Enquanto o Estado norte-americano e muitas instituições públicas continuam parcialmente paralisados pelo shutdown, em Wall Street a festa prossegue. O prolongamento da paralisação orçamental poderá atrasar o pagamento de salários a centenas de milhares de funcionários públicos, mas os mercados financeiros parecem ignorar o impasse político e continuam junto aos máximos históricos. Parece um paradoxo, mas não é. Nestes momentos, é sempre importante revisitar a história. No anterior shutdown, o mais longo de sempre — 35 dias, entre 22 de dezembro de 2018 e 25 de janeiro de 2019, também sob o consulado de Donald Trump —, os mercados acionistas americanos subiram cerca de 10%, embora já tivessem recuado antes, penalizados pela subida das taxas de juro e pelas tensões comerciais entre os EUA e a China.

Uma paralisação governamental é sempre negativa, mas só se torna realmente problemática quando o impacto chega à economia. O adiamento, esta semana, de um investimento da Unilever nos EUA devido ao bloqueio orçamental poderá evidenciar isso mesmo. É um sinal de que o impasse político já começa a pesar na atividade económica, embora os índices acionistas ainda permaneçam indiferentes. E assim devem continuar enquanto a dinâmica positiva do mercado, alimentada pela inteligência artificial, se mantiver e não for travada pela pressão social ou pela falta de pagamento de salários, o que acabará por forçar um acordo entre republicanos e democratas.

As bolsas avançam na esperança de um desfecho rápido do shutdown. Mais cedo ou mais tarde, o entendimento surgirá, talvez precipitado por uma correção no mercado acionista ditada pelo próprio impasse político do shutdown. Seria mais uma prova do padrão a que Trump habituou os investidores neste seu segundo mandato, o TACO, “Trump Always Chickens Out”, ou seja, quando as bolsas caem, Trump recua. Por agora, parece que o presidente dos EUA quer ‘esticar a corda ao máximo’, mas todos sabem qual é o limite temporal do shutdown nos EUA.

Assim, haveria vários motivos para um abrandamento ou mesmo uma correção dos mercados acionistas, não só a paralisação governamental, mas também as dificuldades de liquidez registadas na semana passada no sistema financeiro americano e a crise orçamental e política em França, que ainda não saiu do radar dos investidores. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu já enfrentou duas moções de censura, mas falta ainda o teste mais difícil, a aprovação do Orçamento do Estado para 2026, com a reforma das pensões a dividir o espectro político. Trata-se de um dos pontos centrais para travar a despesa rígida das contas públicas gaulesas, que enfrentam sérias dificuldades em reduzir o défice orçamental para menos de 5%.

Entretanto, na semana passada, alguns pequenos bancos dos EUA evidenciaram problemas de liquidez, tal como evidenciado pelo mercado monetário norte-americano. A principal taxa de juro diária, a overnight SOFR (Secured Overnight Financing Rate), ultrapassou o limite superior do intervalo das taxas de juro do banco central dos EUA (Fed), algo que, salvo as habituais necessidades de liquidez no final do mês, trimestre ou ano, já não acontecia desde março de 2020, no início da pandemia e das fortes necessidades de liquidez ditadas pelo confinamento. O anterior episódio de stress tinha ocorrido a 17 de setembro de 2019. Os mercados acionistas, no entanto, já recuperaram desse susto e negoceiam novamente perto dos máximos históricos, mas o sinal está dado: há menos liquidez no sistema e os riscos de instabilidade financeira começam a aumentar.

Para já, o setor da inteligência artificial e tudo o que o rodeia têm conseguido impulsionar as bolsas. O próprio efeito de riqueza, alimentado pelos sucessivos máximos históricos dos índices acionistas, tem reforçado o investimento em IA. A par da política fiscal expansionista, sustentada pelos elevados défices orçamentais nos EUA, e do reinício da flexibilização monetária após a descida dos juros pela Fed em setembro, o investimento em inteligência artificial e nas respetivas infraestruturas é, neste momento, uma variável talvez mais relevante do que o próprio consumo para o crescimento económico, tendo sustentado a expansão do PIB norte-americano. O indicador GDPNow, da Fed de Atlanta, aponta para uma subida próxima de 4% do PIB no terceiro trimestre, o que tem ajudado a prolongar o dinamismo da economia dos EUA, surpreendentemente num contexto de taxas de juro ainda elevadas face ao passado recente de quase zero.

Por enquanto, Wall Street dança enquanto o Estado apaga as luzes. Mas o ritmo pode mudar se os resultados das grandes tecnológicas revelarem que a inteligência artificial não gera retornos à altura dos investimentos. Se o entusiasmo se revelar exagerado, o círculo virtuoso do efeito riqueza poderá transformar-se num círculo vicioso de correção.