Rádio Observador

Exploração Espacial

Um dos desafios da Medicina do Século XXI: a nova era Espacial

Autor
  • Edson Oliveira
178

Agora será diferente pois, se não houver sobressaltos, nos próximos anos será possível cada um de nós pagar um bilhete e ver o nosso planeta como nunca antes o observou, a flutuar a 80km de altitude.

Comemora-se este ano um dos grandes feitos da Humanidade: a chegada do Homem à Lua a 20 de Julho de 1969. A realidade é que quando se iniciou a “corrida espacial” protagonizada pela URSS e pelos EUA, nada se sabia acerca das alterações fisiológicas que poderiam ocorrer no corpo humano num ambiente sem gravidade e os primeiros homens que foram lançados para fora do nosso planeta foram as cobaias, precedidas apenas pelas experiências com a cadela Laika e o macaco Albert que confirmaram apenas que um ser vivo sobreviveria a um voo orbital.

Desde esse período muita coisa mudou, nunca mais voltámos a visitar o nosso satélite e nos últimos 20 anos focámo-nos no desenvolvimento daquele que é talvez o laboratório cientifico mais complexo da atualidade, a Estação Espacial Internacional (mais conhecida por ISS),  que foi possível construir com o esforço concertado de múltiplas nações, sem rivalidades, para o bem da Humanidade.

E a Humanidade tem beneficiado deste ambicioso projeto pois os resultados das múltiplas experiências realizadas têm sido aplicadas na investigação de novos fármacos, vacinas, linhas celulares, tratamentos para múltiplas doenças desde o cancro às doenças neurodegenerativas ou autoimunes, assim como desenvolvimento de tecnologia ao nível da imagem, ecografia e proteção contra a radiação. Conseguimos descobrir e explorar novas funcionalidades do corpo humano, resultado da adaptação ao ambiente sem gravidade. Todos os sistemas sofrem algum tipo de alteração: cardiovascular, gastrointestinal, neuro-vestibular, osteo-muscular, renal, neuro-ocular. E deste modo conseguimos compreender melhor como cada sistema funciona na tentativa de se adaptar ao momento em que chegamos a órbita.

Até hoje não aconteceu nenhum evento fatal ou a necessidade de evacuação médica urgente na ISS, mas os astronautas são submetidos a um processo de seleção extremamente rigoroso que inclui capacidade física e mental para conseguir suportar este ambiente hostil. Claro que tudo isto se poderá alterar no futuro próximo devido a duas novas realidades: a extensão da exploração espacial a novos planetas (sendo Marte o objetivo principal) e o advento dos voos comerciais espaciais que serão reservados inicialmente a pessoas com maior disponibilidade financeira.

Com o primeiro desafio surge o problema decorrente de uma viagem pioneira mas longa (cerca de 3 anos). Será a tripulação selecionada capaz de manter estabilidade emocional? E do ponto de vista nutricional como mantemos a tripulação saudável? E se ocorre um evento médico adverso com necessidade de uma evacuação? E quando chegarem a Marte terão a capacidade física para cumprirem a missão?

Um das coisas que mantém os astronautas mentalmente equilibrados é o facto de olharem pela janela e conseguirem ver a sua casa, poderem telefonar quando quiserem para a família e se necessário falar com o médico responsável caso haja algum problema. Quando chega um veículo de transporte traz sempre alimentação fresca e pequenos “mimos” enviados pela família. Estão longe mas sentem-se perto. Nada disso acontecerá numa viagem a Marte. Não poderão voltar para trás e as comunicações terão sempre um atraso no sinal. Muitos protocolos médicos estão a ser desenvolvidos e têm ocorridos inúmeras simulações em ambientes inóspitos como no deserto de Omã ou no Utah. Mas nunca será igual! E mesmo havendo futuras missões à Lua estas não são equiparáveis pois são 3 dias de distância, havendo alguma capacidade de resposta a eventuais adversidades.

Os voos comerciais impõem um desafio médico diferente. Haverá critérios de seleção do ponto de vista de saúde física e mental mas o maior será o financeiro, pelo menos enquanto a oferta não aumentar. A realidade é que ninguém sabe em larga escala os efeitos de um experiência sem gravidade em pessoas com múltiplas doenças, muitas delas decorrentes apenas da idade. E qual é o limite? Até onde é que estas empresas estão dispostas a arriscar? E terão as pessoas noção real destes riscos? Este tipo de experiência não é o mesmo que andar de avião, pois tem riscos inerentes que excedem esse transporte que se tornou o mais seguro do nosso quotidiano.

Não tenho dúvida que o futuro da exploração espacial está dependente destas empresas privadas devido aos custos cada vez maiores e que provavelmente as tornarão responsáveis pelo lançamento de  astronautas das agências espaciais governamentais e pela construção de futuras estações espaciais. Mas uma coisa é a entrada destas empresas no negócios com as agências espaciais governamentais para diminuir custos logísticos e de transporte, outra é a abertura do mercado ao comum dos mortais que tem o sonho e a capacidade financeira para o realizar. Tem de haver regulação e monitorização por agências governamentais para mitigar os riscos médicos (que nunca serão nulos), à semelhança da aviação civil.

Vivemos uma nova época da conquista espacial a uma velocidade apenas equiparável ao que se passou nos anos 60. Mas agora é diferente pois, se não houver sobressaltos, acredito que nos próximos anos será possível cada um de nós pagar um bilhete e ver o nosso planeta como nunca antes o observou, a flutuar a 80km de altitude.

Membro do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)