A sustentabilidade e a luta contra o desperdício alimentar são causas que transcendem divisões sociais, políticas ou económicas. São missões colectivas que exigem união, colaboração e empatia, independentemente das nossas origens, profissões ou visões ideológicas. Contudo, a resposta da fundadora da cooperativa Fruta Feia a um pedido de informação relativamente a disponibilidade e preço para fornecerem fruta aos eventos da comunidade AL suscita algumas questões graves sobre como o preconceito e posições enviesadas comprometem a essência de um projecto que, em teoria, deveria ser inclusivo.
Na resposta, escrita por Isabel Soares, a cooperativa recusa-se a colaborar com alojamentos locais, justificando que o sector teria um impacto negativo na cidade e na comunidade. Esta posição, para além de discriminatória, não encontra base em factos objectivos e desconsidera o papel positivo que muitos anfitriões desempenham na promoção da economia local, no apoio a pequenos negócios e no desenvolvimento sustentável das suas comunidades. É também importante lembrar que os AL não são um grupo homogéneo, mas sim compostos por cidadãos comuns que, como qualquer outro, têm interesse em reduzir o desperdício alimentar e adoptar práticas mais sustentáveis.
Ao recusar parcerias baseando-se em preconceitos ou juízos de valor sobre um sector específico, a Fruta Feia não só exclui potenciais aliados na luta contra o desperdício alimentar, como também desvirtua os seus próprios princípios fundadores. Se cada instituição começasse a adoptar critérios subjetivos para decidir quem pode ou não beneficiar dos seus serviços, a quem serve realmente a causa maior? Devemos questionar o que aconteceria se um supermercado ou uma mercearia exigisse filiação política ou informações sobre a profissão antes de permitir uma compra. Seria inaceitável, e o mesmo princípio aplica-se aqui.
As organizações têm a responsabilidade de actuar de forma ética, justa e imparcial. Quando decisões são tomadas, como neste caso, com base em preconceitos, sejam eles políticos, económicos ou sociais, o impacto é devastador: marginalizam-se os cidadãos, comprometem-se os objectivos das instituições e enfraquece-se a confiança da sociedade nas mesmas. No caso da Fruta Feia, este tipo de viés ameaça não só a sua reputação, como também a rede de agricultores que confia na cooperativa para escoar os seus produtos e minimizar desperdícios.
A exclusão de uma classe profissional com base em julgamentos arbitrários levanta sérias questões legais e éticas. No Estado de Direito, práticas discriminatórias são passíveis de condenação, especialmente quando promovidas por entidades que beneficiam de apoio público ou comunitário. A missão da Fruta Feia deveria ser agregar cidadãos de todos os quadrantes para um objectivo comum, e não dividir com base em preconceitos.
A sustentabilidade não é um privilégio de alguns, mas uma responsabilidade de todos. Instituições como a Fruta Feia devem ser inclusivas e abertas a colaborações que amplifiquem o impacto positivo na sociedade. A luta contra o desperdício alimentar é demasiado importante para ser condicionada por interesses ou preconceitos pessoais.
Partilho esta situação na esperança que possa servir de reflexão.
Temos o dever de questionar e denunciar decisões que, em vez de construir pontes, criam divisões. E, mais importante ainda, devemos exigir transparência, imparcialidade e compromisso com os princípios de justiça e inclusão.
A sustentabilidade só será verdadeiramente alcançada quando deixarmos de lado preconceitos e trabalharmos juntos e alinhados, em prol do bem comum.