de amor à nuvem que já carregam todos os dias, para diminuir a dor dos que estão doentes e se sentem, naturalmente, mais sozinhos nesta quadra, e um longo abraço a todos os que vão ter um natal abundante em afectos, pelo simples facto de levarem a magia do natal aos que, sem a sua presença, se sentiriam sozinhos e excluídos socialmente.

Não me quero esquecer também de todos os da minha geração, e não só, que com algumas críticas pelo meio optaram por entrar num avião e vestir o seu natal e o do seu núcleo familiar mais pequeno ou próximo de cultura e enriquecimento pessoal. Isto de procurar momentos de felicidade que fogem a alguns padrões sociais, por vezes, gera lutas dentro das famílias, lutas essas que nem deveriam existir.

As tradições até podem mudar, a mesa até pode viajar da nossa casa para a outra ponta do planeta, mas, naquela noite, a família e o amor continuam a ser a celebração suprema e, quando falo em família, é importante perceber que a vida dá a todos a oportunidade única de escolhermos a nossa própria família, sem cinismos e hipocrisia.

O Natal ainda é o que era, sendo que uns partem, outros nascem, e todos mudamos com o ciclo da vida e com as oscilações sociais.

As luzes vão continuar a brilhar e a iluminar as ruas no natal, talvez uns anos mais do que outros, os presentes vão continuar a vestir as árvores, porque todas as ocasiões são boas para presentear os outros, quer existam saldos, quer não, não devemos ser fatalistas com o fenómeno do consumismo exacerbado que até anda em queda, devido às promoções que sucedem os dias do natal.

O verdadeiro foco está e permanecerá sempre no IAN (índice de abraços natalícios), sobretudo hoje em dia. Existe quem garanta que por estes dias os aeroportos rebentam a escala de este índice com o regresso a Portugal de tantos emigrantes.

Nesta época, felizmente, o IAN, está em alta e é um fenómeno intemporal, que inclui até os menos afectuosos, tal como eu sou.

Dentro da magia natalícia cabemos todos, em qualquer canto do planeta.

O mais importante não está em gostarmos ou não mais do natal de ontem do que o de hoje, mas sim em exportarmos para todos os dias do ano aquele que é o seu verdadeiro significado.