Escrevo estas linhas do apeadeiro de Alvito, uma pequena vila no coração do Alentejo. É madrugada, 6h20, quando pego na bicicleta e desço até à estação. A estrada está mergulhada na escuridão – a iluminação pública não resistiu ao calendário pré-eleitoral –, mas sigo confiante, embalado pelo entusiasmo do novo “passe verde”. A promessa era irresistível: mais transportes, mais mobilidade, mais ligação entre o interior e o litoral. Vi nele a oportunidade perfeita para passar mais tempo na terra da minha família e, quem sabe, até regressar definitivamente, mantendo o meu emprego.

Sentado no banco de espera, por um instante sinto-me em Copenhaga ou Amesterdão. Eu e a bicicleta, o bilhete no bolso, os transportes públicos ao meu dispor. Sim senhor, penso, isto começa a parecer Europa.

Só que não. Chega a hora e nada. Dez, quinze, vinte, trinta minutos. Zero informações, nenhum aviso, nem um SMS. Apenas o frio e o silêncio. Pergunto-me se o comboio de ligação vai esperar. A app da CP responde quarenta minutos depois: comboio suprimido. E agora? Ao lado do apeadeiro não há nada. Olho para o próximo horário e tento comprar bilhete para o comboio seguinte. Esgotado.

É neste momento que me lembro do espetáculo montado por Miguel Pinto Luz para anunciar o passe verde. Um show de luzes, powerpoints e palavras bonitas, com a pompa e circunstância de um número de circo. A diferença é que, no filme The Greatest Showman, Barnum montou um espetáculo que, da imaginação, passou à realidade. O Ministro, pelo contrário, ficou-se pelo cartaz. A imaginação, no seu caso, é claramente maior do que a competência.

O interior de Portugal continua entregue a si próprio. Por muito que os números do PIB per capita do distrito de Beja brilhem em relatórios e rankings, a verdade é que, no terreno, o abandono persiste. Não nas palavras, mas nas ações.

Enquanto Barnum encantava multidões com animais exóticos, trapezistas e acrobacias impossíveis, Pinto Luz promete comboios que não chegam, horários que não existem, passes que não servem. É o grande showman da política portuguesa: vende-nos sonhos com a mesma destreza com que o mágico esconde o coelho na cartola. Só que, quando a cortina cai, a plateia fica a olhar para o vazio do palco.

E eu, sentado no banco frio do apeadeiro de Alvito, fico a pensar: não seria este o maior espetáculo de todos? O espetáculo de um país que aplaude de pé anúncios e promessas, mesmo quando, na realidade, a única coisa que chega a horas é a desilusão.