O liberalismo, outrora bandeira dos iluministas e força motriz da modernidade ocidental, entrou no século XXI com múltiplas vozes e ritmos. Longe de ser uma doutrina monolítica, assume hoje diferentes formas, consoante os contextos culturais, históricos e institucionais onde se expressa. Tal como uma partitura, a mesma melodia da liberdade pode soar como um tango apaixonado, uma valsa ponderada ou um fandango confuso, dependendo de quem conduz a orquestra, claro está.
Na Argentina, Javier Milei protagoniza uma das mais radicais experiências liberais contemporâneas. A sua receita, influenciada por Hayek e Mises, aplica-se com a intensidade de um tango argentino, cortes abruptos na despesa pública, extinção de ministérios, liberalização económica acelerada e proposta de dolarização. É uma resposta a décadas de colapso institucional, inflação crónica e descrédito político.
A aposta de Milei é clara, quando tudo falha, o choque liberal pode ser a única saída. Para uns, é um risco necessário; para outros, um salto no escuro. Seja qual for o desfecho, a Argentina serve de laboratório extremo, mas dificilmente replicável na Europa, onde os equilíbrios institucionais, sociais e políticos impõem outras prioridades.
Do outro lado do Atlântico, a Europa dança uma valsa liberal, elegante mas contida. O continente tenta conciliar o modelo de economia social de mercado com os desafios da globalização e da inovação tecnológica. A tradição de Estados de bem-estar robustos, regulamentação densa e compromisso social dificulta reformas mais audazes.
Ainda assim, alguns sinais de mudança começam a emergir, propostas de simplificação fiscal, estímulo ao investimento privado, digitalização da administração pública. No entanto, falta à Europa uma visão liberal coerente, aquela que liberte o potencial do mercado sem abdicar da coesão social. O futuro do liberalismo europeu depende dessa síntese, menos burocracia, mais liberdade económica, sem esquecer a solidariedade.
Portugal dança um fandango hesitante em matéria de liberalismo económico. Preso a um modelo estatista e paternalista, continua a confiar no Estado como motor da economia e garante de estabilidade social. A Constituição de 1976, marcada pelo espírito revolucionário, cristalizou um papel interventor do Estado difícil de reformar.
A consequência é um país com baixa produtividade, carga fiscal elevada, envelhecimento demográfico, fuga de talento e um setor público sobredimensionado. As reformas que poderiam inverter esta tendência, flexibilização do mercado de trabalho, desburocratização, privatizações seletivas, revisão fiscal, esbarram sistematicamente em resistências ideológicas e interesses instalados.
O liberalismo em Portugal não precisa de dogmatismo, mas de pragmatismo. O objetivo não é enfraquecer o Estado, mas torná-lo mais eficiente. Libertar a iniciativa privada, valorizar o mérito e atrair investimento são passos fundamentais para enfrentar os desafios da próxima década. E para isso, talvez seja preciso ter a coragem de reescrever algumas cláusulas constitucionais.
Cada país interpreta o liberalismo à sua maneira. A Argentina faz dele um grito de ruptura, a Europa um exercício de equilíbrio, e Portugal uma hesitação entre mudança e conforto. Mas todos partem do mesmo princípio, a crença de que a liberdade individual, quando bem enquadrada, é o melhor motor de progresso.
Como lembrava Friedrich Hayek, o liberalismo não impõe planos, antes confia que a ordem emergirá da liberdade de escolha dos indivíduos. Essa confiança, tão desafiadora em tempos de incerteza, continua a ser uma bússola política relevante. A lição de Milei, a prudência europeia e a inércia portuguesa são faces da mesma questão, como construir sociedades mais livres, mais justas e mais prósperas?
O século XXI exige respostas novas e coragem para mudar. O liberalismo não é uma dança fácil, mas continua a ser uma melodia promissora. O importante é não perder o compasso.