Faz quinze dias que o actual primeiro-ministro declarou que 2017 é «um ano particularmente saboroso para Portugal». A verdade é que pouca gente fora do governo e dos seus aliados terá percebido a triste ironia de uma declaração daquelas depois da maior série de desastres gravíssimos que puseram a nu a incompetência e a falta de consciência política do governo. E o ano só findou com toda uma série de incidentes que fizeram reaparecer essa corrupção larvar que nunca deixou de minar o nosso sistema político!

O governo não só não se dá conta que os indicadores económicos que tanto badala não são tudo, como crê que a generalidade das pessoas se alimenta de ideologia e de tricas partidárias. Para uma coligação governamental que fez do Estado o princípio e o fim da vida social, é de surpreender que não perceba que os gastos públicos e o comportamento individual e colectivo do pessoal político, bem como das suas clientelas, constituam uma referência central da avaliação que as pessoas fazem dos governos e dos partidos.

É por isso que todos os actos provados e prováveis de corrupção por parte dos ocupantes do aparelho de Estado não só aprofundam aquilo que um estudioso chamou «a distância ao poder» sentida pelo comum dos mortais, como os afasta dos partidos e especialmente dos governantes no pelouro. Não é um mistério que é desse «distanciamento» que provém, em boa parte, a tendência cada vez maior de o eleitorado se abster nas eleições, concretamente em Portugal, onde nas últimas legislativas, entre os que não compareceram às urnas e os votos brancos e nulos, absteve-se quase 50% do eleitorado; e nas presidenciais, onde o mais votado não chegou a 25% dos inscritos.

Independentemente da opinião que tenhamos acerca de um sistema político cuja Constituição nunca foi votada, bem como nunca foram votadas as decisões relativas à União Europeia, e de um sistema de partidos virtualmente idêntico àquele que surgiu das primeiras eleições livres em 1975, em suma, um sistema político-partidário com 40 anos, não referendado e praticamente imutável, onde apenas dois partidos apenas chegam ao topo, independentemente pois das opiniões acerca destas quatro décadas de rotativismo mal mascarado, no qual metade dos eleitores não se revê, o certo é que sucessivas gerações de portugueses se alhearam desse sistema e metem no mesmo saco todos os seus agentes que se aproveitam ou parecem aproveitar-se dos benefícios materiais propiciados pelo poder estatal: dinheiro e empregos!

Não é de admirar que episódios lamentáveis como o da alegada IPSS das «Raríssimas», com a demissão de mais um membro do governo e a ameaça pendente sobre um ministro, enquanto o primeiro é substituído à pressa por um familiar próximo de um antigo ministro e actual deputado europeu do mesmo partido, não espanta pois que isso surja como a repetição dos mesmos procedimentos ilícitos de compadrio e possível desvio de dinheiros públicos. Ao mesmo tempo, rebentam nos «media» operações de duvidosa lisura como a do «pernil venezuelano»…

Não é isto que tornará mais «saborosas» as memórias de 2017! E menos ainda o serão as memórias do incidente gravíssimo com que o ano fechou. Estou a falar da reunião secreta dos partidos na qual, sem nome dos participantes nem actas da discussão, foi decidido à nossa revelia aumentar os proventos desses mesmos partidos. Uma vergonha que só pode ter fabricado mais abstencionistas futuros!

A este respeito há, com efeito, sete coisas a sublinhar. Primeiro: se não se tratasse de algo que os partidos já sabiam ser desaprovado pela opinião pública, por que razão se esconderam os partidos como conspiradores? Segundo: é hipócrita o BE ao pretender, depois de ter votado com os seus cúmplices, sacudir a água do capote de «amigo do povo» com que costuma apresentar-se ao público. Terceiro: foi esperto o CDS ao revelar o segredo, pois se vier a perder os benefícios aprovados, ganhará a fama de ter denunciado o «truque» e isso pode garantir-lhe um lugar num futuro «bloco central». Quarto: a propósito de «bloco central», esta convergência clandestina entre o PS e o PSD, nada de bom augura quanto a este último nem quanto ao seu futuro líder. Quinto: quase apostaria que o Presidente da República vai «vetar» o decreto. Sexto: se o PR não tiver coragem e os partidos persistirem com o abuso de confiança, esperemos que o Tribunal Constitucional invente um pretexto qualquer para «chumbar» o decreto.

Por último, temo que pouco tenham entendido do assunto os comentadores que, genuinamente convencidos que a democracia precisa de partidos, acham que o Estado tem de lhes pagar. Não: os partidos é que precisam da democracia para serem livres de se constituir, agir e eventualmente exercer o poder. Os partidos são produtos da sociedade e do facto de esta ser plural, mas não temos de ser nós a pagar-lhes, a não ser voluntariamente, como houve quem o fizesse sob a ditadura. Pretender pagar aos partidos desta maneira clandestina só tem contribuído para a perda de prestígio deles e, significativamente, não da democracia!