Todos se hão-de lembrar da fábula de La Fontaine sobre duas panelas, uma de ferro e outra de barro, que eram amigas. Um dia, a panela de ferro convidou a panela de barro para um passeio fora da cozinha. A panela de barro recusou; tinha medo. A rua era um sítio perigoso para uma panela de barro. Podia partir-se. A panela de ferro insistiu – Vou estar sempre ao teu lado e protejo-te! O desfecho foi trágico. Passadas algumas dezenas de metros, a panela de ferro tropeçou, caiu sobre a panela de barro e partiu-a em cacos, levantando-se depois, inteira.

Aparentemente inverosímil, esta narrativa concretizou-se no passado fim de semana, com o Partido Comunista Português, o Bloco de Esquerda e o Livre – os três desfeitos pela panela de ferro que é o Partido Socialista.

Estes resultados eleitorais são preocupantes não só porque demonstram a força crescente de uma extrema-direita populista e muitas vezes contrária aos valores que até há pouco tempo considerávamos unânimes, mas sobretudo porque demonstram a falência da democracia à esquerda.

Dizia Henry Ford que todos os clientes eram livres de escolher a cor do seu carro, desde que escolhessem preto – uma anedota que descreve bem o que é um sistema democrático de faz de conta. De facto, uma democracia saudável é por natureza plural. Não existe verdadeira democracia quando os cidadãos não têm alternativas à sua escolha.

Entretanto, do outro lado da trincheira ideológica, a direita conseguiu produzir vários candidatos credíveis, com candidaturas sólidas, a alcançarem cada um mais de 10%. O resultado final foi lamentável, claro. Não foi possível fazer passar à segunda volta um candidato moderado.

Ainda assim e mesmo que as probabilidades recaiam sobre a candidatura de António José Seguro, a recusa do eleitorado de direita no voto útil prova definitivamente a sua força inequívoca em Portugal. Contas feitas, os candidatos que contavam com apoios dos partidos à direita somaram perto de 63% dos votos.

Os países da Europa, berço da Democracia, devem almejar sistemas democráticos saudáveis e plurais, longe de exemplos bipolares como o Brasil, onde a escolha se limita a Lula da Silva ou Jair Bolsonaro, ou os Estados Unidos da América, onde se escolhe entre Democratas e Republicanos.

Mas apesar de a tendência de pluralização da direita e unificação da esquerda se verificar em diversos países do velho continente, há outros onde este padrão não se verifica e que devem, também por esse motivo, ser tidos como exemplo.

Neste contexto, veja-se o caso da Alemanha, que mantém um sistema partidário relativamente estável e simétrico, com uma direita concentrada em torno da CDU/CSU e uma esquerda que se distribui por vários partidos, nenhum dependendo estruturalmente do voto útil. Também nos Países Baixos a fragmentação é generalizada, atingindo a esquerda e a direita de forma semelhante. O mesmo na Dinamarca, onde o voto útil é residual.

Sabemos que os candidatos fazem as afirmações que forem necessárias para garantir o voto do eleitorado e conquistar a vitória. Mas é preciso notar que o apelo ao voto útil é um apelo à bipolarização do sistema político e ao fim da Democracia útil. Alguém que aspira ao lugar político mais elevado do país, não deveria fazer tal apelo.