Em mais de um século de experiência republicana, Portugal conheceu três repúblicas, três tentativas de consolidar um regime que se quis apresentar como sinónimo de progresso, liberdade e modernidade. Contudo, quando se observa com o devido distanciamento histórico, o saldo é amargo: instabilidade, fracassos sucessivos e um legado de divisão que ainda hoje sufoca o debate político. A propaganda oficial e os manuais escolares tendem a enaltecer supostas conquistas das repúblicas; como a educação laica, os direitos sociais ou o sufrágio alargado; mas a verdade é que tais avanços derivaram mais do curso inevitável da História europeia do que do mérito intrínseco dos regimes republicanos que nos couberam.

A Primeira República, nascida em 1910 sob o signo da ruptura, prometia um Portugal novo, mas rapidamente se revelou um poço de desordem. Em menos de duas décadas, o país conheceu dezenas de governos, golpes e contragolpes, um descalabro financeiro e uma sociedade fraturada. O regime não soube assegurar a ordem, nem o progresso, nem tão-pouco a liberdade para além da retórica. Quando o caos abriu caminho ao Estado Novo, não foi por obra do acaso: foi a consequência directa da falência moral e política da Primeira República, que se mostrou incapaz de oferecer estabilidade e confiança.

A Segunda República, se assim podemos designar o Estado Novo, surgiu precisamente como antítese do republicanismo instável. Sob o manto autoritário de Salazar, Portugal encontrou a ordem, sim, mas à custa da liberdade. E importa dizer que esta ordem não foi um triunfo do republicanismo, antes uma sua negação: o Estado Novo construiu-se sobre os escombros da república falhada, impondo-se como remédio amargo para os desmandos anteriores.

Chegados à Terceira República, saída do 25 de Abril de 1974, esperava-se que finalmente se realizassem as promessas há muito feitas ao povo português. Mas, ao invés de abrir um espaço plural de debate e reflexão sobre a própria natureza do regime, a democracia de Abril tornou-se refém de um dogma: a república como único caminho legítimo, a monarquia como um tabu fora do campo das ideias aceitáveis. Em vez de aprender com o passado e ponderar alternativas, a Terceira República perpetuou a interdição do debate sério sobre o regime.

Curiosamente, os progressos sociais que tantas vezes se reivindicam para as repúblicas ; como a escola pública, os direitos laborais ou a expansão do sufrágio ; foram alcançados em muitos países sob monarquias constitucionais: pense-se no Reino Unido, na Bélgica, nos Países Baixos, na Suécia. Na verdade, em vários destes Estados, esses direitos chegaram mais cedo e consolidaram-se de forma mais estável e duradoura do que em Portugal. A ligação entre república e progresso não resiste, pois, ao mais ligeiro exame comparativo.

Se quisermos atribuir os méritos das conquistas do século XX, devemos antes reconhecer a força dos ventos históricos, das transformações sociais e económicas que varreram a Europa, independentemente da forma de governo. Mas, quando falamos de derrotas, aí sim, podemos e devemos apontar o dedo às repúblicas portuguesas: à desordem da Primeira, ao autoritarismo da Segunda, à estagnação moral e ao bloqueio intelectual da Terceira.

O mais grave é que continuamos hoje prisioneiros de um regime que se crê acima da crítica, como se a república fosse uma verdade inquestionável. O bloqueio ao debate sobre a monarquia ou qualquer outra alternativa não é sinal de força da Terceira República, mas sim de medo, de insegurança e de pobreza do nosso espaço cívico. Um regime confiante em si próprio não teme o escrutínio nem a concorrência de ideias. Portugal merece melhor do que este conformismo disfarçado de consenso.

A história das três repúblicas portuguesas não é a história de um sucesso adiado: é a história de um fracasso repetido. Talvez seja tempo de perder o receio de reabrir o debate que a Terceira República se encarregou de fechar. Afinal, um regime que se julga invulnerável ao exame crítico é um regime que já começou a apodrecer.