As recentes notícias sobre a nova sede do Banco de Portugal não deixam de causar perplexidade aos cidadãos.

Por um lado há o facto de a operação ter sido decidida a poucas semanas do final do mandato, como se se tratasse de uma situação de urgência.

Mas a principal razão de estranheza é os cidadãos ficarem a saber que o Banco ainda planeia manter ou mesmo aumentar o grande número de funcionários que emprega, a ponto de se dispor a gastar duzentos milhões de euros para acomodá-los, sendo certo que aquela entidade, ao aderir ao Sistema Europeu de Bancos Centrais, quando Portugal entrou no Eurogrupo, cedeu o exercício da maior parte das suas competências ao Banco Central Europeu.

Poder-se-á argumentar que o cidadão comum não faz ideia de quantos funcionários necessita o Banco para as suas actividades. Realmente é fácil saber quantos empregados necessita uma mercearia de bairro, mas é difícil acertar na quantidade de cérebros que têm que dedicar-se ao estudo da economia e finanças para apoio às decisões governamentais, ou para supervisar a actividade dos bancos comerciais que operam no mercado nacional. Para esta última actividade devem ser precisas muitas cabeças, tendo em conta que as usadas pelo Banco de Portugal nos anos anteriores a 2014 não conseguiram impedir que muitas pessoas ficassem escaldadas com o colapso do BES. E a supervisão é indispensável para proteger os clientes dos bancos, já que o Estado os autoriza a estar de porta aberta para receber depósitos.

Mesmo dando de barato que o cidadão comum é um ignorante quanto a essas questões, é natural que ele ache lógico que, lá pelo já longínquo ano de 2002, com a adesão ao Euro, o Banco de Portugal tenha começado a desmobilizar o seu “staff”, talvez suavemente para evitar rebuliço, mas aproveitando as reformas dos empregados, simplesmente não admitindo novos. Afinal, contribuiu para o capital do Banco Central Europeu com 205 milhões de euros, um pouquito mas de boa vontade, pelo que seria de esperar algum esforço para recuperar esse dinheiro, que, em última análise, pertence aos contribuintes.

Felizmente, há pelo menos uma virtude na vetusta instituição, que é a transparência suficiente para sabermos facilmente quanta gente emprega. Através dos seus relatórios de contas anuais sabemos quanto gasta em pessoal e quantos trabalhadores tem. Iniciando a busca pelo ano de 1995, quando ainda era um banco central como o de qualquer outro país, uns anos antes da mudança do Escudo para o Euro, e mesmo do período de transição, verificamos um quadro de pessoal de 1.771 pessoas. Continuando a análise constatamos que, a partir de 2001, começa efectivamente, como era expectável, uma redução do pessoal lenta mas persistente até 2010, quando atinge uma diminuição de 10%. Mas, a partir da segunda década, o quadro volta a aumentar, alcançando em 2024 praticamente o mesmo número da época que precedeu o arranque do Euro.

Como seria de esperar, a despesa sofreu uma evolução semelhante. A preços constantes, os gastos com o pessoal são muito idênticos aos dos últimos anos do século passado, pelo que podemos estar seguros de que a recuperação do capital investido no BCE ainda terá que esperar.

Tinha que ser assim ou poderia ser diferente? Como procederam os outros bancos centrais europeus que passaram pela mesma transformação?

Seguramente que podemos encontrar bancos centrais com comportamento idêntico. Dirão as más línguas que os outros países também têm partidos que precisam de colocar as suas pontas de lança, e lóbis para todos os gostos.

Mas há pelo menos uma réstea de bom senso: o Deutsche Bundesbank, no seu relatório anual, e ao dar conta do número de trabalhadores, faz sempre questão de salientar a “contracção desde 31 de Dezembro de 2001”. Verificamos assim que, em 2024, já tinha reduzido 31,1% do seu quadro de pessoal.

Se pelo menos um banco congénere procedeu a uma redução paulatina mas significativa do seu pessoal na sequência da integração na zona Euro, parece que, afinal, o cidadão comum tinha alguma razão. E, como agora temos um ministro dedicado à reforma do Estado, vemos que trabalho não lhe falta.