O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas abandonou os cenários mais sombrios e fixou o pior caso plausível em 3 a 3,5 graus de aquecimento até 2100. Em vez de descanso, esta revisão devia reforçar a exigência política. Há uma diferença entre vencer o medo e dispensar a lucidez.

Há gestos científicos que parecem técnicos e, no entanto, são profundamente civilizacionais. A decisão do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, divulgada nestes primeiros dias de maio, de abandonar o cenário extremo conhecido na literatura como RCP 8.5 e de reorganizar o seu trabalho em torno de pathways médios entre os 3 e os 3,5 graus de aquecimento até 2100, pertence a esta categoria. Não foi um anúncio. Foi uma autocorreção pública. Uma instituição com três décadas de cautela soltou da boca, com serenidade, aquilo que muitos cientistas vinham a sussurrar há anos: o pior dos piores cenários, aquele que alimentou capas de revistas, manifestos juvenis e cassandras várias, era estatisticamente improvável.

A primeira reação previsível foi o aplauso dos errados. Os mesmos comentadores que durante quinze anos negaram a urgência climática, os mesmos editorialistas que escarneceram da precaução intergovernamental, descobriram, num dia, virtude no método científico. As redes sociais encheram-se da palavra “implausível”, convertida em arma retórica para tudo o que continua, pacientemente, a aquecer a atmosfera. É a ironia conhecida das instituições maduras. Quando admitem um erro de calibração, oferecem munição a quem nunca aceitou o seu acerto.

Convém, por isso, distinguir três coisas que estão a ser publicamente confundidas.

A maturidade é diferente do sossego

A primeira distinção é metodológica. O cenário RCP 8.5 nunca foi uma previsão central, era uma extremidade modelar útil para medir sensibilidade climática a uma trajetória sem qualquer mitigação e com uma queima de carvão hiperbólica. A sua plausibilidade física foi reduzindo à medida que a transição energética avançou e que as economias asiáticas começaram a moderar a expansão termoelétrica. O abandono deste cenário não significa que tudo correu bem, significa que algumas das premissas mais negras se tornaram improváveis precisamente porque a humanidade, ainda que tarde, fez algumas coisas certas. É um sinal de que a política pública, quando insiste, move o agulheiro do real.

A segunda distinção é ética. Três graus continuam a ser três graus. A literatura científica é límpida sobre o que isto representa para os países atlânticos com costas longas, para as economias agrícolas mediterrânicas, para os ecossistemas insulares e para os PALOP. Significa colapso de muitos sistemas alimentares africanos, descontinuidade de pescarias inteiras no Atlântico Norte, retracção crítica da Amazónia, golpes severos em Bangladesh, no Vietname, em Moçambique, em São Tomé. Significa, para Portugal, perda significativa de habitabilidade no interior sul, agravamento dos incêndios mediterrânicos e pressão migratória estrutural a partir do Sahel. O sossego que alguns retiram desta revisão é, portanto, um sossego sobre a improbabilidade do apocalipse, não sobre a possibilidade de uma tragédia ordenada. É como dizer que o naufrágio será com salva-vidas, sem mencionar que muitos passageiros não saberão nadar.

A terceira distinção é política. A ciência mudou de tom porque amadureceu, mas também porque a urbanidade do debate público a obrigou a falar com mais cautela. Nos últimos anos, vários investigadores reconheceram, em entrevistas e em artigos, que a sobre-utilização do RCP 8.5 produziu um efeito perverso, fixava a discussão em horizontes apocalípticos onde o cidadão comum desistia, em vez de fixar o esforço em horizontes intermédios onde a engenharia política ainda manda. A revisão do IPCC é, em parte, uma resposta a essa erosão de plausibilidade emocional. Recusa o pânico não para nos confortar, recusa o pânico para nos devolver à zona em que a decisão é possível.

A coragem do meio termo

Há um filósofo francês contemporâneo, François Jullien, que descreve a maturidade política como a capacidade de manter, ao mesmo tempo, a serenidade do diagnóstico e a urgência da ação. A revisão do IPCC oferece-nos, sem o pretender, uma lição jullianiana. A serenidade do diagnóstico está agora explícita: a probabilidade dos quatro graus a cinco graus diminuiu. A urgência da ação, contudo, é a mesma, e é talvez maior. É que três graus de aquecimento, atingidos com economias mais ricas, sociedades mais envelhecidas e cadeias de abastecimento mais expostas, podem produzir mais sofrimento do que quatro graus contemplados em horizontes tecnológicos diferentes. A vulnerabilidade não é só função da temperatura, é função da geometria social.

A maturidade política consiste, neste caso, em recusar duas tentações simétricas. A primeira é a tentação niilista, que diz “se o pior é improvável, podemos parar”. A segunda é a tentação histérica, que continua a falar de fim do mundo num momento em que a comunidade científica baixa a voz. Entre as duas, há a estreita avenida da lucidez, aquela que admite a probabilidade alterada, mantém a vigilância, e investe a energia poupada do pânico na coragem da ação calibrada.

Portugal e a humildade dos pequenos países atentos

Para Portugal, este é um momento particularmente delicado. Somos um país atlântico, vulnerável a oscilações modestas de temperatura, com uma costa longa, uma população idosa, um interior fragilizado pela seca. Não temos o conforto territorial dos grandes Estados continentais, nem a profundidade demográfica para absorver perturbações sem ruído. Três graus, para nós, não são uma estatística confortável, são uma curva de risco com nome e morada.

A nossa resposta política não pode ser, portanto, a do alívio. Tem de ser a do reposicionamento. O que faz Portugal com a notícia de que o pior é improvável e o suficientemente mau é provável? Reorganiza a sua matriz produtiva para resiliência, não apenas para crescimento. Reorganiza a sua política de saúde pública para vagas de calor sucessivas. Reorganiza a sua política externa para diplomacia climática activa, especialmente no quadrante atlântico e lusófono. Reorganiza, sobretudo, o seu discurso. Porque um país que conhece as suas fragilidades é um país que se prepara, e um país que se prepara é um país que mantém soberania nas crises.

A lucidez como ofício

A coragem do meio termo é, no fim, um ofício. Pratica-se. Lê-se nos relatórios, calibra-se nos modelos, traduz-se em orçamentos e em leis. Tem inimigos à direita, no negacionismo travestido de prudência, e à esquerda, no catastrofismo travestido de virtude. Em ambos os flancos, há a tentação do sossego. À direita, o sossego de quem ouve “improvável” e fecha o livro. À esquerda, o sossego de quem se reconhece numa narrativa que o IPCC já não confirma.

A maturidade é o caminho do meio. É manter o ouvido afinado quando os outros se distraem. É reler os pathways médios com a paciência de quem sabe que três graus são uma chacina ordenada e não um descanso. É exigir, à União Europeia, que mantenha a sua arquitectura regulatória, e a Portugal, que use este momento para se afirmar como voz lúcida no Atlântico. A ciência mudou de tom, sim. Cabe-nos, agora, mudar de prática sem mudar de norte.