Há momentos na História que não pedem licença para entrar. Chegam, instalam-se, e só depois, por vezes décadas mais tarde,  percebemos o que ali aconteceu de verdade. A visita de Donald Trump à China pode muito bem ser um desses momentos. Não foi uma cimeira protocolar. Foi, possivelmente, o ensaio geral de uma nova ordem mundial, escrita, desta vez, não em latim num convento de Tordesilhas, mas nos corredores dourados de Pequim, onde dois homens, que se entendem sem precisar de dicionário, decidiram, em silêncio calculado, como será o século XXI.

A relação entre os Estados Unidos e a China foi, durante décadas, o grande oxímoro da geopolítica moderna. Dois gigantes condenados à dependência mútua que fingiam rivalidade existencial para consumo interno. Trump, com a sua brutalidade retórica e instinto comercial afiado, fez o que os diplomatas de carreira nunca ousariam, chamou as coisas pelo nome.

Não se trata de ingenuidade, mas sim de pragmatismo elevado à categoria de estratégia de Estado. A nova relação sino-americana não nasce da simpatia, mas da aritmética. Dois países que juntos representam mais de 40% do PIB mundial não podem dar-se ao luxo de uma ruptura real. Podem encenar tensão, e encenaram-na bem, durante anos, mas a verdadeira decisão foi sempre outra, gerir a interdependência com inteligência.

O que mudou com esta visita é que essa gestão saiu da sombra, tornou-se declaração.

Há um equívoco persistente no pensamento ocidental sobre a China, o de que Pequim é uma potência expansionista à espera do momento certo para mostrar os dentes, é o “Império do Meio”. Quem conhece a matriz civilizacional chinesa sabe que este retrato é, no mínimo, incompleto.

A China é, na sua essência mais profunda, uma nação de mercadores e de diplomatas. Ao longo de milénios, a sua estratégia de influência foi sempre comercial antes de ser militar. A Rota da Seda não foi construída com espadas, foi construída com seda, porcelana, especiarias e, acima de tudo, com a paciência de quem sabe que o tempo trabalha para si. Enquanto o Ocidente guerreava por território, a China tecia redes. Enquanto os impérios europeus mandavam frotas de guerra, o almirante Zheng He levava presentes.

O historiador britânico Niall Ferguson, estudioso das grandes potências, observou que “a China sempre preferiu a tributação simbólica à conquista directa, o que a torna não menos poderosa, mas infinitamente mais sofisticada.” Esta sofisticação não é fraqueza, é uma das mais formidáveis armas estratégicas que uma civilização pode possuir.

A postura da China ao longo da sua história é, estruturalmente, anti-belicista. Não por pacifismo ingénuo, mas porque uma nação de comerciantes sabe que a guerra destrói o que o comércio constrói.

Durante anos, o debate foi enquadrado como uma escolha binária, ou a América ou a China, ou o dólar ou o yuan, ou o petróleo ou as terras raras. Trump chegou a Pequim e fez aquilo que os seus críticos menos esperavam, recusou o enquadramento.

Porque a questão nunca foi petróleo versus terras raras. Foi sempre petróleo mais terras raras. A transição energética e a economia digital precisam de ambos, ao mesmo tempo, em quantidades industriais. Os EUA controlam os mercados energéticos fósseis e as rotas de distribuição, a China, por sua vez, controla entre 60 a 80% da extracção e refinação de minerais críticos, lítio, cobalto, neodímio, o abecedário físico da modernidade. Nenhum país, por mais poderoso que seja, consegue dispensar o que o outro tem.

Trump e Xi percebem-se como complementares porque são complementares. Dois homens que pensam em termos de activos, de posição, de vantagem negocial. Dois homens que desconfiam das ideologias e confiam nos números. Dois homens que, ao contrário de tantos líderes do seu tempo, não têm medo de sentar à mesma mesa.

Neste contexto, a mensagem que Xi enviou ao mundo foi clara e deliberada, o Irão não pode ter arma nuclear. Esta afirmação tem um peso que nenhuma resolução da ONU consegue replicar. Pequim não está disposto a deixar que actores regionais imprevisíveis perturbem a arquitectura de estabilidade que está a construir.

Moscovo observa tudo isto com uma mistura de soberba e inquietação. A Rússia, que julgou ter na China um aliado incondicional, começa a perceber que pode ficar definitivamente relegada para segundo plano, parceiro menor numa ordem que não escreveu e que cada vez menos consegue influenciar. O isolamento russo não será resultado de uma derrota militar. Será resultado de uma irrelevância económica progressiva, num mundo em que os verdadeiros protagonistas já se entenderam sem ela.

Há uma lição que a China deu ao mundo e que o mundo, por excesso de arrogância, ainda não aprendeu completamente, a de que saber aprender com os outros é, talvez, a mais poderosa forma de inteligência estratégica.

Quando Deng Xiaoping olhou para o mundo no final dos anos 70, não viu inimigos nem modelos a rejeitar. Viu laboratórios. Viu experiências em curso. E teve a grandeza e a humildade de dizer “Não importa a cor do gato, desde que cace ratos.” Esta frase, aparentemente simples, encerra uma revolução filosófica. Significa que a ideologia serve a prosperidade, e não o contrário.

O Estado chinês fez algo que nenhum manual marxista prescrevia, abandonou o controlo directo dos meios de produção sem abdicar da sua posição de árbitro último da economia. Em vez de expropriar, associou-se. Em vez de ordenar, incentivou. Em vez de sufocar o empreendedorismo, tornou-se sócio dele, mantendo participações estratégicas, regulando os mercados de cima, mas deixando que a energia criativa de 1,4 mil milhões de pessoas fluísse livremente para baixo.

O resultado foi o maior fenómeno de criação de riqueza da história da humanidade. Quinhentos milhões de pessoas saíram da pobreza em menos de quarenta anos. Cidades que não existiam tornaram-se megalópoles. Uma classe média de dimensões sem precedente ganhou poder de compra, tornou-se consumidora, tornou-se investidora, tornou-se motor de uma economia que hoje rivaliza com a maior do mundo.

Este modelo, nem capitalismo puro nem socialismo de Estado, mas uma síntese pragmática de ambos, é, paradoxalmente, aquilo que mais fascina Donald Trump. O homem que construiu um império imobiliário à base de parcerias, licenciamentos e acordos estratégicos, reconhece, no modelo chinês, uma lógica que lhe é familiar, o Estado como promotor imobiliário do país, sócio dos seus cidadãos, gestor de activos em vez de senhor de servos.

Trump admira a China não por ser autoritária, mas porque é eficaz. E há, nesse reconhecimento, uma provocação implícita ao modelo ocidental, que gasta mais tempo a discutir a forma do que a alcançar o resultado.

“As grandes viragens da história raramente são anunciadas com fanfarra. São reconhecidas, quase sempre, apenas depois de acontecidas.” Esta poderia ser uma frase de Henry Kissinger, o arquitecto da abertura americana à China em 1972, só que não foi proferida por ele, foi, antes, por uma outra individualidade que, podendo ferir susceptibilidades, não citarei o autor…

“A China não quer dominar o mundo, quer que o mundo seja suficientemente estável para que ela possa prosperar nele.” Esta leitura, defendida por académicos como Graham Allison, da Universidade de Harvard, na sua obra Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?, sugere que o confronto entre uma potência estabelecida e uma emergente não é inevitável desde que ambas as partes tenham inteligência suficiente para o evitar. Trump e Xi parecem ter essa inteligência.

O que pode nascer da visita de Trump a Pequim, e da prometida visita de Xi a Washington, é algo que o mundo não viu desde os acordos de Bretton Woods em 1944, um novo pacto de enquadramento da ordem económica global, desta vez escrito não pelos vencedores de uma guerra, mas pelos protagonistas de uma paz que escolheram construir em vez de destruir.

Não será um pacto perfeito. Não será sem tensões, sem cedências dolorosas, sem momentos de recuo e de cálculo. Mas será, potencialmente, o enquadramento que faltava para que o século XXI não repita os erros sangrentos do século XX.

Em 1494, dois reinos ibéricos sentaram-se em Tordesilhas e dividiram o mundo com uma linha. Foi arrogante, foi imperfeito, foi historicamente injusto para com todos os que não foram convidados. Mas foi, à sua maneira, um acto de pragmatismo que evitou uma guerra directa entre as duas maiores potências da época.

Em Pequim, dois homens muito diferentes sentaram-se à mesma mesa sem precisar de mapas nem de meridianos. Porque o mundo que estão a dividir, ou melhor, a partilhar, não cabe em nenhum mapa. Chama-se futuro.

E o futuro, pela primeira vez em muito tempo, parece ter endereço.

Que a História lhes seja generosa e nós, que a assistimos, tenhamos a lucidez de perceber o que estamos a ver.