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Nenhum ser humano sobrevive com aplausos e pancadinhas nas costas no entanto, na essência social dos trilhos da vida, todos merecemos e precisamos do reconhecimento dos nossos pares como fonte motivacional de progresso.

É um lugar comum nas caixas de comentários das redes sociais, quando se enumera uma classe profissional sobre algum assunto, algumas pessoas reclamarem que a classe x ou y também deveria ser mencionada.

E a verdade é que durante a pandemia aplaudimos os profissionais de saúde, aplaudimos o ministério da Saúde, aplaudimos as Forças Armadas, individualizámos os aplausos e aplaudimos em força o nosso Vice-Almirante Henrique Gouveia e Melo, mas não vi ninguém aplaudir as forças de segurança que estiveram sempre nas ruas desde o dia 1 da pandemia, bem como os profissionais dos supermercados que garantiram a nossa subsistência dia após dia. Todos eles viveram a falta de equipamentos de protecção individual naqueles primórdios incertos da pandemia nos quais era essencial garantir naturalmente a existência destes equipamentos nos hospitais.

Li no site da associação dos profissionais da guarda que a GNR vai obrigar à devolução do montante recebido pelos seus profissionais referente ao subsídio extraordinário de risco no combate à pandemia da covid-19.

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Acredito que faz parte de uma saudável cidadania activa sem fins politiqueiros alertar para estas questões que no final da equação afectam as vidas de todos os cidadãos.

Todos sabemos que os polícias são mal remunerados e valorizados em Portugal, tal como o são muitas outras classes profissionais, mas temos de ser conscientes da verdadeira implicação de tudo isto na segurança do país e dos seus cidadãos. A pouca valorização destes quadros coloca em risco a qualidade da democracia e fortalece movimentos anti-sistema como o Movimento Zero.

Existe actualmente escassez de candidatos para preencher os cursos de formandos da GNR e da PSP e, perante este cenário, também se figura importante salientar o crescente défice de “qualidade ética” destes formandos para o desenvolvimento desta profissão tão importante, ainda que se prometa e se cumpra a famosa colocação das ‘bodycams”.

A título de exemplo recentemente o Jornal de Notícias noticiou que vários formandos presentes nos cursos da GNR têm processos civis a decorrer nos tribunais ,situação que seria impensável há duas décadas ou inclusivamente na década passada, quando a procura de candidatos para a GNR e para a PSP era superior à oferta de vagas.

O montante previsto no OE 2022 de 68,96 euros como subsídio de risco para quem dá o corpo às balas parece uma anedota olhando para o salário base das forças de segurança, o que seguramente não irá inverter o interesse futuro para o ingresso nesta profissão.

O crescente número de agressões gratuitas verbais ou físicas por parte de cidadãos locais ou turistas a forças de segurança, somadas à falta de valorização desta classe por parte do Estado, bem como a falta de investimento em meios logísticos e o progressivo encerramento de postos faz-me temer que qualquer dia se viva em Portugal um cenário parecido com o importado e retratado no filme brasileiro “a cidade de Deus”.

Se o Estado não protege, respeita e valoriza aqueles que nos guardam, resta perguntar quem guarda os guardas? Quem os valoriza e respeita?

Temo que o nosso país se esteja a afastar do cenário europeu e se aproxime a par e passo de alguns países da América Latina. Faz sentido o país ter um plano para 2030 de combate à pobreza, quando deveríamos ter um plano consistente de geração de riqueza.

Esta semana também foi noticiado o aumento da escassez de professores no país, autênticos pilares das nossas vidas, situação que ameaça o futuro da educação em Portugal e o nosso progresso como sociedade, o que nos deve fazer refletir a todos como sociedade, colocando as dores políticas ou a ausência delas de lado.

Por outro lado, nesta mesma semana demitiram-se médicos em mais de uma unidade hospilar, demonstrando uma vez mais que algo não está bem, ou que as prioridades actualmente definidas não são as mais correctas.

É urgente valorizar de uma vez por todas, em todos os orçamentos, os pilares que mantêm a nossa sociedade de pé ao invés de injectar milhões em bancos ou empresas de tráfego aéreo porque sem a sua base nenhuma pirâmide social e económica fica de pé.

É urgente aliviar de uma vez por todas os impostos que fazem com as economias progridam e sobretudo fazem que pessoas com mais dinheiro no bolso possam ter vidas mais dignas.