Haverá outras formas de dizer isto, provavelmente mais simpáticas, mas o facto é que José Peseiro tem cara de derrotado. Como o rosto vitorioso de alguns indivíduos afronta, humilha, o rosto atreito à derrota, à miséria, convoca a nossa compaixão. Porque é que falo de Peseiro se ele nem está no Mundial? É que o estou a ver aqui à minha frente, na capa de uma jornal desportivo, com um sorriso que não me engana. Naquela fisionomia obnóxia estão inscritas todas as derrotas do passado e prenunciadas todas as derrotas do futuro. Podem argumentar que nada disto é científico, mas olhem bem para Peseiro e digam-me se há ali algo da natureza intimidatória, vagamente irritante, do vencedor? Pois, não há.

Resolvida a questão Peseiro, regressemos ao Mundial. Pobre Uruguai! Sem Cavani, o campo ficou muito grande. Suárez procurava-o como quem procura a perna direita. Como um McCartney sem Lennon, bem que assobiava, mas só lhe saíam coisas como “Ebony and Ivory” e “No More Lonely Nights”. Privado do seu sócio, o avançado do Barcelona viu-se sem dentes. Correu, chateou, bateu com prudência, fez tudo o que se espera de Suárez dentro das leis do jogo. Porém, pareceu sempre inofensivo, nada mais que um rafeiro atrevido.

Este foi um jogo muito semelhante ao Alemanha-França de há quatro anos, também nos quartos-de-final. O que a Alemanha fez então à França, hoje a França fez ao Uruguai, apertando o adversário num abraço que só se percebe que é constritor quando o oxigénio deixa de chegar ao cérebro. Giménez, o central uruguaio, percebeu-o ainda a tempo de nos proporcionar um momento inesquecível: a dois minutos do jogo acabar, com o Uruguai a perder 2-0, não controlou o choro. Muslera também já tinha tido a sua paragem cerebral quando deu um daqueles frangos tão monumentais que nem sequer destroem carreiras, antes criam lendas. Muslera deu hoje o seu frango eterno. Não será esquecido.

Mais do que a comparação com o jogo de há quatro anos, talvez faça sentido dizer que o Uruguai provou do veneno com que tinha derrotado Portugal. Veneno que, por sua vez, Portugal já tinha usado contra Marrocos, por exemplo. Portanto, se a Bélgica empregar o mesmo método para ultrapassar a França podemos dizer que isto não é tanto um Mundial como um fim-de-semana com a família dos Bórgias. Também não faltou ao jogo alguma dose de violência física, de quezílias, quiproquós, pisadelas, admoestações e reprimendas. As coisas atingiram um nível Copa Liberadores e, a certa altura, nem a imponência castrense de Néstor Pitana sossegou os ânimos. Ainda escreverei sobre este árbitro argentino que tem a presença física de um marine – ou, como diria Gabriel Mithá Ribeiro, o físico ideal para professor na Margem Sul – e a vocação teatral de quem ama as luzes da ribalta.

Quando o futebol é quezilento, sem imaginação, o adepto faminto até na exibição do árbitro procura consolo. Verdade seja dita, quando se chega aos quartos-de-final nenhuma equipa é amável. Dizia Balzac que por trás de uma grande fortuna há sempre um grande crime. Ora, eu acredito que uma presença nos quartos-de-final oculta sempre uma desonestidade fundamental, um crime de Ananias. Ninguém chega a esta fase impunemente. Amei a França que bateu a Argentina. Porém, assim que a projectei nos quartos-de-final, regressaram-me à memória os pecados originais de todos os jogadores franceses – que digo eu? –, de toda a França desde Carlos Magno.

Era assim que pensava antes de ver o Brasil-Bélgica. E não é que os quartos-de-final podem ter não uma, mas duas equipas amáveis? Mesmo descontando o efeito da emoção recente, proclamo que este foi o Brasil que mais gostei de ver jogar em mundiais. Mesmo a perder, nunca perdeu a cabeça, a organização, a fluidez. Criou oportunidades a jogar o seu futebol e isto, sem condescendência alguma, vale certamente alguma coisa. A Bélgica teve um treinador que soube preparar o jogo, teve Witsel e Fellaini, teve Lukaku, teve De Bruyne, teve Courtois, teve Hazard e, quando tudo isto falhou, teve sorte. Contra isto, Tite nada podia.