1 Está em Portugal, boa notícia. Melhor notícia ainda será dizer que voou até Lisboa para lançar o seu último livro e que livro: de sua graça “A Magia do Manuscrito” (Taschen) mas é preciso abri-lo, folheá-lo, lê-lo, estudá-lo, para acreditar na extraordinária aventura que encerra e o seu autor nos dá a ver. O autor chama-se Pedro Corrêa do Lago e é um dos maiores – ou o maior? – colecionadores privados do mundo em manuscritos. Ainda agora, há poucos meses, a Morgan Library&Museum de Nova Iorque expôs uma grande parte dessa raríssima colecção que a Taschen resolveu imprimir em livro. Um acontecimento, muito mais que apenas literário, que ocorerrá amanhã, na Livraria Travessa.

Em sua honra ressuscitei das misteriosas caves informáticas onde jazz o que escrevemos, uma parte do que aqui deixei há quatro anos sobre Pedro Corrêa do Lago, quando um dia ele me levou pela mão a conhecer, em S. Paulo, as suas jóias preciosas. Quem saber talvez esta reedição do texto de ontem contribua hoje para o anúncio da boa nova que é este livro, homenageando de caminho a personalidade brilhantemente multifacetada do seu autor: um brasileiro invulgar que personifica o melhor da elite cultural do seu país

2 Ei-lo: Pedro Corrêa do Lago é indefinível. Não tem idade mesmo que eu informe que tem 58 anos. É maior que o seu currículo mesmo que eu aqui o decline ou esclareça que interpreta a cultura como um modo de vida – na história da arte, na autoria de várias obras, na museologia, na coleção de livros raros, na edição, na curadoria; é mais interessante que os seus cargos e ofícios mesmo que eu sublinhe que presidiu à Fundação da Biblioteca Nacional do Brasil; que foi livreiro-antiquário com livraria em nome próprio; que encena exposições nos melhores museus da Europa; que representou a Sotheby’s em S. Paulo, durante vinte anos.

Ou mesmo que refira ainda que este cidadão brasileiro é um dotado poliglota que pensa e oficia usando da claridade grave do seu francês, da fluidez poética do verbo italiano, da secura veloz do inglês ou do seu português musical.

Não é que estas características e talentos sejam indiferentes ou sequer modestos, longe disso, mas não bastam para o explicar, falta o resto. Há o resto. Uma “diferença”, de novo não totalmente traduzível em linguagem nossa conhecida: chamá-lo de criativo, curioso, intuitivo, paciente, persistente; dizer que tem gosto e talento e teve sorte, é talvez ainda não captar o seu golpe de asa. Foi com isso – ninguém me disse mas tenho a certeza – que ele se fez. E que depois, foi andando.

3 Dizem que o berço ajuda. Porventura. Nasceu numa das melhores famílias brasileiras, é filho e irmão de diplomatas, neto de um grande e prestigiadíssimo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Osvaldo Aranha. Herdou o que de melhor tem um bom berço: a educação, a cultura, o culto do trabalho, as boas maneiras. Era uma vez… um pai, embaixador, que recebia em casa o “Who’ s who”, a edição inglesa anual publicada desde 1849, que inclui gente relevante de todos os setores e lugares. Pedro lembra-se de si com doze, treze anos a desfiar as páginas desses “almanaques” envelhecidos, extasiado com as fotos e curioso sobre as breves notas biográficas (pedidas pela editora na alínea que dizia “present position”) da gente que o mundo considerava “alguém”. A resposta de De Gaulle, por exemplo, mandada de Londres em 1942, escrevia-se numa linha: “líder da França livre”.O miúdo quis saber mais: no regresso das aulas na escola francesa – na Bélgica, onde à época seu pai estava em posto – decidiu escrever a esses tão diversos “alguéns”, dizendo-lhes ao que vinha: “tenho doze anos, sou o Pedro Corrêa do Lago e quero um autógrafo seu. Conheço-o do Who’s who”. Muitos deles responderam – na altura havia mais tempo para o tempo. Os pais “achavam graça”, os irmãos ironizavam. Mas na volta do correio, o adolescente curioso ia guardando religiosamente os postais ou bilhetes que acompanhavam os autógrafos onde por vezes constava também a surpresa pela iniciativa do adolescente. Sem surpresa, porém, nascia uma coleção. Poucos anos depois, apurando o gosto (“meu gosto veio da minha curiosidade, eu possuía uma genética predisposta para isto…”) mergulha no mundos dos livreiros e dos mercados e também se apura a lidar com uns e outros. Estudou no estrangeiro, frequentou a universidade já no Brasil, é Mestre em Economia, mas a verdade é que começara, “ainda garoto”, a estagiar num banco: “eu tinha o gosto dos papeis mas não o dinheiro, então fui à procura dele…”

Foi o princípio de uma vida com cheiro a papel. E o primeiro sinal do seu golpe da asa.

4 Tudo o que se ia desenrolando diante dos meus olhos mais se assemelhava a uma vertigem. Mas seria ela verdadeira? Era eu que estava naquela casa onde nunca fora, num jardim que não conhecia, na manhã enevoada de uma cidade brasileira? Diante de um cavalheiro que, com uma elegância leve fingia não se envaidecer com as preciosidades escondidas nos seus gavetões, uma das maiores coleções privadas mundiais de manuscritos?

Dizer vertigem era pouco para quem, como nós ambos ali, se permitia manusear fisicamente, dez séculos de História (o primeiro documento, de natureza papal, remonta a 1140) através do espólio raro de escritos, cartas, documentos, apontamentos, desenhos. Testemunhos políticos, religiosos, culturais, científicos, artísticos – da história da nossa civilização e também desse continente que é o Brasil, e que se abrigavam, uma e outro, na morada quase banal de um cidadão privado brasileiro.

Quanta vida naquelas gavetas de aço, vindas especialmente de uma fábrica europeia e construídas “à prova de tudo” – assaltos, bombas ,cataclismos – para garantir a paz definitiva ao bocado da eternidade que se arrumava lá dentro?

“Já viu a História que está aqui, impressa nos documentos destes Papas, Reis, Imperadores?” perguntava-me Correa Lago, olhando desvanecido os “seus” documentos: “Quantas lágrimas de alegria, condolências, sofrimento; quanta tensão nestas declarações de guerra, nomeações, demissões, quanta raiva nessas traições, desesperos; quantos amores e desamores nessas cartas? Tanta emoção e palpitação…” Sim, tanta, pensei eu. Passar-se-ia ali uma vida.

“Você está habituada a ver mil e mil rostos, não é? Conhece-os a todos , sem esforço, eu conheço mil e mil caligrafias diferentes…”sorria ele.

5 Portugal? Sim, havia Portugal, claro. D. João VI, obviamente, com alguma documentação dessa que “mudou a história do Brasil” como lembra Corrêa do Lago, aludindo às cartas de D. Pedro I a D. Pedro II, por exemplo. Mas existiam outros papéis de outras dinastias e reis (D. Dinis, João I, D. Duarte, uma pasta dedicada a D. Manuel, uma carta de D. Sebastião a Felipe II). Mas também Pessoa, Almada, Garret, Antero, Júlio Dinis, Cesário, Camilo, Eça, Teixeira de Pascoaes, Dantas, Castilho, Conde de Ficalho. E desenhos de Columbano ou Sousa Pinto…

6 E tantas, tantas mais coisas que pude olhar. Mas… selecionar o quê? Escolher como? Falar da carta de Mozart a Constança? Da missiva de Henrique VIII a Luís XII da França? Da História feita por Catarina a Grande, Carlos V, Luís XVI, Richelieu, Maria Teresa da Áustria, Lucrécia Borgia, Ludwig da Baviera, Napoleão, Rainha Vitória, Lord Nelson, Duque de Windsor, Churchill, De Gaulle? Kennedy? De Rasputine, Estaline, Lenine, Trosky,? Das “belles lettres” da Contesse du Bary ou antes de Baudelaire, ou Borges, ou Becket? E Dostoievsky, Lorca, Flaubert, Lampedusa, Camus, Sartre, Eça, Hemingway?

“Olha estes rascunhos de poemas, com suas hesitações, dúvidas, as palavras cortadas, as emendas…” sublinha-me o entusiasmo de Pedro Correêa do Lago:

“Vê esse mistério que é a inspiração mas que já está aqui, nesses primeiros esboços de obras primas, como a maior de todas do século XX que foi “A La Recherche du Temps Perdu”, do Proust, olha só…” Olhei com um deleite quase incrédulo a caligrafia de Proust, num longo rascunho, rasurado, legível, autêntico. E depois “vi” Rubens, Matisse, Picasso, Renoir, ah e tantos outros diante de quem sonhamos nos museus ou nos maravilhamos com a suas linhas, como as de Courbusier ou Frank Lloyd Wright, também eles ali. Podia continuar. Com Chaplin, por exemplo, ou Walt Disney, ou Hitchcock, ou Garbo, ou Orson Welles. Continuar, porventura até á eternidade. Mas decidi dizer “Amen” a mim mesma: foi diante de S. Francisco de Salles e de S. Vicente de Paulo, “encarnados” no papel ali guardado. Mas devia de haver mais santos…

7 Legumes grelhados, peixe e verduras cruas para o almoço. Saboreámos tudo isso por entre uma sedutora desordem de caixas, papeis, telas e quadros encostados às paredes porque “não houve ainda tempo nem sítio para os arrumar”; livros, em mesas, cadeiras, sofás; objetos de arte e mais livros, pelo chão. Pedro Corrêa do Lago é proprietário, com sua mulher, Beatriz Fonseca (filha do escritor Ruben Fonseca) da “Capivara”, nome de pássaro mas titulo da mais requintada, mais exigente editora de livros de arte do Brasil. Alguns escritos aliás pelo próprio Pedro, sobre altas figuras da arte e da pintura relacionadas com o presente e passado do Brasil. Aproveitei a pausa á mesa do almoço para também saciar a curiosidade: como foi ele “domesticando” e organizando todo aquele vastíssimo espólio?

Organizou-o em redor de seis sólidas colecções – História, Arte, Ciência, Música, Literatura, Entretenimento (cinema, teatro, moda). E diz-me julgar que “em relação a certos ‘cânones’ geralmente aceites, é suposto faltarem-lhe poucas coisas para atingir o que define uma razoável coleção de documentos. ”A conversa flui, falamos disto e daquilo, das muitas viagens que faz em busca de tesouros ou então para aconselhar aquisições a terceiros; de Lisboa onde gosta de vir, de amigos comuns. De súbito, uma mosca assassina sobrevoa obsessivamente a mesa, parando por vezes ameaçadoramente sobre o peixe dos nossos pratos. O meu interlocutor impacienta-se, chama o empregado, “nunca se viu mosca aqui…” O insecto não desarma, passam minutos, a conversa desfalece. A irritação sobe de grau. Suspenso daquele voo rasante e do seu zumbido, Pedro Corrêa do Lago quase explode e eis que uma das pastas do arquivo que ele trouxera para a mesa, desaba com fúria sobre a mosca: “Já tinha visto alguém matar moscas com Van Gogh? Ah, não se aflija não, esse plástico é duríssimo…”

8 Deixei aqui nomes a eito e avulso, de épocas demasiado misturadas mas dificilmente haveria o poderia ter feito de outro modo. A expectativa de um abrir e fechar de gavetas e a sôfrega curiosidade de uma “deambulação” ao acaso por pastas e maços de papel, impediam qualquer outro “método” para coisa tão memorável. (Pequena nota: esta minha visita, inesquecível e nunca “retribuível”, foi uma cortesia pessoal, de modo nenhum se revestindo de carácter profissional, o que explica que não me tivesse permitido tomar notas sobre documento algum e ainda menos transcrevê-los para aqui). O que interessa é que, embora em diversíssimos níveis de interesse ou de relevância histórica, observei grandes actos criadores impressos em papel; alguns registos de cruciais momentos da carta da humanidade; correspondência fundamental entre gente fundamental; sinais de génio; rascunhos de grandes hinos de amor; desenhos incertos e ansiosos tracejados de lápis; fait divers, pequenas anedotas, breves apontamentos, fotos, croquis…Tudo enfim o que cerziu, ao longo de séculos, uma tapeçaria a que vulgarmente chamamos civilização.

9 Se o Brasil é um país espantosamente criativo, as elites brasileiras podem também por vezes ser formidáveis. Cultas, fortes, vencedoras, capazes de brilhar em sectores que as colocam no topo de muita coisa, em diversos lugares deste vasto mundo. Pedro Corrêa do Lago tem, repito, lugar cativo nessa elite. E a “Magia do Manuscrito” passará a ter. Um feito: numa época que intencionalmente baniu o papel e o substituiu pela hidra informática, cultivar o manuscrito com tão devotada paixão e tão poderoso afinco, é um feito sim. E uma assinatura que honra a cultura e a vida.